Coisas do Coração

Uma tarde no circo

Posted in Coração by adilson borges on 11 de setembro de 2009

swoleilSei que vou desafinar o coro dos satisfeitos, mas ouso dizer que o Cirque du Soleil me faz lembrar o menino bonito da canção de Rita Lee: “Lindo, mas também não diz mais nada”. Talvez tenham razão os que sustentam que a frustração deriva da minha expectativa, baseada no circo tradicional, e do preço exorbitante, R$ 350 inteira.

 

Sei também que hão-de ficar apenas na memória as imagens do domador fustigando os leões com estalos de chicote, do elefante dançando twist, do macaco irreverente no trapézio e dos camelos cavalgados por belas moças de biquínis que agitavam nossos sonhos na adolescência. Mas não posso negar, ainda tenho saudade do tempo em que se podia assistir impunemente à exposição dos animais…

 

Agora, nosso deleite seria perturbado pelo sentimento de culpa. Apesar de usarmos armas como pistolas e punhais e carros e lixo, na crescente guerra de todo dia contra nossos semelhantes ou mais ou menos dessemelhantes, estamos (ou fingimos estar) com o estômago mais fraco. O espetáculo dos animais engolindo chocolate e chicletes, e batendo a cabeça nas grades para espantar o stress do cativeiro, ainda é permitido no zoológico, mas no circo, hoje, é quase heresia.

 

Neste aspecto, de respeito aos animais, aplaudo o novo conceito circense. Fora deste ponto, me sinto… lesado. Não concebo, ainda, por exemplo, um circo sem a figura do mágico ou do palhaço. Reconheço, no entanto, que todo circo, por si só, tem algo de magia e palhaçada. Por que não reforçar este clima mágico e de irreverência?

 

O Soleil tem palhaço, e dos bons – daqueles que têm pouco compromisso com o politicamente correto e arranca na marra a risada que a gente segura no dia-a-dia para não parecer preconceituoso. O que seria do trapalhão Didi se fôssemos todos seres sem racismo, homofobismo, machismo e indiferentes aos padrões de beleza e de feiúra?  

 

Mas cadê o mágico? O Soleil não tem mágico, o que considero imperdoável, sobretudo com as crianças. De cartola ou não, é insubstituível a figura que faz surgir e desaparecer coisas nas mãos mais rápidas do que os olhos esbugalhados do público.

Falta alma no Soleil!

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A cor do cavalo branco na lua

Posted in Coração by adilson borges on 11 de setembro de 2009

cavalo brancoMeu avô tinha um belo cavalo branco. Certa vez, o Circo Mágico Thyani (acho que a grafia é assim) alugou (ou seria melhor dizer “locou”, como está na moda?) o animal para participar do grande show. O mágico de cabelo engomado cobria o alasão com um cobertor. Depois, fazia uma mesura e jogava para cima o pano, que aterrissava no picadeiro como uma arraia branca cola na areia no fundo do mar. O cavalo de Bráulio, meu avô, para onde ia?    

Revejo-me menino disposto, um dia, a acabar o mistério.  Levanto da cadeira desconfortável e saio correndo do circo. Chego, logo, à área externa da lona, nas proximidades da tradicional Feira de São Joaquim, que monopolizava o abastecimento em Salvador antes do advento dos super e hipermercados.

O trote me faz respirar com dificuldade, mas o frio da noite de lua me acalma rápido. Respiro fundo e olho para o cavalo mordiscando o capim esturricado.

 

Como foi teletransportado, nunca saberei. Mas sei que nunca esquecerei a imagem enluarada do animal pastando, sem filosofia, indiferente às palmas que ajudou a provocar com o seu sumiço!

O picadeiro de Batatinha

Posted in Coração by adilson borges on 11 de setembro de 2009

 

Dica de filme:  Batatinha, o poeta do samba

Cena preferida: Firmino de Itapuã cantando com filhos de Batatinha  (Oscar da Penha):

 “Todo mundo vai ao circo,

 menos eu, menos eu.

Como comprar ingresso

se eu não tenho nada?

Fico de fora

 escutando a gargalhada;

 

A minha vida é um circo

Sou acrobata na raça!

Só não posso é ser palhaço

Porque eu vivo sem graça”