Coisas do Coração

Zé Rodrix, os limites do campo e do corpo

Posted in Coração by adilson borges on 23 de maio de 2009

Eu quero uma casa no campo / Onde eu possa ficar do tamanho da paz / E tenha somente a certeza / Dos limites do corpo e nada mais  (Casa  no Campo, de Zé Rodrix e Tavito)

 

 A morte do cantor e compositor Zé Rodrix esquenta o debate sobre a prevenção das doenças cardíacas. O  autor de Casa de Campo  morreu na quinta-feira (21de maio) de infarto no miocárdio, aos 61 anos .  Mas segundo familiares e amigos, ele recentemente fez check up e estava tudo normal.

 Zé Rodrix estava em casa, com a família, quando passou mal. Foi levado às pressas ao Hospital das Clínicas, na capital paulista, onde morreu. Ainda são escassas as informações sobre o estado de saúde que levou o compositor à morte. Mas segundo a família, Rodrix estava muito bem de saúde e cheio de planos para a carreira de músico e publicitário. O corpo deve ser cremado neste sábado (23).

“Qualquer um pode morrer atropelado, mas aquele que anda de bicicleta todos os dias, sem capacete, sem nada, as chances aumentam muito mais”, disse recentemente o médico cirurgião João Lucas O ‘Connell, em entrevista ao Correio de Uberlândia , de Minas Gerais.

O mesmo argumento, em defesa da prevenção, consta em entrevista do doutor Mario Cerci concedida ao site Hospital do Coração e republicada dia 8 de maio aqui no Coisas do Coração.

“Todas as pessoas, com o passar da idade, vão tendo maior chance de ter um infarto. Então, essas pessoas têm que procurar um cardiologista periodicamente, dosar o colesterol, dosar a glicemia para ver se não é diabético, adotar a prática de exercício supervisionada, orientada por um cardiologista, previamente”, orienta o cardiologista. “Quem seguir essas linhas, terá uma chance muito menor de sofrer complicações cardiovasculares”.

 

 

Cante “Casa no Campo” com Zé Rodrix:

Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais

Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar do tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais

Eu quero carneiros e cabras pastando
Solenes no meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas

Eu quero a esperança de óculos
E um filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão,
A pimenta e o sal

Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau a pique e sapê
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros e nada mais

 

 

 

 

 

 

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O desmaio ideológico

Posted in Coração by adilson borges on 24 de abril de 2009

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O desmaio foi rápido, não durou mais do que segundos. Mas causou alvoroço pelo inesperado. Havia três ou quarto dias que eu fazia aqueles exercícios sem problema no hospital. Começava com aquele equipamento colorido, com três bolinhas, cada uma em seu espaço, que até hoje Chico, meu filho de 11 anos, me pede para testar e nem espera a resposta, pois sabe que é sempre não. O lance é inspirar até que as bolinhas flutuem e levitem no teto do Respiron, o nome da engenhoca.

 

Cabelos negros como dificilmente se veem em brancas, dedos magros e hálito matinal adocicado, a fisioterapeuta do dia conduzia tranquilamente a série de inspirações e respirações, agora em pé, no quarto ou com braços apoiados na cama. Superada estas etapas, eu era convidado para dar um volta, geralmente nas varandas do Aliança. Neste dia, estava lá Emiliano, de 29 anos, meu filho, o ex-caçula, como gosto de dizer.

 

Bonito para morrer

 

Eu, de pijama moderno comprado por Marília para a ocasião, e de sandálias havaianas brancas também novíssimas, caminhava olhando, com pena, para o calçado pesado, um tênis destes da moda, de Emiliano, que também foi no passeio. A fisioterapeuta caminhava atenta, pronta para me segurar a qualquer claudicada que porventura meus passos dessem.

 

O sol iluminava as árvores e plantas do hospital, mas ainda não chegava à varanda onde estávamos, decorada com lindos trabalhos esculturais de ferro. Parecia 16 de março, dia em que me internei para a cirurgia de pontes de safena e mamária, por volta das 11h, mas era mais cedo, devia ser umas 8h40. “Um dia bonito para morrer”, pensei na frase que disse a minha mulher e na reação de Marília, ao chegarmos ao apartamento: “Você gosta de ser trágico, vixe!”  

 

Roda mundo

 

“Inspire fundo, respire, inspire fun, respi”, a voz da fisioterapeuta foi sumindo aos poucos, mas ainda tive tempo de dizer que estava ficando tonto. “Sente-se, então”, aconselhou o jaleco branco sem perder a voz calmíssima, hipnótica. Sentei, tudo rodou e minha cabeça girou para o ombro, quase no colo dela. “Meu pai”! “Seu Adilson!”, ouvi as vozes seguidas da minha, “o que foi que houve?” e logo, logo, não sei como, estava já sentado em uma cadeira-de-rodas deslizando para o apartamento  147.

 

Deitaram-me, auscultaram-me, primeiro a fisioterapeuta, depois a enfermeira e, por fim, de forma definitiva o doutor Eduardo Novais, cardiologista que me assistiu durante todo o período pós-cirúrgico que fiquei no hospital. Ao final, concluíram que houve apenas uma queda de pressão, ocasionada talvez pela bateria de remédios que consumia ou quem sabe pela noite maldormida. Mas eu tinha outra explicação, que guardei para revelar ao doutor Eduardo, já que ele foi involuntariamente o responsável pelo episódio, na ocasião adequada.  E fi-lo, como diria Jânio Quadros, no dia da alta.

 

A revelação

O doutor já me declarara curado, estava me arrumando para sair, ele checando tudo, pressão arterial, respiração, pulso, ao tempo que dava instruções para os dias seguintes em casa, quando o meu telefone tocou. Era um amigo e também cliente de Eduardo Novais que se revelou inexcedível nas atenções a mim e a minha família neste período difícil. Queria, como sempre, saber como estavam as coisas. E ao ser informado que estava de alta, não se conteve: “E aquele desmaio?” Eduardo começou a explicar, mas eu interrompi. Disse que sabia a razão e gostaria de explicar aos dois naquele momento. Peguei o celular e botei no viva voz:

“Companheiro, aquilo foi consequência de uma gozação feita pelo doutor Eduardo. ‘Adilson, agora, você não pode dizer que não tem nada a ver com a direita, que é mais angustiada. Dificilmente, você vê esse lance de revascularização (ponte de safena e mamária) com a esquerda brasileira. Olhe Lula, aí, por exemplo’, afirmou sorrindo o doutor, na véspera do meu baque. Aquilo me deixou preocupado, então no dia seguinte o que eu tive, na verdade, foi um desmaio ideológico!”

 

 

Um lugar distante da dor

Posted in Coração by adilson borges on 21 de abril de 2009

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Divido em duas etapas minha experiência com anestesia, no dia 17 de março, quando fui submetido à cirurgia para revascularização do miocárdio (ponte de safena e mamária). A primeira deu-se por volta das 8h30 às 14h30, quando tive uma reação semiconsciente. Ao emergir da anestesia, na UTI, vejo-me tentando arrancar os tubos que me sufocavam. O terror não foi maior porque fui avisado de que poderia despertar “entubado”. Desta forma, mesmo lutando contra o que me oprime, chego a racionalizar, “o doutor me avisou que isto ocorreria”.  Em outro momento, sinto-me livre e penso, “ah, enfim, estou solto”. 

De nada mais lembro neste período. Marília, minha mulher, e Vina, minha ex-mulher entraram juntas na UTI e foram as primeiras pessoas, exceto integrantes da equipe do hospital, a me rever, digamos, com sinal de vida.

Mães dos meus quatro filhos (Francisco, com Marília; Cristiana, Saulo e Emiliano, com Vina), elas passaram a manhã angustiadas à espera desta hora no espaço reservado aos familiares. Passado o nervosismo, conversaram ao meu lado. Vina chegou a fazer piada sobre meu estado de lassidão, parecendo ausente, desmaiado ou dormindo indiferente a toda presença.

Nada vi. Nada ouvi. Nada senti. Contaram-me tudo, inclusive que, inesperadamente, eu teria começado a ficar agitado, o que, presumo, coincidiu com a consciência do entubamento. Soube, mais tarde, de uma forma inconveniente por parte de uma ‘pesquisadora’ interessada em saber minha reação, que fui “contido mecanicamente”, eufemismo para “amarrado”.

As duas mulheres foram convidadas a se retirar da sala. Dirigiram-se então animadas para fazer um relato da minha situação aos outros familiares, que lá fora as esperavam.  Adelmo, meu irmão mais velho, mais entusiamado repetiu a chiste que sustentou toda a manhã, irritando minha filha: “Ele deve ter ficado frustrado, Vina (técnica em enfermagem), porque agora não dão mais lavagem, como você disse que haveria, antes da cirurgia”.

 

Paz total

A que se pode comparar a sensação de tomar anestesia geral?  Dormir não é referência, pelo menos no meu caso. A não ser que considere a possibilidade de dormir sem o período prévio da sonolência, sem nenhum registro consciente do que chamamos de realidade objetiva e sem sonho algum. Nem sonho nem pesadelo.  Nada. É como se a gente, existindo, deixasse de existir. Mas sem consciência desse processo. Químico, físico e biológico.

Nunca saberei, mas desconfio que foi só na primeira etapa da minha experiência, quando não havia som, luz, idéia de espaço e tempo, que experimentei aquela sensação única, indefinível e que foi a que me ficou da anestesia: um sentimento de paz inexplicável, como se nada mais importasse, nada mais fizesse sentido, só a paz.

 

Segunda etapa

 

Acho que após a luta contra os tubos opressores, devo ter sido nocauteado pela mistura dos poderes dos anestésicos e do sono. Nunca saberei. A verdade é que, consciente em torno da minha realidade, despertei por volta da 21h30 (havia um grande relógio em frente a minha cama),  sem dor, um tanto descansado. Ainda não racionalizava, mas obviamente contente por ter “voltado”.

Alguém da equipe de saúde perguntou como estava, e eu expressei meu contentamento, não me lembro se por palavras ou gesto. A verdade é que estava bem disposto, até com uma fomezinha, igual àquela que a gente sente quando acorda numa pousada agradável num fim de semana de sol.

“Tenho uma visita para você”, disse a enfermeira, braços dados com Marília, que olhava para mim, o renascido, como Maria deve ter olhado Jesus pela primeira vez na manjedoura. Mas eu, negro baiano, muito distante daquele mistério dos cristãos, estava tão berm disposto que não resisti à gaiatice na minha primeira fala com consciência:  

 

“Oh, que bom ver você de novo, Mariana”, disse olhando com ternura para Marília.  A enfermeira (ironia?), manteve-se firme, “se a visita não é aqui, desculpe, mas vou levar”. Marília chorou gotas de desespero antes de balbuciar, “que Mariana, Adilson? O que é isto, meu amor?” Aí, eu senti um aperto no peito, seguido de uma sensação alagadiça nos olhos. Estendi o braço e falei em forma de perdão, carinho e paz:

 

“Oh, meu amor, eu tava brincando!”

O limite entre a dose terapêutica e a dose tóxica

Posted in Coração by adilson borges on 21 de abril de 2009

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Por trás da anestesia

Como os anestésicos atuais tão potentes e às vezes perigosos levarão  a uma nova geração de fármacos específicos e mais seguros, sem efeitos colaterais indesejáveis

por Beverley A. Orser

Um filme de suspense de Hollywood, a ser lançado este ano (2007), conta a história de um jovem que desperta enquanto está sendo submetido a uma cirurgia cardíaca a céu aberto, mas não consegue se mexer ou gritar. Infelizmente, a premissa inicial do filme não é inteiramente exagerada. Episódios de consciência intra-operatória sob anestesia geral são relatados por um ou dois pacientes em mil. Geralmente são curtos e não envolvem dor nem sofrimento, mas ressaltam um dos vários motivos pelos quais mesmo os anestésicos mais modernos podem deixar muito a desejar. De fato, o conhecimento científico sobre o funcionamento dos anestésicos, e como torná-los melhores, não acompanhou o progresso das outras áreas de desenvolvimento de fármacos.

Na verdade, muitos dos anestésicos modernos partilham propriedades estruturais e efeitos clínicos com o éter, cuja aplicação como anestésico foi demonstrada pela primeira vez em público por William Morton, dentista de Boston, em 1846. Desde então, a anestesia é usada em mais de 40 milhões de pacientes a cada ano, somente na América do Norte. No entanto, os avanços desde a época de Morton vieram basicamente do desenvolvimento de complexos sistemas de aplicação de medicamentos e das estratégias para o controle dos perigos e efeitos colaterais da anestesia.

Hoje, os anestésicos gerais são os mais potentes depressores da atividade do sistema nervoso, afetando até a regulação das funções respiratória e cardíaca. Conseqüentemente, possuem uma margem de segurança relativamente estreita: o limite entre a dose terapêutica e a dose tóxica, ou mesmo letal. É por isso também que indivíduos cuja função pulmonar ou cardiovascular já é instável – como vítimas de trauma submetidas a operações de emergência ou pacientes em meio a uma cirurgia cardíaca – precisam receber uma dose menor que a normal, o que poderia torná-los suscetíveis a breves episódios de consciência, como no filme.

Embora avanços radicais na anestesia geral tenham estabelecido os alicerces para procedimentos complicados como transplante de órgãos e cirurgia cardíaca a céu aberto, os efeitos neurodepressores desses medicamentos fazem com que eles sejam mais propensos a causar a morte durante uma operação do que o próprio procedimento cirúrgico. Já que a mortalidade relacionada à anestesia se estabilizou em um índice de aproximadamente um paciente em 13 mil nos últimos 15 anos, parece que os anestesiologistas chegaram aos limites da aplicação dessas toxinas com segurança. Além disso, efeitos colaterais graves – que vão da perda do controle das vias respiratórias a problemas cognitivos e de memória depois da anestesia geral – também podem se originar da grande influência que os anestésicos atuais exercem sobre o sistema nervoso central. A boa notícia é que pesquisas começam a proporcionar melhor compreensão dos anestésicos.

 

Desconectando os Plugues

Todos os anestésicos gerais de hoje foram desenvolvidos empiricamente, ou seja, testados quanto à capacidade de produzir os efeitos desejáveis que definem o estado de anestesia. Os principais componentes da anestesia são sedação, inconsciência (chamada também de hipnose), imobilidade, ausência de dor (analgesia) e lapso de memória do período em anestesia (amnésia). Com o estudo dos mecanismos pelos quais os anestésicos obtêm esses resultados desejados, muitos grupos, incluindo o meu da University of Toronto, estão começando a desvendar tais efeitos. As pesquisas revelam que a atividade desses fármacos envolve interações altamente específicas com subpopulações de células do sistema nervoso, para criar cada uma das propriedades distintas da anestesia.

Com esse conhecimento, poderemos finalmente desenvolver uma nova geração de medicamentos altamente específicos e sem riscos. A pesquisa também pode melhorar tratamentos com sedativos e remédios para dormir, que compartilham alguns dos mecanismos da anestesia.

Os anestésicos são classificados em duas categorias principais: os aplicados por inalação, como o isoflurano, ou por via intravenosa, como o propofol. Eles parecem induzir a um sono profundo, mas o estado produzido pelos anestésicos gerais modernos está mais próximo de um coma farmacológico. Para elucidar os mecanismos que fundamentam seus efeitos, tecnologias como o mapeamento por ressonância magnética (RM) e a tomografia por emissão de pósitrons (TEP) ajudaram a identificar algumas das regiões cerebrais e circuitos neurais envolvidos. Por exemplo, a ação anestésica sobre a medula espinhal explica a imobilidade produzida pelos fármacos, enquanto as alterações no hipocampo (estrutura cerebral envolvida na formação da memória) foram vinculadas à amnésia. O comprometimento crônico da memória após uma cirurgia pode também representar uma influência residual das drogas sobre o hipocampo.

Como a consciência é uma expe-riência complexa, e as propriedades que a definem ainda são tema de debates acalorados entre neurocientistas, não é tão fácil identificar com precisão uma única origem anatômica da inconsciência durante a anestesia. Uma das principais teorias defende que seria simplesmente o resultado de “desligamento cognitivo” – o corte da comunicação entre as várias regiões cerebrais que geralmente cooperam no processamento cognitivo superior. Mesmo em nível local, se imaginarmos grupos de neurônios criando linhas de uma vasta rede telefônica, o efeito da anestesia geral é análogo a desconectar os plugues da central. No entanto, os pesquisadores estão fazendo progressos em descobrir como os anestésicos atuam fisicamente sobre as células individuais do sistema nervoso para bloquear suas transmissões.

 

 

 

Restringindo os Alvos

Minha equipe decidiu se concentrar na identificação dos receptores que influenciam o comprometimento da memória pelos anestésicos e, portanto, focalizou os estudos nos receptores GABAA no hipocampo. Sabe-se que os anestésicos causam amnésia em doses consideravelmente menores que as necessárias para a inconsciência ou para a imobilidade. No entanto, por razões desconhecidas, alguns pacientes conseguem se lembrar de eventos durante a própria cirurgia. Conseqüentemente, a descoberta dos receptores-alvo responsáveis pelos efeitos indutores da amnésia na anestesia poderá permitir a identificação dos pacientes em risco de consciência intra-operatória, exatamente por não possuírem esses receptores. Estratégias farmacológicas para evitar a consciência, ou, no mínimo, lembranças, também poderiam ser desenvolvidas.

Ficamos surpresos ao descobrir que mesmo os receptores fora da sinapse poderiam ter um papel na ação anestésica. Se a sinapse serve de central telefônica na junção entre duas células, então poderíamos imaginar que os receptores na periferia da sinapse ou espalhados ao longo do corpo da célula nervosa residem na própria linha telefônica. Esses receptores GABAA extra-sinápticos são ativados até por concentrações bem baixas de GABA naturalmente presentes no espaço extracelular, ou que transbordam das sinapses vizinhas. Assim, há grande número de receptores extra-sinápticos em certas regiões do cérebro, como o hipocampo e o tálamo (envolvido na consciência e no processamento da dor), bem como partes do córtex e do cerebelo.

No estudo, descobrimos a relevância dos receptores GABAA extra-sinápticos como alvos anestésicos. Procurávamos também por populações de receptores pós-sinápticos sinergicamente moduladas pelo midazolam e propofol, dois dos fármacos neurodepressores intravenosos mais empregados, mas a busca foi frustrada. No entanto, nosso trabalho era baseado na obtenção de registros eletrofisiológicos de correntes geradas nos neurônios hipocampais de cultura tissular, e realmente notamos que as concentrações de anestésicos causadoras de amnésia aumentavam significativamente uma corrente persistente de baixa amplitude gerada pelos receptores GABAA extra-sinápticos. Mais que provocar uma resposta na “central telefônica”, os fármacos aumentavam um tipo de ruído estático ou inibitório na própria linha telefônica que interferia na comunicação.

Constatamos que os anestésicos injetáveis propofol e etomidato e até o isoflurano, inalatório, aumentavam a amplitude dessa corrente em até 35 vezes em concentrações muito menores que as necessárias para causar imobilidade. Outros investigadores, entre eles Stephen G. Brickley, Mark Farrant e seus colegas da University College of London (UCL), já tinham descrito essa corrente baixa e estável mesmo na ausência de anestésicos. Mas o que surpreendeu nosso grupo foi a incrível sensibilidade dos receptores extra-sinápticos a quantidades diminutas de anestésicos inalatórios e intravenosos, enquanto as baixas concentrações de anestésicos causavam apenas alterações insignificantes nas correntes pós-sinápticas. Estudos anteriores, como os nossos, tinham aparentemente se concentrado na família correta de proteínas receptoras, mas examinado os locais errados.1

 

 

Sensibilidade

Nossos experimentos finalmente determinaram que, estruturalmente, os receptores GABAA extra-sinápticos eram um pouco diferentes das populações de receptores dentro da sinapse, pois continham predominantemente uma subunidade alfa-5, geralmente ausente nos receptores pós-sinápticos. Essa única alteração parecia explicar a sensibilidade mesmo a minúsculas quantidades de anestésicos. Evidências cada vez mais numerosas de neurocientistas trabalhando em outras questões também indicavam que os receptores GABAA com a subunidade alfa-5 estão envolvidos em processos normais de memória hipocampo-dependentes, corroborando nossa teoria de que os receptores alfa-5 extra-sinápticos eram responsáveis pelos efeitos do anestésico sobre a memória. Para testar nossa hipótese, usamos camundongos geneticamente modificados que não possuíam a subunidade alfa-5, e camundongos comuns que tinham o receptor normal. Como esperado, nos testes comportamentais, os camundongos comuns foram sensíveis a doses de etomidato causadoras de amnésia, enquanto aqueles sem o alfa-5 não manifestaram os efeitos da droga sobre a memória.

Também estabelecemos que a perda dos receptores GABAA alfa-5 não tinha nenhuma conseqüência sobre qualquer um dos outros efeitos desejados da anestesia: sedação, imobilidade, hipnose e resposta a um estímulo doloroso foram iguais nos dois grupos de camundongos. Os resultados demonstraram que os efeitos de comprometimento da memória do etomidato poderiam estar dissociados das outras propriedades do medicamento, com base na farmacologia de subunidades específicas do receptor. Eles também forneceram o primeiro modelo animal de variações de receptor que poderiam ocorrer em seres humanos, e explicaram alguns casos de resistência à capacidade de um anestésico de induzir à amnésia. Estudos em andamento em nosso e outros grupos determinarão se outros anestésicos gerais também têm os receptores GABAA alfa-5 como o alvo preferencial para causar amnésia.

Ao mesmo tempo, laboratórios da Europa e dos Estados Unidos têm empregado técnicas semelhantes para explorar os efeitos hipnóticos e imobilizadores dos anestésicos. Gregg E. Homanics, da Escola de Medicina da University of Pittsburgh, por exemplo, desenvolveu um camundongo que não possui a subunidade delta do receptor GABAA – que confere alta sensibilidade aos neuroesteróides. Sua pesquisa verificou que os camundongos sem delta eram, previsivelmente, menos sensíveis à alfaxalona, um anestésico derivado de esteróide, nos testes do poder da droga de induzir à inconsciência. Os camundongos mutantes, contudo, não exibiram nenhuma diferença nas respostas ao ipropofol, etomidato e outros anestésicos não derivados de esteróides, em comparação com os controles dos animais comuns. Hoje, os anestésicos derivados de esteróides não são usados com freqüência, mas esses resultados também demonstraram o princípio de que classes diferentes de anestésicos têm como alvo subpopulações distintas de receptores GABAA.

Esses experimentos realmente derrubaram a antiga noção de que, por serem quimicamente bem diferentes entre si, os anestésicos devem produzir seus efeitos por algum mecanismo geral. Na verdade, o desenvolvimento empírico dos anestésicos parece ter ido ao encontro de compostos químicos que produzem efeitos finais semelhantes, mas cada um com seu próprio mecanismo.

 

 

 

etomidato, por exemplo, é o único anestésico em uso clínico seletivo para receptores GABAA que contém as subunidades beta-2 ou beta-3, mas não a beta-1. De fato, as diferenças entre as variantes da subunidades beta que respondem e aquelas que não respondem ao etomidato envolvem a mudança de um único aminoácido em um ponto específico da estrutura protéica da subunidade. A empresa farmacêutica Merck desenvolveu camundongos transgênicos com uma mutação nesse local do aminoácido dentro da subunidade beta-2 e constatou que o etomidato era menos eficaz na produção de inconsciência nos animais; no entanto, as propriedades de imobilização da droga foram mantidas. Quando estava na Universidade de Zurique, Uwe Rudolph também produziu camundongos transgênicos com a mesma mutação na subunidade beta-3 e verificou que ela diminuía muito a eficiência tanto do etomidato quanto do propofol na produção de inconsciência e analgesia nos animais. Por outro lado, ele demonstrou que a alfaxalona era igualmente eficaz nos camundongos normais e nos mutantes, o que sugere que as subunidades do receptor provavelmente não são alvos importantes dessa droga.

Ainda não ficou estabelecido se as mutações pontuais nas subunidades beta-2 e beta-3 do receptor também influenciam as propriedades indutoras de amnésia dos medicamentos. As regiões- do sistema nervoso central dos camundongos transgênicos afetadas pelas mutações permanecem outra incógnita, embora evidências sugiram que os receptores GABAA extra-sinápticos do tálamo sejam determinantes. Em conjunto, no entanto, esses estudos estão confirmando o papel central dos receptores GABAA no funcionamento dos anestésicos. O próximo passo é começar a traduzir esse conhecimento dos anestésicos gerais atuais em fármacos que sejam tudo, exceto gerais.

Tratamento sob Medida

De acordo com as pesquisas, os receptores alfa-5 extra-sinápticos GABAA do hipocampo são vitais para os efeitos indutores de amnésia do etomidato e possivelmente de outros anestésicos gerais usados atualmente. Estes resultados sugerem que drogas que evitam ou têm como alvo esse receptor em particular poderiam poupar ou bloquear seletivamente a formação da memória, conforme a necessidade.

Na verdade, esses compostos já estão sendo desenvolvidos para outros usos. As drogas sedativo-hipnóticas que não agem sobre a subunidade alfa-5 – e, portanto, não devem ter os efeitos de obscurecimento da memória dos sedativos benzodiazepínicos e de certas pílulas para dormir – já se encontram no estágio de planejamento pré-clínico. E os ensaios clínicos do Gaboxadol, o primeiro fármaco a ter como alvo seletivo os receptores GABAA extra-sinápticos para ampliar sua função, estão a caminho. O Gaboxadol foi desenvolvido inicialmente como um anticonvulsivante, mas está sendo estudado atualmente como um fármaco promotor do sono. Ele tem como alvo os receptores GABAA com subunidade delta, encontrados principalmente no tálamo e no cerebelo, e, portanto, pode também não ter efeitos sobre a memória. O potencial de bloqueio da memória de compostos semelhantes que realmente interagem com os receptores alfa-5 também poderia se revelar muito útil em cirurgias, como fármacos que causam profunda amnésia sem deprimir a respiração, os reflexos das vias aéreas ou o sistema cardiovascular. Associado a outros anestésicos, um bloqueador potente da memória poderia ser usado para evitar os episódios de consciência intra-operatória, por exemplo. Sozinho, poderia ser útil no tratamento de pacientes que sofrem do transtorno do stress pós-traumático, pela inibição de certas lembranças dolorosas.

O controle dos efeitos da anestesia sobre a memória é apenas um exemplo da nova abordagem da anestesiologia que se tornará possível com os fármacos dirigidos. Em várias situações, a neurodepressão ampla e profunda dos anestésicos atuais é desnecessária e indesejável. Com um coquetel de compostos, cada qual produzindo um único e desejável efeito final, a versão futura da anestesia poderá deixar o paciente comunicativo, mas sem dor, enquanto se submete a uma operação no caso de um membro quebrado, ou imóvel e sedado, embora ciente, durante uma cirurgia no quadril. Essa abordagem polifarmacêutica já é amplamente empregada em outros aspectos dos procedimentos cirúrgicos, principalmente no tratamento da dor pós-operatória. Hoje, a anestesia é mais segura do que nunca, mas certamente não é isenta de riscos. O campo se vê, agora, diante de uma tremenda oportunidade de deixar para trás a era do éter e avançar rumo a um modelo verdadeiramente moderno.

 

Resumo/Nova Geração de Anestésicos

– Anestésicos gerais são poderosos supressores do sistema nervoso, mas pouco se sabe sobre como as drogas produzem seus efeitos por todo o cérebro e o corpo.

– A pesquisa dos mecanismos de base dos anestésicos está revelando que aspectos individuais do estado de anestesia são atribuíveis a diferentes conjuntos de células nervosas – sendo elas mesmas diferenciadas por proteínas de superfície específicas, que interagem com as drogas.

– Novos compostos criados para ter como alvo apenas essas proteínas e, portanto, apenas tipos celulares específicos poderiam ser combinados para produzir seletivamente os efeitos desejáveis dos anestésicos – bem como sedativos, adjuvantes do sono e remédios para a memória – com menos riscos e efeitos colaterais.

 

 

Transmissão interrompida

Foi demonstrado que os anestésicos deprimem a comunicação neuronal, em parte pela amplificação dos efeitos do neurotransmissor GABA, uma molécula de sinalização que inibe a excitação das células nervosas. As pesquisas atuais se concentram no modo de interação dos fármacos com os receptores GABA celulares para bloquear a atividade neural.

Sinal para silenciar
Um pulso elétrico na membrana de um neurônio provoca a liberação de GABA na sinapse, um ponto de junção com outro neurônio. As moléculas atravessam uma pequena lacuna e se ligam a receptores específicos de GABA na célula pós-sináptica. Em muitas áreas cerebrais, os receptores de GABA são também encontrados fora da sinapse, ao longo do corpo da célula nervosa, e são ativados pelo GABA que transborda desse ponto de junção.

Anestésicos e GABA: mudança de carga
Um subtipo de receptor chamado GABAA é um canal que se encaminha para dentro da célula pós-sináptica, composto por cinco subunidades protéicas. Quando o GABA se liga a ele, o receptor permite a entrada de íons carregados negativamente, o que aumenta a polarização da membrana celular e impede que o neurônio gere um pulso elétrico (à esquerda). Acredita-se que a ação dos anestésicos ocorra pela ligação com as fendas no receptor GABAA e pelo prolongamento da abertura do canal, que causa a hiperpolarização da membrana celular.

 

 

Ferramentas de controle de riscos

Antes de uma cirurgia com anestesia geral, um paciente verá uma série de aparelhos de monitoração e será ligado a eles. Muitos estão lá para protegê-lo contra os efeitos colaterais dos anestésicos, que deprimem a respiração e a função cardíaca, reduzindo a pressão arterial e a temperatura corporal. Um anestesiologista deve calibrar constantemente o sistema de aplicação do fármaco para obter a profundidade desejada da anestesia, sem reprimir as funções cardíaca e respiratória do paciente a um ponto que represente risco de morte.

 

 

Para conhecer mais

Anesthesia safety: model or myth? Robert S. Lagasse, em Anesthesiology, vol. 97, págs. 1609-1617, dezembro de 2002.Emerging molecular mechanisms of general anesthetic action. Hugh C. Hemmings e colegas, em Trends in Pharmacological Sciences, vol. 6, no 10, págs. 503-510, outubro de 2005.
5-GABAA receptors mediate the amnestic but not sedative-hypnotic effects of the general anesthetic etomidate.
Victor Y. Cheng e colegas, em Journal of Neuroscience, vol. 26, no 14, págs. 3713-3720, 5 de abril de 2006.

Molecular and neuronal substrates for general anaesthetics. Uwe Rudolph e Bernd Antkowiak, em Nature Reviews Neuroscience, vol. 5, págs. 709-720, setembro de 2004.

 

 

 

 

 

 

 

                           

 

O dia da alta

Posted in Coração, saúde by adilson borges on 29 de março de 2009

Adilson Borges

(Para a Galeota e outras turmas)

Eram 9h45 do dia 26 de março de 2009 quando o cardiologista Eduardo Novais, da equipe do cirurgião Nilzo Ribeiro,  chegou ao apartamento 147 do hospital . Com os olhos rasos dágua, fez pose de Bial e proclamou: “Adilson Borges, tenho uma péssima noticia para você: Você está eliminado do Big Brother do Aliança”. Abracei-o com força e dei um beijo na bochecha cheirosa e raspada.
Olhos ainda inundados, segurou minha mão e ficou alisando com tanto carinho como jamais um homem fizera. “Você está curado. Aqui estão os resultados dos últimos exames”, mostrou os envelopes. “Você está curado, curado”, repetia, repetia , com um entusiasmo de quem já sabia e ao mesmo tempo parecia não saber. “Você está de alta , vai viver uma vida sem limite, quando digo sem limite é sem limite mesmo, poderá jogar bola, lutar boxe e até fazer jumping, tudo a seu tempo após o período de recuperação da cirurgia”, exaltava-se ao seu modo sereno.
“Curado, curado e 50% da cura foi feita por sua mulher”, apontou para a assistente social Marília Menezes Pessoa, de 38 anos. O nariz de Marília se transformou num pimentão vermelho drenando líquido igual ao minúsculo e derradeiro ferimento de meu corpo, o da perna direita de onde saíram as duas pontes de safena que a enfermeira cobria respeitosamente

A  mãe de Rosalvo

Dulcinéia, a técnica de enfermagem que cuidava de mim toda manhã quase com o mesmo amor e ciúme que tem do filho Rosalvo, de 19 anos, apareceu com a cadeira- de- rodas, sorriu com aqueles olhos castanhos e jogou o linguajar especifico. “É sempre assim, chegam todo molinho, tenho até de dar banho. Quando ficam durinhos, começam a esconder o corpo e logo depois vão embora. Vambora, seu Adilson”.

Cuspe , lágrimas e reflexão

Quando a cadeira deslizou pela recepção, fiz o maior sucesso, entre a turma da área de saúde e pessoal de apoio. Entusiamado, comecei a soluçar pedaço de um poema que aprendi quando ainda não sabia chorar:

“Jamais gostei das despedidas / Elas sempre me deixaram saudade / mesmo quando era imensa a vontade de partir” .

 Dulcinéia jogou os olhos para mim, emocionada. “Acho que é de um cara chamado Dirceu Régis”, balbuciei. “Mas é lindo, cara! Este seu Adilson!” Com a boca cheia de cuspe e lágrima retruquei: “Esta Dulcineia!”. Toda doçura, Marília alisou meus cabelos e botou a mão no ombro dela.
Marcos, o auxiliar de enfermagem com cara de tocador de cavaquinho, estendeu a mão e me balançou o braço do lado direito da forma que , quando de bom-humor, eu ironizava : “Ainda bem que não é lado da mamária”. Me deu vontade de um abraço e talvez de um beijo naquela pele preta luzidia. Mas teria que tirar a manta (tinha manta? Acho que não) esticar a perna magoada, levantar da cadeira. Preferi a autoironia silenciosa:

“Chega de beijo em homem, isto tá parecendo viadagem”.