Coisas do Coração

O feijão e o sonho na Portela

Posted in Coração by adilson borges on 6 de julho de 2009

 

A Portela abre as asas sobre nós

A Portela abre as asas sobre nós

 

Quem consultar meu coração vai encontrar, agora, uma visita a Portela. Portanto, senhores médicos, não deixem o novo baticum assustá-los. No último 4 de julho, Dia da Independência dos Estados Unidos e um sábado de temperatura amena, fui, enfim, a uma quadra de escola de samba do Rio de Janeiro. O espírito e o corpo se elevaram na festa do Grêmio Recreativo e Escola de Samba da Portela.

 

Caí na feijoada bem-feita pelas descendentes das tias Ciatas, as baianas que teriam levado o samba para as terras cariocas. Uma surpresa, pelo menos para mim que esperava o tradicional pretinho do Rio: foi servido o feijão mulatinho, com cheiro e gosto dos pratos originalmente só confeccionados nos bairros populares de Salvador.  Há muito tempo, no entanto, os vips da capital baiana aderiram à tradicional feijoada, com suas carnes salgadas e frescas, sobretudo as consideradas de segunda categoria devido à boa consistência, além dos embutidos, como chouriços e calabresas.

 

As suculentas bandas de laranjas, característica do prato carioca, acabaram com o sonho de uma tácita homenagem da Portela à Bahia. Disse adeus à filosofia, que só se sustenta com fome de reflexões, e sem pensar comi, comi, como há tempos não comia.

 

Barriga cheia, a alma ainda sedenta mas aplacada com cerveja voltou a abrir alas e a pedir passagem. Na quadra, os bambas e as bambas humilhavam, sem piedade, os não-iniciados, com volteios maravilhosos e impossíveis balanços de quadris. Difíceis até de acompanhar com os olhos, os movimentos dos homens e mulheres do ramo eram amparados pelo lamento da cuíca, o assanho das cordas finas do cavaquinho, a masculinidade do violão e a contagiante disciplina da bateria da Portela de Paulinho da Viola.

Livre de todo mal, saí da quadra com um disco autografado pelo autor, o bom Monarco, compositor e cantor da velha guarda da escola fundada por Paulo da Portela. O valioso troféu foi obtido graças à gentileza do nosso cicerone, o historiador Fábio Conceição.

 Agora, estou pronto para conhecer a escola de samba do meu coração, a Mangueira, de Cartola e de Jamelão. Que o sonho, adiado nesta visita ao Rio, não demore de acontecer!

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O dançarino erótico

Posted in Coração, doação de sangue, saúde by adilson borges on 16 de abril de 2009

margaridasss1 “Será que  botaram o fio da cabeça no coração dele”?  margariuda1A empregada está desconfiada desde que o homem voltou para casa. “Ele tá muito diferente, dona Ridan. Seu Lirdau não era assim não antes da cirurgia”, cochicha com a sogra do patrão, na cozinha com cheiro de coentro, ensopado de peixe e pirão.

Dona Ridan enxuga as mãos e corre para o quarto.  Reparte o segredo com a filha, a mulher do homem que dança sozinho na sala, bermuda enorme, pendurada entre a barriga e o púbis, de onde sai uma margarida amarela, desgarrada do enorme buquê com que ele foi recebido ao voltar do hospital. Quando recebeu alta.  

 

Mãe e filha vão para a cozinha, preocupadas que o peixe, a abóbora e o quiabo cozinhem demais. E dão uma espiada no homem. A música negra geme na sala e ele se contorce, malicioso. Sozinho e sozinho. “O que é isso, rapaz? Tem gente aqui”, diz a filha, com a boca sem áudio, ajudada com gestos de mão. Briga, achando engraçado.

O dançarino parece não ouvir. Às vezes faz um impossível solo na guitarra presa no canal de música da TV a cabo. Outras, faz pirueta ousada para quem está no pós-operatório. Quase sempre é castigado com uma fisgada no peito e faz careta de dor. E assim fica até que é chamado para comer o ensopado na panela de barro em forma de peixe.

Antes de sentar, faz uma reverência, olhando paciente para a filha e a mãe. Depois, tira a margarida do pélvis, beija e entrega à mulher.  “Que tá havendo com este homem, meu deus?”, pensa a mulher, agora inquieta. A empregada ajuda mãe e filha a botarem a mesa. Depois, sai da sala e vai ao quarto pegar o celular com a ligação esperada neste sábado.  Antes de atender, conclui o que era dúvida:

“ Botaram o fio da cabeça no coração dele! Coitado de seu Lirdau!”