Coisas do Coração

Perdi o direito de me matar

Posted in Coração by adilson borges on 9 de agosto de 2009
Manhã geada em Monte Verde ( Minas Gerais)

Manhã geada em Monte Verde ( Minas Gerais)

ferias 2009 são paulo, monte verde e rio 19jun a 4 julho 296Voltar  a trabalhar após quatro meses, somadas  licença e férias, foi como concluir um rito de passagem. Tudo parece novo e  transborda entusiasmo, apesar dos velhos e desgastantes problemas, que ficam mais evidentes para quem se reencontra com a rotina após momentos inesquecíveis. Momentos de medo, dúvidas e  dores concretas,  prazeres intransferíveis, deliciosas viagens, dias e noites de maravilhas.

Tudo é realmente novo e entusiasma, não é só aparência. O corpo, este fardo que arrastamos  pela vida,  está mais leve. Nada a ver com a cirurgia de pontes de safena e mamária, talvez seja consequência de maior cuidado com a alimentação e das longas e agradáveis caminhadas diárias.

Mantido há cerca de 15 anos,  o ritual matutino do remédio para controle da pressão já parece anacrônico.  Nada a ver com a cirurgia do coração. Os médicos, sem segurança aparente, explicavam que  o surpreendente equilíbrio teria a ver com a perda de peso e com a distância da “vida real”. A volta à “realidade”, portanto, exige  especial atenção ao tensiômetro. 

 Menos de um mês no campo de batalha da redação política pode ser pouco para conclusão,  mas até agora, se não são excelentes como no mapeamento de 24 horas, realizado àsvésperas do retorno,  as medidas merecem comemoração: 130 X 80, 140 X 90, 130 X 80, 120 X 8.

São, portanto, cerca de 180 dias sem remédio para pressão. Apesar do recorde admirável, o alerta será mantido, com medições pelo menos a cada  três dias neste primeiro mês da volta ao mar revolto.  Se houver alteração, retoma-se o rito matinal, sem problema. Pílula não dói. E viva a realidade. 

 Feia ou bonita,  dela não se pode escapar.

Minuto da filosofia: 

 Salvar minha vida foi muito doloroso e caro. Perdi o direito moral de me matar.

(Adilson Borges)

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Amaciando a máquina com pijama curto

Posted in Coração by adilson borges on 9 de junho de 2009

pijama 3 Depois de assistir a uma estripulia que executei no hospital poucos dias após a cirurgia que inaugurou em meu peito duas pontes de safena e uma mamária, o técnico em enfermagem Dêison França deu-me um sábio conselho: “Vá devagar, seu Adilson, a máquina está nova, tem que ser amaciada antes de pisar fundo”.

 Um parêntese. Atendendo a pedidos de pacientes leitores, voltamos ao tema do coração, razão primeira deste blog, que se permite divagar por outras áreas. Nesta volta, temos a satisfação de fazer homenagem ao trabalhador de saúde desconhecido, um profissional tão importante quanto desvalorizado neste país que ainda está se lixando para os trabalhadores. Fecha parêntese.

 A tentativa de remover uma mesa pesada, apesar das rodinhas na base, me causou uma dor, insuportável e difusa, em todo o tronco. A atitude louca que surpreendeu o técnico causou espécie, como se dizia antigamente, em mim também. A discrepância entre os desejos e os limites do corpo, apesar de frequente na história dos humanos, sempre provoca espanto. E na maioria das vezes humilha, mas deixa boas lições contra a onipotência…

Pacientes e superpacientes

Com jeito de técnico e nome de jogador de futebol, Dêison França descreveu-me a diversidade de comportamento no pós-operatório de pessoas que passaram pela cirurgia de ponte de safena e mamária. Há quem levante, no dia seguinte à chegada ao apartamento, após a saída da unidade de tratamento intensivo. Mas há também quem, temeroso de que os pontos da cirurgia se desmanchem como cadarços de tênis de adolescente, queira ficar 15 dias de molho, o que retarda a recuperação.

 “Cama só para dormir”, este é o lema dos médicos e fisioterapeutas. Se não há nenhuma intercorrência, os revascularizados devem entrar logo em atividades – compatíveis com a situação, é claro, e evitando excessos. Toda a equipe de saúde absorve este conceito, simples, mas indispensável.

Ponta de estoque

“Está pronto para o banho, seu Adilson?”, nos primeiros dias, ouvia de manhã o chamado de Dulcinéia, técnica em enfermagem de quem já falei no texto “O dia da Alta”, um dos primeiros posts deste blog. Ainda na primeira semana, sentindo-me forte, levantei mais cedo, fiz a barba crescida desde a cirurgia, peguei o chuveirinho e me banhei com os jorros delgados da água que, com algum esforço, consegui regular na deliciosa temperatura morna.

Depois de tanto esforço, acomodei-me numa poltrona com um ar de quase felicidade, a despeito da noite maldormida. Barbeado, usava um pijama moderno, mas opressivo principalmente para o tamanho da minha barriga e dos ombros. Mais tarde, Marília, minha mulher, que comprou para mim uma coleção de roupas para usar no hospital, contar-me-ia, sorrindo, a história daquele estranho duas-peças – calça azulada e camisa azul com desenhos alaranjados nas bordas.

 Marília já estava de saída da loja quando viu o preço daquele pijama bonito e em promoção. Fim de estoque, argumentou a vendedora da loja de departamentos. A cliente não resistiu e mandou embrulhar, sem atentar que a calça (grande demais) e a camisa eram (como dizer?) incompatíveis.

 A frase

 Dulce, como gosta de ser chamada Dulcinéia, chegou e me encontrou orgulhoso pela autonomia da barba e o banho da independência. “Oi, Dulce, hoje não vou precisar de você”, salientei, com a vaidade de quem tem certeza de que merece elogios. Que legal, reagiu, discreta e amavelmente, ao arrumar a cama.

 Na saída, no entanto, olhou atentamente para a blusa apertadinha, com bainhas cor de sukita de laranja, bem gelada. Foi obrigada, então, a morder os lábios para não gargalhar. Situação controlada, a baiana Dulce esboçou apenas leve sorriso em direção ao paciente. Mas deixou escapar frase com gíria da moda na periferia de Salvador: “Com este pijama, seu Adilson está todo se bulino!”

Mamãe, eu quero mamária!

Posted in Coração by adilson borges on 15 de maio de 2009

galeota do carnaval

Caderno de autoajuda:

1) Evite ficar sozinho sempre que estiver se preparando para ganhar duas pontes de safena e uma mamária.

 A última sessão da Galeota, antes da cirurgia foi a mais animada.  Ao leitor apressadinho explico logo: Galeota é o nome da reunião etílica, poética e musical que, vez em quando, faz a galera valente do jornal A TARDE  (Salvador, Bahia, Brasil) atravessar a passarela e ancorar, na Casa do Comércio, madrugada adentro. O manifesto da Galeota, que virou comunidade no Orkut há um ano (29 de maio de 2008), explica mais.  E melhor:

 “A Galeota é o prazer, depois do cansaço, a irreverência, o não-compromisso, o vinho, a cerveja, o sorriso, a besteira, a comida, o bolo falso, o violão e o beijo, o boné inesperado, o sorriso, a galhofa, a ironia, a noite que logo se exaure, a volta pra casa e a sensação do dever cumprido e de que vencemos a morte e a despedida, e celebramos renascimentos e encontros mais uma vez”.

 2) A verdade está no meio de tudo. Procure-a.

 Algum espírito-de-porco há de insinuar que o sumo da alegria do dia 18 de fevereiro seria o sentimento de despedida. Como em tudo há verdade, até na alma suína, por que não concordar? Quem sabe quando a hora é de “Adeus” ou de “Até logo”?  Ninguém. 

Por isso, é bom aproveitar. Só se vive uma vez.  Há, no entanto, quem discorde desta última afirmação. Para evitar que a porca torça o rabo aí, não se deve afirmar nada tão categoricamente.  Mas basta uma verdade: a festa foi legal,  foi boa, foi ótima!

3) Deus ajuda a quem madruga e não chora. Orvalho é mais doce que lágrima.  

Com fantasia, confete, serpentina, máscaras, apito, a Galeota virou baile do Carnaval. O aquecimento começou cedo, na tarde daquela quarta-feira. A cada hora, pintava o sinal, e a gente explodia em alegria, na redação. Apitava, gritava, Agitava. O tema, numa alusão às saudosas marchinhas, mas irreverente como sempre, foi dos mais comentados: “Mamãe, eu quero mamária”.

Fechado o jornal do patrão, saiu o cortejo espalhando fantasia pela Tancredo Neves quase deserta. Personagens não-identificados, Drácula, mulheres-gatos, Oxum, invadiram a Casa do Comércio. “Aviso que eu hoje eu vou chegar mais tarde”, liga o garçom para casa. “De novo?”, alguém diz do outro lado. “É tá todo mundo aqui. O negão com o violão, o viado, o rapaz alto que gosta de música brega, a moça que coça o cabelo e aperta os olhinhos, a outra de olhos discretos que só degusta vinho…”

3) Faça por merecer que o dia amanhece

Sem ponto e maiúsculas no lugar certo, e com vírgulas estranhas, a reportagem da festa pode ser conferida na comunidade da Galeota:  

foi uma beleza só a Galeota do Carnaval, na quarta, 18 de fevereiro A portabandeira não apareceu, e perdeu A gente, com máscara e fantasia, ou de careta, gozou, gozou Bira fez sua estreia e tocou violão, navarro cantou, gil a tudo fotografou, oxum baixou e a bela lilia bailou, bailou, marcia sambou sambou sambou bonito em três tempos, olhos-lindos sorriram, sorriram, drácula sentiu aperto no coração, mas não era dor, era emoção Felicidade que fizemos por merecer Todo mundo brilhou, brilhou
O dia amanheceu. Sem lágrimas nem orvalho”.

 

 

 

 

A história do meu último suspiro

Posted in Coração by adilson borges on 12 de maio de 2009

 

 

“Fumar é um jeito discreto de ir queimando as ilusões perdidas. Daí esse ar aliviado e triste dos fumantes solitários. Vocês ainda não repararam que ninguém fuma sorrindo?”  ( Mário Quintana)

 

Qual a sua atividade profissional? Sou jornalista, respondi. O médico continuou fazendo as perguntas clássicas, que chamam de anamnese, antes de iniciar o tratamento. Estado Civil? Idade? Doenças? Saúde da família?  Eu já estava pensando que não ia escapar daquela vez. Mas o diálogo mudou:

– Por que você quer deixar de fumar?

– Eu não quero deixar, não

– Não! E por que o senhor está aqui?

– Por causa dela, minha mulher, que marcou a consulta e me trouxe.

O médico balançou a cabeça, chamou Marília e disse que eu ainda não estava pronto para deixar de fumar.

“Puxa, Adilson, por que você não me disse isso! Fazer eu perder uma tarde de trabalho, pagar consulta. Puxa, assim, eu desisto!” , desabafou Marília, no caminho de volta mas não desistiu. Quatro ou cinco anos depois de muita conversa, acertou comigo que eu deixaria de fumar em 15 dias.

Marcou a data e comprou uns emplastros à base de nicotina para colar no ombro. “Vou ficar viciado nestes adesivos”, eu ironizava, mas torcia para dar certo. No dia marcado na agenda preta dela, a casa amanheceu “limpa”. Isqueiros e até fósforos sumiram, cinzeiros também. Café não rolou, refrigerante também não, só chá e a alimentação foi mais leve, mas muito saborosa, com bastante salada.

Pongado no meu ombro, o emplastro com minha dose de nicotina tinha efeitos contraditórios.  Amenizava a vontade de fumar, mas provocava um coceira…que me fazia lembrar do cigarro. Nestas horas, eu procurava pensar em outra coisa. Às vezes, lembrava de Mário Quintana: “ Fumar é uma forma de suspirar”. E, para subverter a frase a favor do tabaco, respirava fundo, afastando-me  do vício. 

Tudo ajudou, mas o  remédio que considero mais eficaz, além do emplastro, é claro, foi a água. Troquei a nicotina pela água. Acho que até hoje estou viciado em H2O. Assim, depois de 33 anos ininterruptos de tragadas, pelo menos um maço diário, eu passei, finalmente, um dia e uma noite sem fumar.

 

Em busca da ilusão

Entre dezembro e janeiro deste ano de 2009, cerca de 10 anos depois de parar de fumar, eu estava correndo de médico a médico doido para que algum dissesse que eu não precisaria de duas pontes de safena e uma mamária. Primeiro havia virado poltrona de clínica na esperança de que um especialista proclamasse que não haveria necessidade de fazer cateterismo.  Como não encontrei esta alma vendedora de ilusão, já me sentiria feliz comprando a esperança de fazer angioplastia, procedimento menos invasivo, feito, como o cateterismo, através de uma artéria na virilha. Nem isso  encontrei, todos achavam que eu deveria cair na faca.

Então ter deixado de fumar  não ajudara nada?  “Se você continuasse fumando, acho que você não estaria aqui conversando comigo agora”, disse o cardiologista Juarez Magalhães, olhos voltados atentamente para o resultado do cateterismo feito pelo doutor Heitor Carvalho, uma dos nomes mais importantes da angioplastia do Estado.

O alerta da morte de Rabicó

Posted in Coração by adilson borges on 8 de maio de 2009

José Carvalho da Cunha Júnior, brasileiro. Clement Pinault, francês . O que têm em comum? Eram atletas, jogadores, e morreram precocemente de infarto. Conhecido como Rabicó, José Carvalho, de 39 anos, chegou a jogar na Seleção Brasileira de futsal.  Morreu na sexta-feira, 1º de maio,  depois do final da partida entre Assaf e ACBF, no Ginásio Poliesportivo Municipal de Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, válida pelo Campeonato Gaúcho da primeira divisão.

 O defensor francês Clément Pinault, do Clermont, 23 anos, morreu em janeiro deste ano, quatro dias após sofrer um ataque cardíaco em sua casa. Pinault havia jogado pelo clube da segunda divisão francesa dias antes, na vitória por 2 a 0 pelo Brest.

A lista de casos como estes é enorme e preocupante. Se isto acontece com jogadores profissionais, que teoricamente estão sempre sob supervisão médica, imagine com os jogadores amadores.

 Ninguém deve perder o gosto pelo “baba”, como a gente chama  aqui na Bahia a saudável  pelada de fim de semana, mas é importante ficar atento. De acordo com uma pesquisa realizada na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), os homens que jogam apenas uma vez por semana e não fazem nenhum outro exercício físico correm sérios riscos de desenvolver problemas cardíacos. Esta informação consta de reportagem de Luciana Sobral, do Diário de S. Paulo, que republicamos aqui.

Ainda nesta edição do Coisas do Coração, publicamos entrevista concedida pelo doutor Mario Cerci ao site do Hospital do Coração, sobre a importância do tratamento preventivo.  “As vezes as pessoas falam que “fulano se cuidava bem e morreu de infarto”, eu quero dizer o seguinte: isso pode ocorrer, mas é exceção e a grande maioria das pessoas que se cuidam vivem mais e melhor” adverte  o profissional.

A sinfonia rubro-negra de Exu

Posted in Coração by adilson borges on 5 de maio de 2009

imgp19491exuParece que Exu folgou hoje (4 de abril 2009) e passou o dia folgando na Bahia. Sempre vestida de vermelho e preto, a entidade foi vista em todo lugar, bebendo cachaça ou vinho, fumando charuto ou cachimbo, pensando em jogo ou sexo, sempre com aquele ar zombeteiro – impiedoso com os adversários.

Se alguém deixou de receber cartas de amor ou de cobrança, bilhetes apressados, recados bonitos, e-mails ou telegramas tão esperados, pode cobrar de Exu, o mensageiro entre o mundo dos homens e dos orixás.

Um dia depois da vitória sobre o tricolor, trabalhar pra quê? Sou de ferro, não, moço, disse o rubro-negro, com voz miúda, e forte suspeita de falência nos pulmões, na fila do Raios-X. Perto da mesma clínica de diagnóstico por imagem, na Pituba, o orixá tomava conta de carro. Era o mesmo menino, o olho inquieto denunciava, mas já estava velho (“seu velho”, ironizou baixinho ao dizer a idade, 68 anos).

O disfarce mais perfeito só descobri agora quando estava escrevendo estas pretinhas. O corretor sublinha de vermelho quando escrevo coisas que ele considera estranhas, como a palavra Pituba. Eu sei que o sistema Windows é culturalmente analfabeto, mas você, logo você tão versado em línguas, não me engana, não, Exu. Você tá botando a cara do Vitória no texto, provocando um fenômeno que os lingüistas empolados chamam de verbicovisual.

Me tira de problema, rapaz, já basta o esporro que posso levar da comunidade do candomblé: Como é que um nego deste se atreve a usar uma entidades nossa para coisas tão terrenas como campeonato baiano. Vê se alguém faz isso com os santos católicos? 

Perdoem-me mãezinhas e irmãozinhos, se insisto neste tema, mas não acho que o Exu seja Vitória. Nem Bahia. Nem Colo Colo. Mas a cor do campeão baiano de 2009 se oferece para a curtição, a seiva que alimenta o orixá. Aí, ele aproveita para debochar dos velhos, dos meninos, dos homens e das mulheres…

 

Ela é orixá, orixá é ela

 

Por falar em mulher, ficou com uma delas, aliás, o segundo lugar da camuflagem do zombador, depois da letra vermelha borrando as Times New Roman. Ela trabalha (ou só apareceu hoje) em um laboratório onde fui, em jejum de 12 horas, levar um pouco do meu sangue para uma avaliação do tal do colesterol.

– Como está você, Adilson? – Perguntou olhando para dentro de mim mais fundo do que a agulhada que deu em seguida na veia do braço direito. – Acho que você está ótimo – ajuntou antes que eu pudesse responder – para quem fez cirurgia do coração há pouco mais de um mês, é claro.

Já estive naquela clinica, sim, não esqueço, foi exatamente no sábado, 4 de abril, quando soube da morte de Jônatas Conceição, meu amigo, militante negro, poeta e intelectual. Não me lembro, no entanto, de ter visto aquela moça, muito menos de ter falado sobre minha saúde. Tudo bem, posso ter abordado casualmente o tema, quem sabe ela até colocou tudo no prontuário do laboratório, junto com meu telefone, meu cadastro.

Mas por que razão ela, tão nova, não me trata como “Seu” Adilson, como tem ocorrido repentinamente com tanta gente após a cirurgia, sobretudo agora que estou usando esta barba toda branca, que não posso cortar devido a uma incômoda alergia?

A resposta demorou um pouco, mas caiu do colo da moça, quando ela se debruçou para extrair o rubro escuro das minhas veias. A medalhinha do Vitória despegou-se do peito farto, esfregando a verdade em meu nariz. Ela era Exu. Exu é Ela. Elexu.

A certeza de que Exu aparece aonde não se espera e foge de onde se espera alcançá-lo tive mais tarde, ao resolver comemorar o resultado de consulta com o doutor Marco André Sales, especialista em ecocardiograma. O doutor maratonista me deu ótima noticia: minha pericardite (líquido no coração, subproduto de cirurgia de safena e mamária que afeta provincianos como eu e o radialista Mário Kertész, mas também famosos mundiais como o ex-presidente dos EUA Bill Clinton, o bon vivant ) está por um fio.

 

Bebendo o Bahia

 

Peguei Marília, aliás esta me pegou já que ainda não posso dirigir, e fomos almoçar na Casa do Comércio. Ao chegar, percebi movimentação estranha na área reservada do restaurante. Não liguei, porque tinha uma única preocupação, pedir duas taças de vinho, uma para cada, antes que minha santa mulher o proibisse, como revelou mais tarde que pensou em fazê-lo, ou quem sabe negociasse uma taça para os dois, já que eu bebera duas ou três no meu primeiro fim de semana com liberação médica.  “Sem exagero, Adilson”, dissera uns 15 dias antes o cardiologista Eduardo Novaes e repetira mais recentemente a doutora Cristiane Pereira, especialista em alergia.

Após abater na área a resistência de Marília, tinto seco e água mineral na mesa, relaxei e olhei para o outro lado, literalmente no sentido do Barradão. Na arquibancada, vejo então toda a diretoria do Vitória, bebendo o campeonato, que engoli em seco no domingo pela televisão.

 

Parêntese e pedido de perdão

 

(Assisti deitado na cama, violão nos dedos, tocando o hino tricolor, sem parar desde que o Bahêêêa fez o primeiro gol debaixo daquela chuva infinita. Sabia que se parasse, o feitiço perdia o efeito. Quando o Bahêêêa fez o segundo, tive certeza que estava no caminho certo. Liguei para Chico, meu filho de 11 anos, e dei a boa noticia. Meu fanático tricolorzinho estava no cinema, com a irmã da idade de Cristo, Cristiana, e a sobrinha (minha neta) Gabriele, da mesma idade dele. Chico queria ir ao Barradão, como não pôde decidiu assistir a Monstro versus Alienígenas. Foi a saída que encontrou para poupar o coraçãozinho… No intervalo, cometi um erro e, por isso peço perdão, Chico: parei de tocar o hino e aí houve o que houve.)

 

 

BA-VI na Casa do Comércio

 

 

Jorginho Sampaio e a galera rubro negra beberam vinho vermelho (faltou aquele pão preto), tomaram cerveja, discursaram, até com direito a aparte de alguns oradores de ocasião. Entre os convidados, vereadores como Silvoney Sales. A libação foi esquentando e houve aqui e ali um grito de guerra “Nego, Nego”. Os garçons mais experientes da casa estavam a postos. Colados na porta e paredes laterais da Casa do Comércio esperavam, pacientes, e respondiam solícitos ao serem acionados pelos vencedores. Mas que tinha um garçom com uma cara retada de Bahia, isso lá tinha. Depois eu pergunto a ele, em particular…

A garçonete (estagiária) estava convocada para a posição errada naquele jogo. Queria estar lá servindo a turma vermelho-e-preto. Mas não teve esta sorte. A Vitória, “de coração doente”, contentou-se em servir ao casal tricolor, cujo macho (Bahia relapso, que pouco acompanha de futebol, mas Bahia) recupera-se de doença do coração. Será por isso que ela me trouxe a conta antes dos cafezinhos?  Não. Deve ser paranóia…

 

 

Afastaram o cálice de mim! 

 

Após os discursos, bebidas preliminares, saladas e pães à guisa de entradas, o plantel vermelho-e-preto (de coração diga-se, porque não havia nenhum usando as cores do time) resolveu cair no principal. E tome-lhe comida nas barrigas estufadas dos gabinetes.

Mas Exu, que não vai aonde o esperam e que não gosta de obviedade nem cartola, não estava lá. Estava nas ruas, nas praças, nos becos, fazendo festa e gozação com o Bahia, que quase botou a mão no cálice do Santo Graal. Estava no olho preto da pancadaria que rolou após o jogo sob o dilúvio.  Estava no olho vermelho da alegria e da tristeza no Barradão.  Estava no seio discreto da moça de medalhinha vermelha e preta no laboratório do Imbuí, no boné roto do velho na Pituba, no pulmão frágil sanguinolento do rapaz à espera da chapa do Raios-X.

Chico vai me matar, mas tenho que dizer:

Parabéns, Vitoria!

Quem Fala?

Posted in Coração by adilson borges on 28 de abril de 2009
Eu, meu filho Chico e minha mulher, Marília. Férias de 2008. Sete meses depois, sairia o diagnóstico gelado sobre o grau de entupimento de minhas artérias: totalmente demais

Eu, meu filho Chico e minha mulher, Marília. Férias de 2008. Sete meses depois, sairia o diagnóstico gelado sobre o grau de entupimento de minhas artérias: totalmente demais

Eu sou Adilson Borges, 56, jornalista, radialista e músico e funcionário público estatutário.

Após descobrir, de repente não mais que de repente, que, no mínimo, flertava com o infarto, fui revascularizado (duas pontes de safena e uma mamária) e decidi construir este blog para combater os inimigos e  ajudar os amigos de coração.
Prometo atualizá-lo pelo menos duas vezes por semana, segunda e quinta. Pra quem tem coração!
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O flamboyant psicodélico

Posted in Coração by adilson borges on 28 de abril de 2009

 

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O mais impressionante de um fenômeno é a possibilidade de repeti-lo. E eu conseguia.  A árvore linda, galhos verdes com folhas vermelhas, primeiro se transformava em pintura tipo expressionista de Van Gogh, depois começava a se balançar mais do que se pode creditar ao impulso do vento.

Vi este fenômeno várias vezes ao olhar para o condomínio que se escancara perante minha janela, nas manhãs do início do meu período pós-operatório. Mais do que vi, descobri que o podia reproduzir e o fiz. Ainda acho que o posso fazer, mas as condições, inclusive farmacológicas, se modificaram e não mais me interessa: entendi que se tratava de uma conjunção de fatores químicos, físicos e biológicos.

Não conseguia dormir sem remédios. Com o medicamento (omito o nome por causa dos viciados), o sonho vinha, mas sem boa qualidade. Então, eu acordava muito cedo, aturdido, meio ébrio e, como sempre, com dor no peito, certamente ocasionada pelo trauma cirúrgico ou por ser obrigado a deitar de papo para o ar. Ou as duas coisas.

Ainda deitado tomava um analgésico, esperava o efeito e alguém para me ajudar a levantar. Após o café da manha, com mais um comprimido para controlar a pressão, ia para o meu posto de observação da paisagem. Fazia os costumeiros exercícios de fisioterapia, com muita inspiração e respiração. Na hora certa, e eu sabia qual era, bastava olhar para a árvore psicodélica e o fenômeno se repetia, como o sol que nasce todos os dias, mesmo quando chove e não o vemos diretamente.

Recentemente, tive uma frustração, mas já tinha abandonado minha manhãs, digamos, de viagens lisérgicas: alguém me disse que não sabia o nome, mas aquela árvore decididamente não é um flamboyant!    

 

 

O desmaio ideológico

Posted in Coração by adilson borges on 24 de abril de 2009

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O desmaio foi rápido, não durou mais do que segundos. Mas causou alvoroço pelo inesperado. Havia três ou quarto dias que eu fazia aqueles exercícios sem problema no hospital. Começava com aquele equipamento colorido, com três bolinhas, cada uma em seu espaço, que até hoje Chico, meu filho de 11 anos, me pede para testar e nem espera a resposta, pois sabe que é sempre não. O lance é inspirar até que as bolinhas flutuem e levitem no teto do Respiron, o nome da engenhoca.

 

Cabelos negros como dificilmente se veem em brancas, dedos magros e hálito matinal adocicado, a fisioterapeuta do dia conduzia tranquilamente a série de inspirações e respirações, agora em pé, no quarto ou com braços apoiados na cama. Superada estas etapas, eu era convidado para dar um volta, geralmente nas varandas do Aliança. Neste dia, estava lá Emiliano, de 29 anos, meu filho, o ex-caçula, como gosto de dizer.

 

Bonito para morrer

 

Eu, de pijama moderno comprado por Marília para a ocasião, e de sandálias havaianas brancas também novíssimas, caminhava olhando, com pena, para o calçado pesado, um tênis destes da moda, de Emiliano, que também foi no passeio. A fisioterapeuta caminhava atenta, pronta para me segurar a qualquer claudicada que porventura meus passos dessem.

 

O sol iluminava as árvores e plantas do hospital, mas ainda não chegava à varanda onde estávamos, decorada com lindos trabalhos esculturais de ferro. Parecia 16 de março, dia em que me internei para a cirurgia de pontes de safena e mamária, por volta das 11h, mas era mais cedo, devia ser umas 8h40. “Um dia bonito para morrer”, pensei na frase que disse a minha mulher e na reação de Marília, ao chegarmos ao apartamento: “Você gosta de ser trágico, vixe!”  

 

Roda mundo

 

“Inspire fundo, respire, inspire fun, respi”, a voz da fisioterapeuta foi sumindo aos poucos, mas ainda tive tempo de dizer que estava ficando tonto. “Sente-se, então”, aconselhou o jaleco branco sem perder a voz calmíssima, hipnótica. Sentei, tudo rodou e minha cabeça girou para o ombro, quase no colo dela. “Meu pai”! “Seu Adilson!”, ouvi as vozes seguidas da minha, “o que foi que houve?” e logo, logo, não sei como, estava já sentado em uma cadeira-de-rodas deslizando para o apartamento  147.

 

Deitaram-me, auscultaram-me, primeiro a fisioterapeuta, depois a enfermeira e, por fim, de forma definitiva o doutor Eduardo Novais, cardiologista que me assistiu durante todo o período pós-cirúrgico que fiquei no hospital. Ao final, concluíram que houve apenas uma queda de pressão, ocasionada talvez pela bateria de remédios que consumia ou quem sabe pela noite maldormida. Mas eu tinha outra explicação, que guardei para revelar ao doutor Eduardo, já que ele foi involuntariamente o responsável pelo episódio, na ocasião adequada.  E fi-lo, como diria Jânio Quadros, no dia da alta.

 

A revelação

O doutor já me declarara curado, estava me arrumando para sair, ele checando tudo, pressão arterial, respiração, pulso, ao tempo que dava instruções para os dias seguintes em casa, quando o meu telefone tocou. Era um amigo e também cliente de Eduardo Novais que se revelou inexcedível nas atenções a mim e a minha família neste período difícil. Queria, como sempre, saber como estavam as coisas. E ao ser informado que estava de alta, não se conteve: “E aquele desmaio?” Eduardo começou a explicar, mas eu interrompi. Disse que sabia a razão e gostaria de explicar aos dois naquele momento. Peguei o celular e botei no viva voz:

“Companheiro, aquilo foi consequência de uma gozação feita pelo doutor Eduardo. ‘Adilson, agora, você não pode dizer que não tem nada a ver com a direita, que é mais angustiada. Dificilmente, você vê esse lance de revascularização (ponte de safena e mamária) com a esquerda brasileira. Olhe Lula, aí, por exemplo’, afirmou sorrindo o doutor, na véspera do meu baque. Aquilo me deixou preocupado, então no dia seguinte o que eu tive, na verdade, foi um desmaio ideológico!”

 

 

Anestesia, fascinante e pouco conhecida

Posted in Coração by adilson borges on 21 de abril de 2009

 

 

Uma das grandes descobertas do ser humano na sua incessante luta contra a dor, o desconforto e o desprazer, a anestesia é abordada hoje pelo Coisas do Coração. Nesta edição publicamos inicialmente nossa experiência pessoal, portanto intransferível, com este tema encantador.

 

Em seguida, a pesquisadora Beverley A. Orser desvenda o mundo dos anestésicos, num alentado estudo publicado na revista Scientific American Brasil. 

“Antes de uma cirurgia com anestesia geral, um paciente verá uma série de aparelhos de monitoração e será ligado a eles”, afirma. “Muitos estão lá para protegê-lo contra os efeitos colaterais dos anestésicos, que deprimem a respiração e a função cardíaca, reduzindo a pressão arterial e a temperatura corporal”, adverte a professora de anestesiologia e fisiologia da University of Toronto e anestesiologista do hospital universitário, no Sunnybrook Health Sciences Center, onde também é pesquisadora-chefe em anestesia.

Com o estudo dos mecanismos moleculares de base dos anestésicos, Beverley A. Orser espera promover o desenvolvimento de novos agentes e tratamentos relacionados com efeitos controlados de maneira mais sofisticada. Orser também é consultora da empresa farmacêutica Merck. (Adilson Borges)