Coisas do Coração

2014, a odisséia dos donos da bola

Posted in Coração by adilson borges on 3 de junho de 2009

O alvoroço é total entre os políticos nos estados onde vai rolar a bola da Copa de 2014. Na Bahia, o governador Jaques Wagner (PT), com a autoridade que lhe foi conferida pelo povo e o esforço que despendeu para trazer a disputa para Salvador, avança firme na área e começa a chutar para o gol, no ano que vem, quando disputa a reeleição. Na propaganda da televisão, chega a dizer que as obras necessárias à grande disputa vão ficar na capital baiana após os jogos da Copa do Mundo. É óbvio. Alguém pensou que seriam derrubadas?

O ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (PMDB), chuta as sandálias da humildade, amarra as chuteiras e veste calções. Arrumadinho e esbanjando preparação física, faz embaixadas no campo do governo estadual, do qual participa com atletas por ele escalados – o vice-governador Edmundo Pereira e os secretários da Indústria, Comércio e Mineração, Rafael Amoedo, e da Infra-Estrutura, Batista Neves. Sem falar no pai de  Geddel, Afrísio Vieira Lima, presidente da Junta Comercial da Bahia (Juceb)

Geddel, que nunca escondeu a vontade de ser dirigente estadual, posiciona-se como embaixador na atração da Copa para a área do seu principal atacante, o prefeito de Salvador, João Henrique Carneiro (PMDB), que também está de olho no governo estadual.

Não é à toa tanto alvoroço. Afinal, todos sabem que futebol e política andam de mãos (e pés) dadas. Na Bahia, por exemplo, quem há de negar a força que o gramado deu à carreira parlamentar  de nomes como Osório Vilas-Boas, Paulo Carneiro, Marcelo Guimarães, Fernando Schmidt?  Ninguém.

Mas é equivocada a visão que, automaticamente, transfere para as urnas o sucesso de quem se deu bem no (e com) futebol. A bola ajuda, é claro, disso ninguém duvida, mas não é tudo. Procede melhor quem segue o adágio “faça por ti que eu ajudarei”. Vejamos três exemplos:

 O Brasil perdeu a Copa de 1998.  Mas nas eleições daquele ano saiu vitorioso quem estava no poder, o presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), o inaugurador das reeleições no processo político brasileiro.

O Brasil ganhou a Copa de 2002 e sagrou-se pentacampeão mundial. O sociólogo Fernando Henrique Cardoso tentou faturar o episódio elegendo um correligionário do PSDB, o economista José Serra. Foi derrotado fragorosamente pelo metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva, do PT.

Em 2006, o Brasil perdeu a Copa. Mas Lula foi reeleito presidente, derrotando outro tucano, Geraldo Alckmin, apesar do PT que atrapalhou bastante, sobretudo com o escândalo do mensalão.

A história, mãe de toda sabedoria, mostra, portanto, que a bola quando está com os pernas-de-pau da política pode até atrapalhar mais do que ajudar. E que é preciso estar atento a outras instâncias das necessidades do povo, que gosta mais de pão do que de circo, para evitar o risco do gol contra.

(Adilson Borges)

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Quando dois bicudos se beijam

Posted in Coração by adilson borges on 27 de maio de 2009
Chavez, Lula e Grabielli, foto da Mercopress.com

Chávez, Lula e Gabrielli, em foto da Mercopress.com

Coisa engraçada é ouvir o barbudo Lula e o barrigudo Hugo Chávez dizerem que se reúnem a cada três meses para discutir a relação entre eles. Menos engraçado é ver quer o caso dos dois bicudos presidentes latino-americanos está mais complicado do que tentam demonstrar.

 Eles agem como um casal em crise. São polidos ao receber visita, mas na intimidade do lar, quando a porta se fecha e os visitantes vão embora, o couro come. Hoje (26 maio 2009), ao se reunir em Salvador, a dupla tentou inutilmente chegar a um acordo entre a PDVSA, a estatal venezuelana do petróleo, e a Petrobras, para a construção da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco.

Por um equívoco, o sistema de som permitiu acesso à reservada conversa entre os presidentes do Brasil e da Venezuela e o presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli . O diálogo mostra que Lula e Chávez falavam línguas diferentes – é claro que não estamos nos referindo ao português do nosso mandatário nem ao espanhol do mandatário venezuelano.

Como um casal litigioso, cada um ressaltou as suas respectivas qualidades, e culparam-se reciprocamente pelo malogro do entendimento. “Lamentável não sermos capazes de fazer um acordo. Confesso que estou frustrado”, reagiu Chávez.

 Lula, aparentemente menos tenso, apelou para brincadeira: “Se eu conseguir eleger a Dilma, eu já disse para o Gabrielli, eu vou ser o presidente da Petrobras e você, Gabrielli, vai ser meu assessor e o acordo (com a Venezuela) vai sair”.

 “E eu vou fazer o quê? Eu não quero fazer nada”, respondeu Chávez, talvez se lembrando da frase “Por que não te calas?” jogada contra ele pelo Rei da Espanha Juan Carlos, na XVII Cúpula Iberoamericana realizada no Chile, em 10 de novembro de 2007.

Onde mora a discórdia

 O presidente da Petrobras esclareceu que há, pelos menos três pontos, travando o consenso entre Brasil e Venezuela : custos de investimento, comercialização do produto e o preço do petróleo. Gabrielli pediu mais 90 dias para discutir essas questões.

 A verdade, no entanto, é que este prazo talvez seja pouco. Segundo o jornal Estado de S. Paulo, “o governo venezuelano deveria entrar com 40% dos recursos para a construção da refinaria, mas até agora só o governo brasileiro investiu na obra. Isto porque a Venezuela tem feito exigências, como o direito de comercialização do petróleo importado no Brasil. Mas as regras brasileiras determinam que só quem pode vender internamente é a Petrobras”.

 O mercosul

 Ao discursar na cerimônia oficial, o presidente brasileiro admitiu as dificuldades em fechar o acordo com o colega venezuelano sobre a refinaria Abreu Lima, mas preferiu dar ênfase ao que de melhor conseguiram: um acordo de adequação de tarifas entre os dois países. Este consenso é um dos itens que emperram a entrada da Venezuela no Mercosul.

Por falar nisso, que coisa mais idiota esta resistência de alguns setores no Brasil quanto à entrada da Venezuela no Mercosul! A pretexto de não ampliar espaços políticos para o o presidente Hugo Chávez, os reacionários de sempre punem o povo venezuelano, e esquecem ou não querem lembrar que presidentes passam, mas fica a Venezuela – país econômica e politicamente importante para o Brasil de Lula.

Ou da candidata dele, a chefe da Casa Civil, Dilma Roussef. Ou dos tucanos José Serra e Aécio Neves. Enfim, de quem vem por aí.