Coisas do Coração

Cores de Almodóvar na corte do TCE

Posted in Coração by adilson borges on 14 de dezembro de 2009

Adilson Borges*

Em Abraços Partidos , seu novo filme, Pedro Almodóvar, confirma talento e jeito especial de surpreender. Ao reafirmar o gosto pelo mergulho profundo nas emoções, sobretudo das mulheres, Almodóvar espanta não por apresentar novidade (talvez esta seja sua obra mais previsivel ), mas exatamente pelo abuso majestoso de clichês, como o filho que descobre quem é o seu pai e a suposta inesgotável capacidade feminina de atuar na vida real.

A sucessão no Tribunal de Contas do Estado(TCE), que realiza eleição na quinta-feira (17.dez.09), parece ter como inspiração um roteiro do cineasta espanhol, que gosta muito do compositor Caetano Veloso e vez em quando aparece em Santo Amaro, no interior da Bahia.

Falem com elas

 Até agora, só está colocado o nome da conselheira Ridalva Correa de Melo Figueiredo na disputa pela presidência do TCE. O conselheiro Zilton Rocha foi convidado para ser vice da chapa, mas declinou. Apoiando Ridalva, estão os conselheiros Antônio Honorato, Filemon Matos e França Teixeira.

 O poder por aqui, aliás, está cada vez mais feminino: sexta-feira foi eleita para a presidência do Tribunal de Justiça da Bahia a desembargadora Telma Brito. Será a sucessora de Silva Zarif, a primeira mulher a comandar o Judiciário do Estado. Temos aí, portanto, o proverbial testemunho almod(ovariano) da força da mulher.

 Carnes trêmulas

 O conselheiro Pedro Lino, que vive às turras em infindável troca de palavras nada protocolares com o colega França Teixeira, está de licença-prêmio até dia 22. Mas nada no regimento impede que apareça para votar na quinta-feira. A origem da pendenga Lino versus Teixeira é o relatório com o qual o primeiro tentou reprovar as contas do governador Jaques Wagner.

Alegando estresse e cansaço, Lino ausenta-se depois de divulgar carta com reafirmação de críticas a Wagner, que expôs – num gesto visto como inábil, pois se deu após aprovação dos números da discórdia –, presumíveis distorções cometidas pelo conselheiro inconformista no histórico relatório. Ingredientes caros ao mestre Almodóvar, a intriga na corte e o lance fútil do jogo de vaidades estariam aqui materializadas.

Volver, Dom Manoel?

Presidente por três vezes do TCE, Manoel Castro, comenta-se, tentou articular a candidatura de Zilton Rocha para a presidência, mas perdeu a hora: quando deu por si, a candidatura de Ridalva já tinha tomado corpo, congregando a maioria do Pleno, como os conselheiros gostam de se autorreferenciar.

Mas o roteiro pode mudar: caso assegure o apoio de Zilton, somado com o de Pedro Lino, Manoel Castro coloca seu nome para um quarto mandato. Se desta vez não perder o timing, como dizem os cosmopolitas…

A flor do meu segredo

 O voto e a voz de Zilton, cuja autonomia por vezes chegou a desagradar o governador, é uma incógnita. Remete-nos a um diálogo de Abraços Partidos:

 – Qual o segredo? – pergunta, curiosa, a mulher.

 –Ainda não sei, vou escrever para descobrir – responde o protagonista.

Forjado a fogo e martelo no petismo, o ex-deputado estadual, meses depois de indicado por Wagner para a corte, aprovou, como era de se esperar, as contas do governador de 2007. Mas fê-lo (permita-se usar aqui linguagem dos conselheiros quando não adotam palavrões que ridicularizam a contextualizada “merda” do famigerado discurso do presidente Lula ) com ressalvas.

O episódio deixou sequelas e governistas, amantes do filme Ata-me, à beira de um ataque de nervos com queixo doido de falar da ingratidão. Mas como ensina o bruxo espanhol, na nova obra, toda história tem que ser completada.

Que venha logo a indecifrável quinta-feira.

* Texto publicado com alterações,  por questão de espaço, no jornal A TARDE , de Salvador-Bahia, edição de 14.12.2009

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O picadeiro de Batatinha

Posted in Coração by adilson borges on 11 de setembro de 2009

 

Dica de filme:  Batatinha, o poeta do samba

Cena preferida: Firmino de Itapuã cantando com filhos de Batatinha  (Oscar da Penha):

 “Todo mundo vai ao circo,

 menos eu, menos eu.

Como comprar ingresso

se eu não tenho nada?

Fico de fora

 escutando a gargalhada;

 

A minha vida é um circo

Sou acrobata na raça!

Só não posso é ser palhaço

Porque eu vivo sem graça”

Zé Rodrix, os limites do campo e do corpo

Posted in Coração by adilson borges on 23 de maio de 2009

Eu quero uma casa no campo / Onde eu possa ficar do tamanho da paz / E tenha somente a certeza / Dos limites do corpo e nada mais  (Casa  no Campo, de Zé Rodrix e Tavito)

 

 A morte do cantor e compositor Zé Rodrix esquenta o debate sobre a prevenção das doenças cardíacas. O  autor de Casa de Campo  morreu na quinta-feira (21de maio) de infarto no miocárdio, aos 61 anos .  Mas segundo familiares e amigos, ele recentemente fez check up e estava tudo normal.

 Zé Rodrix estava em casa, com a família, quando passou mal. Foi levado às pressas ao Hospital das Clínicas, na capital paulista, onde morreu. Ainda são escassas as informações sobre o estado de saúde que levou o compositor à morte. Mas segundo a família, Rodrix estava muito bem de saúde e cheio de planos para a carreira de músico e publicitário. O corpo deve ser cremado neste sábado (23).

“Qualquer um pode morrer atropelado, mas aquele que anda de bicicleta todos os dias, sem capacete, sem nada, as chances aumentam muito mais”, disse recentemente o médico cirurgião João Lucas O ‘Connell, em entrevista ao Correio de Uberlândia , de Minas Gerais.

O mesmo argumento, em defesa da prevenção, consta em entrevista do doutor Mario Cerci concedida ao site Hospital do Coração e republicada dia 8 de maio aqui no Coisas do Coração.

“Todas as pessoas, com o passar da idade, vão tendo maior chance de ter um infarto. Então, essas pessoas têm que procurar um cardiologista periodicamente, dosar o colesterol, dosar a glicemia para ver se não é diabético, adotar a prática de exercício supervisionada, orientada por um cardiologista, previamente”, orienta o cardiologista. “Quem seguir essas linhas, terá uma chance muito menor de sofrer complicações cardiovasculares”.

 

 

Cante “Casa no Campo” com Zé Rodrix:

Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais

Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar do tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais

Eu quero carneiros e cabras pastando
Solenes no meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas

Eu quero a esperança de óculos
E um filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão,
A pimenta e o sal

Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau a pique e sapê
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros e nada mais

 

 

 

 

 

 

Mamãe, eu quero mamária!

Posted in Coração by adilson borges on 15 de maio de 2009

galeota do carnaval

Caderno de autoajuda:

1) Evite ficar sozinho sempre que estiver se preparando para ganhar duas pontes de safena e uma mamária.

 A última sessão da Galeota, antes da cirurgia foi a mais animada.  Ao leitor apressadinho explico logo: Galeota é o nome da reunião etílica, poética e musical que, vez em quando, faz a galera valente do jornal A TARDE  (Salvador, Bahia, Brasil) atravessar a passarela e ancorar, na Casa do Comércio, madrugada adentro. O manifesto da Galeota, que virou comunidade no Orkut há um ano (29 de maio de 2008), explica mais.  E melhor:

 “A Galeota é o prazer, depois do cansaço, a irreverência, o não-compromisso, o vinho, a cerveja, o sorriso, a besteira, a comida, o bolo falso, o violão e o beijo, o boné inesperado, o sorriso, a galhofa, a ironia, a noite que logo se exaure, a volta pra casa e a sensação do dever cumprido e de que vencemos a morte e a despedida, e celebramos renascimentos e encontros mais uma vez”.

 2) A verdade está no meio de tudo. Procure-a.

 Algum espírito-de-porco há de insinuar que o sumo da alegria do dia 18 de fevereiro seria o sentimento de despedida. Como em tudo há verdade, até na alma suína, por que não concordar? Quem sabe quando a hora é de “Adeus” ou de “Até logo”?  Ninguém. 

Por isso, é bom aproveitar. Só se vive uma vez.  Há, no entanto, quem discorde desta última afirmação. Para evitar que a porca torça o rabo aí, não se deve afirmar nada tão categoricamente.  Mas basta uma verdade: a festa foi legal,  foi boa, foi ótima!

3) Deus ajuda a quem madruga e não chora. Orvalho é mais doce que lágrima.  

Com fantasia, confete, serpentina, máscaras, apito, a Galeota virou baile do Carnaval. O aquecimento começou cedo, na tarde daquela quarta-feira. A cada hora, pintava o sinal, e a gente explodia em alegria, na redação. Apitava, gritava, Agitava. O tema, numa alusão às saudosas marchinhas, mas irreverente como sempre, foi dos mais comentados: “Mamãe, eu quero mamária”.

Fechado o jornal do patrão, saiu o cortejo espalhando fantasia pela Tancredo Neves quase deserta. Personagens não-identificados, Drácula, mulheres-gatos, Oxum, invadiram a Casa do Comércio. “Aviso que eu hoje eu vou chegar mais tarde”, liga o garçom para casa. “De novo?”, alguém diz do outro lado. “É tá todo mundo aqui. O negão com o violão, o viado, o rapaz alto que gosta de música brega, a moça que coça o cabelo e aperta os olhinhos, a outra de olhos discretos que só degusta vinho…”

3) Faça por merecer que o dia amanhece

Sem ponto e maiúsculas no lugar certo, e com vírgulas estranhas, a reportagem da festa pode ser conferida na comunidade da Galeota:  

foi uma beleza só a Galeota do Carnaval, na quarta, 18 de fevereiro A portabandeira não apareceu, e perdeu A gente, com máscara e fantasia, ou de careta, gozou, gozou Bira fez sua estreia e tocou violão, navarro cantou, gil a tudo fotografou, oxum baixou e a bela lilia bailou, bailou, marcia sambou sambou sambou bonito em três tempos, olhos-lindos sorriram, sorriram, drácula sentiu aperto no coração, mas não era dor, era emoção Felicidade que fizemos por merecer Todo mundo brilhou, brilhou
O dia amanheceu. Sem lágrimas nem orvalho”.

 

 

 

 

A história do meu último suspiro

Posted in Coração by adilson borges on 12 de maio de 2009

 

 

“Fumar é um jeito discreto de ir queimando as ilusões perdidas. Daí esse ar aliviado e triste dos fumantes solitários. Vocês ainda não repararam que ninguém fuma sorrindo?”  ( Mário Quintana)

 

Qual a sua atividade profissional? Sou jornalista, respondi. O médico continuou fazendo as perguntas clássicas, que chamam de anamnese, antes de iniciar o tratamento. Estado Civil? Idade? Doenças? Saúde da família?  Eu já estava pensando que não ia escapar daquela vez. Mas o diálogo mudou:

– Por que você quer deixar de fumar?

– Eu não quero deixar, não

– Não! E por que o senhor está aqui?

– Por causa dela, minha mulher, que marcou a consulta e me trouxe.

O médico balançou a cabeça, chamou Marília e disse que eu ainda não estava pronto para deixar de fumar.

“Puxa, Adilson, por que você não me disse isso! Fazer eu perder uma tarde de trabalho, pagar consulta. Puxa, assim, eu desisto!” , desabafou Marília, no caminho de volta mas não desistiu. Quatro ou cinco anos depois de muita conversa, acertou comigo que eu deixaria de fumar em 15 dias.

Marcou a data e comprou uns emplastros à base de nicotina para colar no ombro. “Vou ficar viciado nestes adesivos”, eu ironizava, mas torcia para dar certo. No dia marcado na agenda preta dela, a casa amanheceu “limpa”. Isqueiros e até fósforos sumiram, cinzeiros também. Café não rolou, refrigerante também não, só chá e a alimentação foi mais leve, mas muito saborosa, com bastante salada.

Pongado no meu ombro, o emplastro com minha dose de nicotina tinha efeitos contraditórios.  Amenizava a vontade de fumar, mas provocava um coceira…que me fazia lembrar do cigarro. Nestas horas, eu procurava pensar em outra coisa. Às vezes, lembrava de Mário Quintana: “ Fumar é uma forma de suspirar”. E, para subverter a frase a favor do tabaco, respirava fundo, afastando-me  do vício. 

Tudo ajudou, mas o  remédio que considero mais eficaz, além do emplastro, é claro, foi a água. Troquei a nicotina pela água. Acho que até hoje estou viciado em H2O. Assim, depois de 33 anos ininterruptos de tragadas, pelo menos um maço diário, eu passei, finalmente, um dia e uma noite sem fumar.

 

Em busca da ilusão

Entre dezembro e janeiro deste ano de 2009, cerca de 10 anos depois de parar de fumar, eu estava correndo de médico a médico doido para que algum dissesse que eu não precisaria de duas pontes de safena e uma mamária. Primeiro havia virado poltrona de clínica na esperança de que um especialista proclamasse que não haveria necessidade de fazer cateterismo.  Como não encontrei esta alma vendedora de ilusão, já me sentiria feliz comprando a esperança de fazer angioplastia, procedimento menos invasivo, feito, como o cateterismo, através de uma artéria na virilha. Nem isso  encontrei, todos achavam que eu deveria cair na faca.

Então ter deixado de fumar  não ajudara nada?  “Se você continuasse fumando, acho que você não estaria aqui conversando comigo agora”, disse o cardiologista Juarez Magalhães, olhos voltados atentamente para o resultado do cateterismo feito pelo doutor Heitor Carvalho, uma dos nomes mais importantes da angioplastia do Estado.

O dia da alta

Posted in Coração, saúde by adilson borges on 29 de março de 2009

Adilson Borges

(Para a Galeota e outras turmas)

Eram 9h45 do dia 26 de março de 2009 quando o cardiologista Eduardo Novais, da equipe do cirurgião Nilzo Ribeiro,  chegou ao apartamento 147 do hospital . Com os olhos rasos dágua, fez pose de Bial e proclamou: “Adilson Borges, tenho uma péssima noticia para você: Você está eliminado do Big Brother do Aliança”. Abracei-o com força e dei um beijo na bochecha cheirosa e raspada.
Olhos ainda inundados, segurou minha mão e ficou alisando com tanto carinho como jamais um homem fizera. “Você está curado. Aqui estão os resultados dos últimos exames”, mostrou os envelopes. “Você está curado, curado”, repetia, repetia , com um entusiasmo de quem já sabia e ao mesmo tempo parecia não saber. “Você está de alta , vai viver uma vida sem limite, quando digo sem limite é sem limite mesmo, poderá jogar bola, lutar boxe e até fazer jumping, tudo a seu tempo após o período de recuperação da cirurgia”, exaltava-se ao seu modo sereno.
“Curado, curado e 50% da cura foi feita por sua mulher”, apontou para a assistente social Marília Menezes Pessoa, de 38 anos. O nariz de Marília se transformou num pimentão vermelho drenando líquido igual ao minúsculo e derradeiro ferimento de meu corpo, o da perna direita de onde saíram as duas pontes de safena que a enfermeira cobria respeitosamente

A  mãe de Rosalvo

Dulcinéia, a técnica de enfermagem que cuidava de mim toda manhã quase com o mesmo amor e ciúme que tem do filho Rosalvo, de 19 anos, apareceu com a cadeira- de- rodas, sorriu com aqueles olhos castanhos e jogou o linguajar especifico. “É sempre assim, chegam todo molinho, tenho até de dar banho. Quando ficam durinhos, começam a esconder o corpo e logo depois vão embora. Vambora, seu Adilson”.

Cuspe , lágrimas e reflexão

Quando a cadeira deslizou pela recepção, fiz o maior sucesso, entre a turma da área de saúde e pessoal de apoio. Entusiamado, comecei a soluçar pedaço de um poema que aprendi quando ainda não sabia chorar:

“Jamais gostei das despedidas / Elas sempre me deixaram saudade / mesmo quando era imensa a vontade de partir” .

 Dulcinéia jogou os olhos para mim, emocionada. “Acho que é de um cara chamado Dirceu Régis”, balbuciei. “Mas é lindo, cara! Este seu Adilson!” Com a boca cheia de cuspe e lágrima retruquei: “Esta Dulcineia!”. Toda doçura, Marília alisou meus cabelos e botou a mão no ombro dela.
Marcos, o auxiliar de enfermagem com cara de tocador de cavaquinho, estendeu a mão e me balançou o braço do lado direito da forma que , quando de bom-humor, eu ironizava : “Ainda bem que não é lado da mamária”. Me deu vontade de um abraço e talvez de um beijo naquela pele preta luzidia. Mas teria que tirar a manta (tinha manta? Acho que não) esticar a perna magoada, levantar da cadeira. Preferi a autoironia silenciosa:

“Chega de beijo em homem, isto tá parecendo viadagem”.