Coisas do Coração

O dançarino erótico

Posted in Coração, doação de sangue, saúde by adilson borges on 16 de abril de 2009

margaridasss1 “Será que  botaram o fio da cabeça no coração dele”?  margariuda1A empregada está desconfiada desde que o homem voltou para casa. “Ele tá muito diferente, dona Ridan. Seu Lirdau não era assim não antes da cirurgia”, cochicha com a sogra do patrão, na cozinha com cheiro de coentro, ensopado de peixe e pirão.

Dona Ridan enxuga as mãos e corre para o quarto.  Reparte o segredo com a filha, a mulher do homem que dança sozinho na sala, bermuda enorme, pendurada entre a barriga e o púbis, de onde sai uma margarida amarela, desgarrada do enorme buquê com que ele foi recebido ao voltar do hospital. Quando recebeu alta.  

 

Mãe e filha vão para a cozinha, preocupadas que o peixe, a abóbora e o quiabo cozinhem demais. E dão uma espiada no homem. A música negra geme na sala e ele se contorce, malicioso. Sozinho e sozinho. “O que é isso, rapaz? Tem gente aqui”, diz a filha, com a boca sem áudio, ajudada com gestos de mão. Briga, achando engraçado.

O dançarino parece não ouvir. Às vezes faz um impossível solo na guitarra presa no canal de música da TV a cabo. Outras, faz pirueta ousada para quem está no pós-operatório. Quase sempre é castigado com uma fisgada no peito e faz careta de dor. E assim fica até que é chamado para comer o ensopado na panela de barro em forma de peixe.

Antes de sentar, faz uma reverência, olhando paciente para a filha e a mãe. Depois, tira a margarida do pélvis, beija e entrega à mulher.  “Que tá havendo com este homem, meu deus?”, pensa a mulher, agora inquieta. A empregada ajuda mãe e filha a botarem a mesa. Depois, sai da sala e vai ao quarto pegar o celular com a ligação esperada neste sábado.  Antes de atender, conclui o que era dúvida:

“ Botaram o fio da cabeça no coração dele! Coitado de seu Lirdau!”

 

4 Respostas

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  1. Emiliano said, on 18 de abril de 2009 at 11:20

    Magfico imaginei a cena Seu Lirdau deveria “tá todo se bulino”. RsRsRs

  2. adilson borges said, on 18 de abril de 2009 at 13:15

    Só chamando Dulcinéia!

  3. Jairo da Mata said, on 23 de abril de 2009 at 11:55

    Meu caro Adilson,
    Estou me contorcendo em risos com o texto. Fizeste uma reedição dos primeiros dias da sua fase pós operatória.
    Muito legal.
    Abraço

  4. adilson borges said, on 23 de abril de 2009 at 22:28

    Oh, meu irmãozinho. Há quem prefira esquecê-los. Eu opto por enfrentar os fantasmas. Acho que é a melhor forma de derrotá-los. Um abraço!


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