Coisas do Coração

Quem Fala?

Posted in Coração by adilson borges on 28 de abril de 2009
Eu, meu filho Chico e minha mulher, Marília. Férias de 2008. Sete meses depois, sairia o diagnóstico gelado sobre o grau de entupimento de minhas artérias: totalmente demais

Eu, meu filho Chico e minha mulher, Marília. Férias de 2008. Sete meses depois, sairia o diagnóstico gelado sobre o grau de entupimento de minhas artérias: totalmente demais

Eu sou Adilson Borges, 56, jornalista, radialista e músico e funcionário público estatutário.

Após descobrir, de repente não mais que de repente, que, no mínimo, flertava com o infarto, fui revascularizado (duas pontes de safena e uma mamária) e decidi construir este blog para combater os inimigos e  ajudar os amigos de coração.
Prometo atualizá-lo pelo menos duas vezes por semana, segunda e quinta. Pra quem tem coração!
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O flamboyant psicodélico

Posted in Coração by adilson borges on 28 de abril de 2009

 

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O mais impressionante de um fenômeno é a possibilidade de repeti-lo. E eu conseguia.  A árvore linda, galhos verdes com folhas vermelhas, primeiro se transformava em pintura tipo expressionista de Van Gogh, depois começava a se balançar mais do que se pode creditar ao impulso do vento.

Vi este fenômeno várias vezes ao olhar para o condomínio que se escancara perante minha janela, nas manhãs do início do meu período pós-operatório. Mais do que vi, descobri que o podia reproduzir e o fiz. Ainda acho que o posso fazer, mas as condições, inclusive farmacológicas, se modificaram e não mais me interessa: entendi que se tratava de uma conjunção de fatores químicos, físicos e biológicos.

Não conseguia dormir sem remédios. Com o medicamento (omito o nome por causa dos viciados), o sonho vinha, mas sem boa qualidade. Então, eu acordava muito cedo, aturdido, meio ébrio e, como sempre, com dor no peito, certamente ocasionada pelo trauma cirúrgico ou por ser obrigado a deitar de papo para o ar. Ou as duas coisas.

Ainda deitado tomava um analgésico, esperava o efeito e alguém para me ajudar a levantar. Após o café da manha, com mais um comprimido para controlar a pressão, ia para o meu posto de observação da paisagem. Fazia os costumeiros exercícios de fisioterapia, com muita inspiração e respiração. Na hora certa, e eu sabia qual era, bastava olhar para a árvore psicodélica e o fenômeno se repetia, como o sol que nasce todos os dias, mesmo quando chove e não o vemos diretamente.

Recentemente, tive uma frustração, mas já tinha abandonado minha manhãs, digamos, de viagens lisérgicas: alguém me disse que não sabia o nome, mas aquela árvore decididamente não é um flamboyant!    

 

 

A doença da mãe do PAC

Posted in Coração by adilson borges on 28 de abril de 2009

1200rp3633Foi checar o coração e descobriu o linfoma, um câncer de 2,5 centímetros, que foi extirpado com êxito. A próxima etapa é fazer a quimioterapia para evitar surpresas no tratamento.

A história terminaria aí se a personagem não fosse a poderosa ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, candidata a presidente (ou presidenta, escolham) da República em 2010. A Mãe do PAC (o Programa de Aceleração do Crescimento) e tia do Programa Minha Casa Minha Vida, que promete 1 milhão de moradias para os brasileiros de baixa renda, fez uma avaliação política e agiu rápido sábado passado.

Expôs em minúcia seu estado de saúde, em uma entrevista coletiva à imprensa, ao lado da equipe de médicos que estão tratando do caso no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Segundo os especialistas, as chances de cura chegam a 94%.

Foi a medida mais acertada tanto do ponto de vista do tratamento quando da perspectiva política. Seria impossível ocultar a doença até porque periodicamente a ministra terá que ir a São Paulo para a quimioterapia, que deve durar, pelo menos, uns quatro meses. Se não houvesse o anúncio, em pouco tempo começariam as especulações, que logo atrapalhariam a saúde da ministra, a sua campanha política e os planos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que apostou todas as fichas na candidatura de Dilma Rousseff.

Anunciado o linfoma, transferiu-se o problema político para a oposição, que inclusive vai ter que usar luvas finas ao tratar da questão perante povo brasileiro, muito sensível a questões como esta. Hoje (27 abril), o comentarista político Alexandre Garcia, da rede Globo, começou o dia dizendo que, mais importante do que tudo, é a questão humanitária da saúde da ministra. Em linhas gerais, o mesmo discurso foi adotado sem seguida pela apresentadora Ana Maria Braga, também da Globo, que se curou de um câncer há alguns anos em condições menos favoráveis do que a ministra-chefe da Casa Civil.

Ponto para Dilma Rousseff e equipe médica. E (por que não?) para a equipe da sua campanha de olho na cadeira mais confortável do Palácio do Planalto.

 

 

Deputados largam passagens aéreas, mas querem maior salário

Posted in Coração by adilson borges on 28 de abril de 2009

 

“Muitas vezes, o recuo é para avançar”. Com esta frase, o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP) deu a pista do que vem por aí. Acuados pela pressão da opinião pública, os parlamentares recuam do uso indiscriminado das passagens aéreas, mas já preparam o caminho para um reajuste dos salários, hoje de R$ 16,5 mil. A meta é um velho sonho, a equiparação com os vencimentos dos ministros do Supremo Tribunal Federal, hoje de R$ 24,5 mil.

 

Uma comissão vai apresentar, em 30 dias, uma proposta de reforma. A decisão foi anunciada por Temer, depois que os líderes partidários recuaram da intenção de votar no plenário o projeto que restringe o uso de passagens aéreas. A direção da Câmara decidiu, por ato administrativo, instituir as novas regras, que proíbem familiares e amigos de utilizarem os bilhetes.  As medidas representam uma economia anual de R$ 18 milhões.

 

Agora, as passagens só poderão ser usadas pelo parlamentar ou por assessores, com autorização por escrito, e em viagens nacionais. Os líderes partidários perdem o direito à cota suplementar de 25%. O valor da verba para o transporte aéreo será definido de acordo com o Estado do parlamentar. Não é mais possível acumular sobras da verba de um ano para outro. Os gastos com as novas regras terão que ser publicados na internet no prazo de três meses.  

Agora, é ficar de olho porque o aumento salarial compensatório já está no forno!

 

O coraçãozinho tricolor

Posted in Coração by adilson borges on 28 de abril de 2009

O Bahia, que perdeu de 2 X 1 para o Vitória lá dentro do Pituaçu, continua maltratando o coração de meu filho Chico, de 11 anos.

O bichinho acordou tão contente no domingo (26 abril), vestiu camisa, calção e sandália do time, passou a manhã gritando Bahêêêaaaaa e provocando os amigos e parentes “vicetória”, sobretudo o padrinho, Roberto Brito, a quem ligou para dizer que o tricolor iria ganhar de 3 X 0. 

Dormiu tristonho, acho que nem olhou para o cartaz eternamente pregado na porta do seu quarto: “Aqui dorme um tricolor!”

Agora, o Bahia vai ter que ganhar do Vitória no Barradão por uma diferença superior a um gol.

Especialista em ecocardiografia, o atenciosíssimo doutor Marco André Moraes Sales me conta a história assombrosa de um paciente que foi ao Barradão 15 dias depois de submerter-se à cirurgia de ponte de safena e mamária. Levou uma cotovelada tão violenta que teve de voltar à mesa de operações.

Mesmo assustado, se eu tivesse a fé que sustenta Chico, não daria bola para este episódio, doutor Marco. Superaria minha quase indiferença pelo futebol (sou Bahia, quando me perguntam), esqueceria a cirurgia de que estou me recuperando e o levava, à toca do inimigo, para gritar Bahêêêaaaa.

O coração tem razões próprias.

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O desmaio ideológico

Posted in Coração by adilson borges on 24 de abril de 2009

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O desmaio foi rápido, não durou mais do que segundos. Mas causou alvoroço pelo inesperado. Havia três ou quarto dias que eu fazia aqueles exercícios sem problema no hospital. Começava com aquele equipamento colorido, com três bolinhas, cada uma em seu espaço, que até hoje Chico, meu filho de 11 anos, me pede para testar e nem espera a resposta, pois sabe que é sempre não. O lance é inspirar até que as bolinhas flutuem e levitem no teto do Respiron, o nome da engenhoca.

 

Cabelos negros como dificilmente se veem em brancas, dedos magros e hálito matinal adocicado, a fisioterapeuta do dia conduzia tranquilamente a série de inspirações e respirações, agora em pé, no quarto ou com braços apoiados na cama. Superada estas etapas, eu era convidado para dar um volta, geralmente nas varandas do Aliança. Neste dia, estava lá Emiliano, de 29 anos, meu filho, o ex-caçula, como gosto de dizer.

 

Bonito para morrer

 

Eu, de pijama moderno comprado por Marília para a ocasião, e de sandálias havaianas brancas também novíssimas, caminhava olhando, com pena, para o calçado pesado, um tênis destes da moda, de Emiliano, que também foi no passeio. A fisioterapeuta caminhava atenta, pronta para me segurar a qualquer claudicada que porventura meus passos dessem.

 

O sol iluminava as árvores e plantas do hospital, mas ainda não chegava à varanda onde estávamos, decorada com lindos trabalhos esculturais de ferro. Parecia 16 de março, dia em que me internei para a cirurgia de pontes de safena e mamária, por volta das 11h, mas era mais cedo, devia ser umas 8h40. “Um dia bonito para morrer”, pensei na frase que disse a minha mulher e na reação de Marília, ao chegarmos ao apartamento: “Você gosta de ser trágico, vixe!”  

 

Roda mundo

 

“Inspire fundo, respire, inspire fun, respi”, a voz da fisioterapeuta foi sumindo aos poucos, mas ainda tive tempo de dizer que estava ficando tonto. “Sente-se, então”, aconselhou o jaleco branco sem perder a voz calmíssima, hipnótica. Sentei, tudo rodou e minha cabeça girou para o ombro, quase no colo dela. “Meu pai”! “Seu Adilson!”, ouvi as vozes seguidas da minha, “o que foi que houve?” e logo, logo, não sei como, estava já sentado em uma cadeira-de-rodas deslizando para o apartamento  147.

 

Deitaram-me, auscultaram-me, primeiro a fisioterapeuta, depois a enfermeira e, por fim, de forma definitiva o doutor Eduardo Novais, cardiologista que me assistiu durante todo o período pós-cirúrgico que fiquei no hospital. Ao final, concluíram que houve apenas uma queda de pressão, ocasionada talvez pela bateria de remédios que consumia ou quem sabe pela noite maldormida. Mas eu tinha outra explicação, que guardei para revelar ao doutor Eduardo, já que ele foi involuntariamente o responsável pelo episódio, na ocasião adequada.  E fi-lo, como diria Jânio Quadros, no dia da alta.

 

A revelação

O doutor já me declarara curado, estava me arrumando para sair, ele checando tudo, pressão arterial, respiração, pulso, ao tempo que dava instruções para os dias seguintes em casa, quando o meu telefone tocou. Era um amigo e também cliente de Eduardo Novais que se revelou inexcedível nas atenções a mim e a minha família neste período difícil. Queria, como sempre, saber como estavam as coisas. E ao ser informado que estava de alta, não se conteve: “E aquele desmaio?” Eduardo começou a explicar, mas eu interrompi. Disse que sabia a razão e gostaria de explicar aos dois naquele momento. Peguei o celular e botei no viva voz:

“Companheiro, aquilo foi consequência de uma gozação feita pelo doutor Eduardo. ‘Adilson, agora, você não pode dizer que não tem nada a ver com a direita, que é mais angustiada. Dificilmente, você vê esse lance de revascularização (ponte de safena e mamária) com a esquerda brasileira. Olhe Lula, aí, por exemplo’, afirmou sorrindo o doutor, na véspera do meu baque. Aquilo me deixou preocupado, então no dia seguinte o que eu tive, na verdade, foi um desmaio ideológico!”

 

 

Botando pressão

Posted in Coração by adilson borges on 24 de abril de 2009

Hoje (23. abril) é dia da pressão arterial. Mais do que uma data comemorativa, é oportunidade para checar como estamos. A pressão alta, quando não é tratada, causa lesões nos vas0s que podem levar ao derrame cerebral (AVC) ou ao infarto.

 ” A pressão alta produz lesões nos vasos difusamente por todo o organismo causando problemas no cérebro, coração, rins, visão etc”, alerta o cardiologista Juarez Magalhães Brito

Adeus a Anildo Gato

Posted in Coração by adilson borges on 24 de abril de 2009

Registro minha solidariedade à família pelo falecimento, no sábado passado, do pai da colega jornalista Ilma Pessoa, que mandou para os amigos um comovente e-mail, que aqui reproduzo:

“Meus amigos, Meu pai deixou a gente no sábado (18) pela manhã, bem cedo. Chegou de pé ao hospital e faleceu sem sentir dor, apenas uma parada cardíaca. Aos 95 anos, desta vez o velho e sábio contador não conseguiu arredondar os números.

 Quem dera pudesse ter chegado aos 100. Mas deixa uma conta de 7 (filhos), ainda por ser fechada. Oxalá pudesse ele tb ter tido sete vidas, como um gato. Agora lembrei que ‘Anildo Gato’ era seu apelido no Catu, sua terra natal, por causa da ‘alta’ performance como goleiro das peladas locais, apesar dos pouco mais de 1,60 m. Um grande guerreiro, que deixou pra gente de herança uma inesgotável vitalidade, força de trabalho e coragem.

 No sepultamento, chovia pra caramba, como há muito não se via em Salvador, um sinal da Natureza que sinaliza para a renovação, em pleno último dia da Páscoa. cristã. Acredito que ‘Seo’ Pessoa começou uma vida nova, com a mesma determinação e fé que podemos construir sempre algo de melhor. Que assim seja.

Ilma”.

Anestesia, fascinante e pouco conhecida

Posted in Coração by adilson borges on 21 de abril de 2009

 

 

Uma das grandes descobertas do ser humano na sua incessante luta contra a dor, o desconforto e o desprazer, a anestesia é abordada hoje pelo Coisas do Coração. Nesta edição publicamos inicialmente nossa experiência pessoal, portanto intransferível, com este tema encantador.

 

Em seguida, a pesquisadora Beverley A. Orser desvenda o mundo dos anestésicos, num alentado estudo publicado na revista Scientific American Brasil. 

“Antes de uma cirurgia com anestesia geral, um paciente verá uma série de aparelhos de monitoração e será ligado a eles”, afirma. “Muitos estão lá para protegê-lo contra os efeitos colaterais dos anestésicos, que deprimem a respiração e a função cardíaca, reduzindo a pressão arterial e a temperatura corporal”, adverte a professora de anestesiologia e fisiologia da University of Toronto e anestesiologista do hospital universitário, no Sunnybrook Health Sciences Center, onde também é pesquisadora-chefe em anestesia.

Com o estudo dos mecanismos moleculares de base dos anestésicos, Beverley A. Orser espera promover o desenvolvimento de novos agentes e tratamentos relacionados com efeitos controlados de maneira mais sofisticada. Orser também é consultora da empresa farmacêutica Merck. (Adilson Borges)

 

Um lugar distante da dor

Posted in Coração by adilson borges on 21 de abril de 2009

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Divido em duas etapas minha experiência com anestesia, no dia 17 de março, quando fui submetido à cirurgia para revascularização do miocárdio (ponte de safena e mamária). A primeira deu-se por volta das 8h30 às 14h30, quando tive uma reação semiconsciente. Ao emergir da anestesia, na UTI, vejo-me tentando arrancar os tubos que me sufocavam. O terror não foi maior porque fui avisado de que poderia despertar “entubado”. Desta forma, mesmo lutando contra o que me oprime, chego a racionalizar, “o doutor me avisou que isto ocorreria”.  Em outro momento, sinto-me livre e penso, “ah, enfim, estou solto”. 

De nada mais lembro neste período. Marília, minha mulher, e Vina, minha ex-mulher entraram juntas na UTI e foram as primeiras pessoas, exceto integrantes da equipe do hospital, a me rever, digamos, com sinal de vida.

Mães dos meus quatro filhos (Francisco, com Marília; Cristiana, Saulo e Emiliano, com Vina), elas passaram a manhã angustiadas à espera desta hora no espaço reservado aos familiares. Passado o nervosismo, conversaram ao meu lado. Vina chegou a fazer piada sobre meu estado de lassidão, parecendo ausente, desmaiado ou dormindo indiferente a toda presença.

Nada vi. Nada ouvi. Nada senti. Contaram-me tudo, inclusive que, inesperadamente, eu teria começado a ficar agitado, o que, presumo, coincidiu com a consciência do entubamento. Soube, mais tarde, de uma forma inconveniente por parte de uma ‘pesquisadora’ interessada em saber minha reação, que fui “contido mecanicamente”, eufemismo para “amarrado”.

As duas mulheres foram convidadas a se retirar da sala. Dirigiram-se então animadas para fazer um relato da minha situação aos outros familiares, que lá fora as esperavam.  Adelmo, meu irmão mais velho, mais entusiamado repetiu a chiste que sustentou toda a manhã, irritando minha filha: “Ele deve ter ficado frustrado, Vina (técnica em enfermagem), porque agora não dão mais lavagem, como você disse que haveria, antes da cirurgia”.

 

Paz total

A que se pode comparar a sensação de tomar anestesia geral?  Dormir não é referência, pelo menos no meu caso. A não ser que considere a possibilidade de dormir sem o período prévio da sonolência, sem nenhum registro consciente do que chamamos de realidade objetiva e sem sonho algum. Nem sonho nem pesadelo.  Nada. É como se a gente, existindo, deixasse de existir. Mas sem consciência desse processo. Químico, físico e biológico.

Nunca saberei, mas desconfio que foi só na primeira etapa da minha experiência, quando não havia som, luz, idéia de espaço e tempo, que experimentei aquela sensação única, indefinível e que foi a que me ficou da anestesia: um sentimento de paz inexplicável, como se nada mais importasse, nada mais fizesse sentido, só a paz.

 

Segunda etapa

 

Acho que após a luta contra os tubos opressores, devo ter sido nocauteado pela mistura dos poderes dos anestésicos e do sono. Nunca saberei. A verdade é que, consciente em torno da minha realidade, despertei por volta da 21h30 (havia um grande relógio em frente a minha cama),  sem dor, um tanto descansado. Ainda não racionalizava, mas obviamente contente por ter “voltado”.

Alguém da equipe de saúde perguntou como estava, e eu expressei meu contentamento, não me lembro se por palavras ou gesto. A verdade é que estava bem disposto, até com uma fomezinha, igual àquela que a gente sente quando acorda numa pousada agradável num fim de semana de sol.

“Tenho uma visita para você”, disse a enfermeira, braços dados com Marília, que olhava para mim, o renascido, como Maria deve ter olhado Jesus pela primeira vez na manjedoura. Mas eu, negro baiano, muito distante daquele mistério dos cristãos, estava tão berm disposto que não resisti à gaiatice na minha primeira fala com consciência:  

 

“Oh, que bom ver você de novo, Mariana”, disse olhando com ternura para Marília.  A enfermeira (ironia?), manteve-se firme, “se a visita não é aqui, desculpe, mas vou levar”. Marília chorou gotas de desespero antes de balbuciar, “que Mariana, Adilson? O que é isto, meu amor?” Aí, eu senti um aperto no peito, seguido de uma sensação alagadiça nos olhos. Estendi o braço e falei em forma de perdão, carinho e paz:

 

“Oh, meu amor, eu tava brincando!”