Coisas do Coração

Um lugar distante da dor

Posted in Coração by adilson borges on 21 de abril de 2009

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Divido em duas etapas minha experiência com anestesia, no dia 17 de março, quando fui submetido à cirurgia para revascularização do miocárdio (ponte de safena e mamária). A primeira deu-se por volta das 8h30 às 14h30, quando tive uma reação semiconsciente. Ao emergir da anestesia, na UTI, vejo-me tentando arrancar os tubos que me sufocavam. O terror não foi maior porque fui avisado de que poderia despertar “entubado”. Desta forma, mesmo lutando contra o que me oprime, chego a racionalizar, “o doutor me avisou que isto ocorreria”.  Em outro momento, sinto-me livre e penso, “ah, enfim, estou solto”. 

De nada mais lembro neste período. Marília, minha mulher, e Vina, minha ex-mulher entraram juntas na UTI e foram as primeiras pessoas, exceto integrantes da equipe do hospital, a me rever, digamos, com sinal de vida.

Mães dos meus quatro filhos (Francisco, com Marília; Cristiana, Saulo e Emiliano, com Vina), elas passaram a manhã angustiadas à espera desta hora no espaço reservado aos familiares. Passado o nervosismo, conversaram ao meu lado. Vina chegou a fazer piada sobre meu estado de lassidão, parecendo ausente, desmaiado ou dormindo indiferente a toda presença.

Nada vi. Nada ouvi. Nada senti. Contaram-me tudo, inclusive que, inesperadamente, eu teria começado a ficar agitado, o que, presumo, coincidiu com a consciência do entubamento. Soube, mais tarde, de uma forma inconveniente por parte de uma ‘pesquisadora’ interessada em saber minha reação, que fui “contido mecanicamente”, eufemismo para “amarrado”.

As duas mulheres foram convidadas a se retirar da sala. Dirigiram-se então animadas para fazer um relato da minha situação aos outros familiares, que lá fora as esperavam.  Adelmo, meu irmão mais velho, mais entusiamado repetiu a chiste que sustentou toda a manhã, irritando minha filha: “Ele deve ter ficado frustrado, Vina (técnica em enfermagem), porque agora não dão mais lavagem, como você disse que haveria, antes da cirurgia”.

 

Paz total

A que se pode comparar a sensação de tomar anestesia geral?  Dormir não é referência, pelo menos no meu caso. A não ser que considere a possibilidade de dormir sem o período prévio da sonolência, sem nenhum registro consciente do que chamamos de realidade objetiva e sem sonho algum. Nem sonho nem pesadelo.  Nada. É como se a gente, existindo, deixasse de existir. Mas sem consciência desse processo. Químico, físico e biológico.

Nunca saberei, mas desconfio que foi só na primeira etapa da minha experiência, quando não havia som, luz, idéia de espaço e tempo, que experimentei aquela sensação única, indefinível e que foi a que me ficou da anestesia: um sentimento de paz inexplicável, como se nada mais importasse, nada mais fizesse sentido, só a paz.

 

Segunda etapa

 

Acho que após a luta contra os tubos opressores, devo ter sido nocauteado pela mistura dos poderes dos anestésicos e do sono. Nunca saberei. A verdade é que, consciente em torno da minha realidade, despertei por volta da 21h30 (havia um grande relógio em frente a minha cama),  sem dor, um tanto descansado. Ainda não racionalizava, mas obviamente contente por ter “voltado”.

Alguém da equipe de saúde perguntou como estava, e eu expressei meu contentamento, não me lembro se por palavras ou gesto. A verdade é que estava bem disposto, até com uma fomezinha, igual àquela que a gente sente quando acorda numa pousada agradável num fim de semana de sol.

“Tenho uma visita para você”, disse a enfermeira, braços dados com Marília, que olhava para mim, o renascido, como Maria deve ter olhado Jesus pela primeira vez na manjedoura. Mas eu, negro baiano, muito distante daquele mistério dos cristãos, estava tão berm disposto que não resisti à gaiatice na minha primeira fala com consciência:  

 

“Oh, que bom ver você de novo, Mariana”, disse olhando com ternura para Marília.  A enfermeira (ironia?), manteve-se firme, “se a visita não é aqui, desculpe, mas vou levar”. Marília chorou gotas de desespero antes de balbuciar, “que Mariana, Adilson? O que é isto, meu amor?” Aí, eu senti um aperto no peito, seguido de uma sensação alagadiça nos olhos. Estendi o braço e falei em forma de perdão, carinho e paz:

 

“Oh, meu amor, eu tava brincando!”

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O peso de uma jamantinha

Posted in Coração by adilson borges on 13 de abril de 2009

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Quando se está vivo, a  jamanta vira uma dorzinha passageira

Quando se está vivo, a jamanta vira uma dorzinha passageira

 

–Quer saber a verdade? Acho que estou vivendo o momento mais feliz da minha vida! 

 Minha amiga, dessas a que se pode falar tudo, ficou, é claro, espantada. Mas calou-se respeitosamente  ao ouvir de mim esta frase em 27 de março, um dia depois de eu ter saído do hospital, onde fiquei 11 dias – após cair na faca em uma cirurgia que estabeleceu duas pontes de safena e uma mamária no meu assanhado peito, de 56 anos.

Como podia ser feliz alguém que não passava um dia sem chorar, com dores 24 horas? O ex-presidente João Baptista  Figueiredo (1979 /1985), por exemplo, criou um trauma ao dizer em relação aos seus sentimentos nos dias posteriores à ponte de safena: “Uma jamanta passou sobre o meu peito”.

 Exagero ou não, já que a dor é sentimento muito particular, podemos, a princípio, chegar a outros consensos:

é foda ser feliz quando não se dorme naturalmente  com medo do que não se viu, mas o corpo sentiu e espíritos-de-porco sopraram. Sopraram? Não, contaram tudo ou quase tudo, inclusive suas surpreendentes  reações no período (das oito e meia  da manhã às nove e meia da noite) em que você  ‘morreu’ para renascer, no dia 17.

é foda ser feliz quando só se dorme com remédio que lhe tira o tirocínio e o deixa loucão,  sem controle da mente e da bexiga, o que o obriga até a usar fralda geriátrica.

é foda ser feliz quando o dia amanhece e você, tartaruga emborcada, fica gemendo, barriga para cima, (ainda dizem que “viver de papo pro ar” é viver bem) à espera do efeito do Tilex, além de mãos caridosas e fortes, para enfrentar a dor e levantar.

é foda, mas é possível ou pura loucura, sobretudo, quando você sabe que esta dor é passageira, como aquela que termina no vaso. Sente-se, ademais, em ebulição, em pleno jorro criativo –  no meu caso, tenho um plus, a música.  Sente-se com força para amar.  E sabe, sobretudo, que você está curado e não terá limitações (às vezes, temos que confiar cegamente no médicos) e apartado da morte. Por enquanto.

 

Como quase todo mundo.