Coisas do Coração

Zé Rodrix, os limites do campo e do corpo

Posted in Coração by adilson borges on 23 de maio de 2009

Eu quero uma casa no campo / Onde eu possa ficar do tamanho da paz / E tenha somente a certeza / Dos limites do corpo e nada mais  (Casa  no Campo, de Zé Rodrix e Tavito)

 

 A morte do cantor e compositor Zé Rodrix esquenta o debate sobre a prevenção das doenças cardíacas. O  autor de Casa de Campo  morreu na quinta-feira (21de maio) de infarto no miocárdio, aos 61 anos .  Mas segundo familiares e amigos, ele recentemente fez check up e estava tudo normal.

 Zé Rodrix estava em casa, com a família, quando passou mal. Foi levado às pressas ao Hospital das Clínicas, na capital paulista, onde morreu. Ainda são escassas as informações sobre o estado de saúde que levou o compositor à morte. Mas segundo a família, Rodrix estava muito bem de saúde e cheio de planos para a carreira de músico e publicitário. O corpo deve ser cremado neste sábado (23).

“Qualquer um pode morrer atropelado, mas aquele que anda de bicicleta todos os dias, sem capacete, sem nada, as chances aumentam muito mais”, disse recentemente o médico cirurgião João Lucas O ‘Connell, em entrevista ao Correio de Uberlândia , de Minas Gerais.

O mesmo argumento, em defesa da prevenção, consta em entrevista do doutor Mario Cerci concedida ao site Hospital do Coração e republicada dia 8 de maio aqui no Coisas do Coração.

“Todas as pessoas, com o passar da idade, vão tendo maior chance de ter um infarto. Então, essas pessoas têm que procurar um cardiologista periodicamente, dosar o colesterol, dosar a glicemia para ver se não é diabético, adotar a prática de exercício supervisionada, orientada por um cardiologista, previamente”, orienta o cardiologista. “Quem seguir essas linhas, terá uma chance muito menor de sofrer complicações cardiovasculares”.

 

 

Cante “Casa no Campo” com Zé Rodrix:

Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais

Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar do tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais

Eu quero carneiros e cabras pastando
Solenes no meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas

Eu quero a esperança de óculos
E um filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão,
A pimenta e o sal

Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau a pique e sapê
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros e nada mais

 

 

 

 

 

 

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Substâncias psicoativas entre estudantes de medicina

Posted in Coração by adilson borges on 12 de maio de 2009

ilus0812_tabagismoArtigo Original

 

Uso de substâncias psicoativas entre estudantes
de Medicina de Salvador (BA)

Psychoactive substance use by medical students from Salvador (BA)

KLEUBER MOREIRA LEMOS1, NEDY MARIA BRANCO CERQUEIRA NEVES2, ANDRÉ YOICHI KUWANO1, GUSTAVO TEDESQUI1, ALMIR GALVÃO VIEIRA BITENCOURT1, FLÁVIA BRANCO CERQUEIRA SERRA NEVES3, ANDRÉIA NUNES GUIMARÃES3, ANDREA REBELLO3, FERNANDA BACELLAR3, MÔNICA MOTTA LIMA3

1 Graduandos da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (Famed-UFBA).
2 Médica oftalmologista, professora de Ética Médica e Bioética da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública da Fundação Bahiana para
Desenvolvimento das Ciências (EBMSP-FBDC) e mestra em Educação pela UFBA.
3 Graduandos da EBMSP-FBDC.

Recebido: 05/06/2006 – Aceito: 14/08/2006

Endereço para correspondência:
Kleuber Moreira Lemos. Rua da Fauna, Cond. Veredas do Sol, casa 86 – 41613-058 – Salvador, BA. E-mail: kmlemos@yahoo.com

 


Resumo

 

Contexto: Estudos indicam que estudantes de Medicina, apesar do seu dedutível conhecimento sobre os efeitos das substâncias psicoativas, consomem-nas em proporção semelhante à dos jovens de mesma idade na população geral. Objetivo: Analisar o padrão local do consumo dessas substâncias entre graduandos de Medicina e contribuir na formulação de atividades preventivas. Métodos: Aplicação de questionário semi-estruturado no qual foi avaliada a freqüência de uso das substâncias psicoativas entre os estudantes, assim como as principais razões apontadas para o consumo. Foram analisados 404 questionários obtidos entre alunos dos seis anos de curso das duas maiores escolas médicas de Salvador. Resultados: As drogas mais utilizadas no critério uso na vida foram álcool (92,8%) e lança-perfume (46,2%). O uso de álcool apresentou-se constante nos seis anos de curso. Entretanto, o uso de tabaco, lança-perfume e tranqüilizantes aumentou significativamente para os alunos dos últimos anos (p < 0,05). Há um maior consumo de drogas pelo gênero masculino. Diversão foi apontada como razão mais importante para o uso dessas substâncias (58,7% das respostas válidas). Conclusão: O consumo de substâncias psicoativas entre estudantes de Medicina de Salvador é considerado alto, em concordância com o que se constatou em outros trabalhos científicos.Lemos, K.M. et al. / Rev. Psiq. Clín. 34 (3); 118-124, 2007Palavras-chave: Estudantes de Medicina, substâncias psicoativas, drogas.

 


Abstract

 

Background: Studies have shown that medical students consume psychoactive substances at the same rates as the same age youth on general population, despite their predictable knowledge about drugs effects. Objective: To analyze the local pattern of psychoactive substances use among medical students and contribute for the formulation of preventive activities. Methods: The frequency of psychoactive substances use was evaluated by a self-administered anonymous questionnaire that also asked the main reasons for that use. Four hundred and four students in the first to sixth year from the two biggest medical schools in Salvador answered the questionnaire. Results: The lifetime use was bigger for alcohol (92.8%) and inhalant (46.2%). Alcohol use was constant for the students from first to sixth year of course, but it was not statistically significant (p > 0.05). However, tobacco, inhalants and tranquilizers use had a significant increase at the last two years of course students (p < 0.05). It was verified a bigger drugs use by the male gender. “Fun” was shown as the first main reason for psychoactive substances (58.7% of the valid answers). Conclusion: Psychoactive substances consume rates by medical students from Salvador are as high as the ones shown on other scientific researches about this subject.Lemos, K.M. et al. / Rev. Psiq. Clín. 34 (3); 118-124, 2007Keywords: Medical students, psychoactive substances, drugs.

 


Introdução

 

Não existe sociedade sem drogas. Ao longo de sua história, a humanidade sempre recorreu ao uso de substâncias psicoativas para os mais diferentes fins (Nery Filho, 2002). Entretanto, o seu abuso tem sido alvo de preocupação da sociedade, em virtude do aumento de seu consumo nas últimas décadas. Esse problema está correlacionado ao crescimento da criminalidade, a acidentes automotivos, a comportamentos anti-sociais e à evasão escolar (Laranjeiras, 2003). O consumo de álcool, tabaco e outras drogas está presente em todos os países do mundo (NIAAA, 1998; WHO, 1999). O uso de drogas ilícitas atinge cerca de 5,0% da população mundial entre 15 e 64 anos (aproximadamente 200 milhões de pessoas). A maconha é a mais consumida (162 milhões de pessoas), seguida pelas anfetaminas (25 milhões), os opiáceos (16 milhões, sendo 11 milhões usuários de heroína), a cocaína (13 milhões) e o ecstasy (10 milhões). (UNODCCP, 2006; McGinnis et al., 1993; WHO, 2000).Diversos estudos epidemiológicos têm sido realizados no Brasil nos últimos 25 anos, com o intuito de verificar a prevalência de uso de drogas entre a população universitária. A maioria deles concorda que o uso de álcool e outras substâncias é maior entre universitários de diversas instituições quando comparado à população geral e a estudantes do Ensino médio (Stempliuk et al., 2005). Em relação aos estudantes de Medicina, observa-se um crescente interesse de estudos nacionais e internacionais sobre o tema nos últimos anos (Mesquita e Laranjeira, 1997). Os dados apontam que tais graduan­dos, apesar do seu dedutível conhecimento sobre os efeitos do álcool e outras drogas, consomem-nas em proporções semelhantes às dos jovens de mesma idade na população geral (Magalhães et al., 1991; Plotnik et al., 1986). Apesar disso, esses estudantes desenvolvem a convicção de que são capazes de controlar os problemas que eventualmente possam surgir do seu uso indevido (Mesquita et al., 1995). Desse modo, os futuros médicos não se encontram imunes ao problema do abuso e dependência de drogas, merecendo atenção diferenciada, já que serão modelos de saúde para a comunidade (Schwartz et al., 1990).Há, por parte do médico, a responsabilidade de diagnosticar e tratar seus pacientes, tarefa esta que pode ser prejudicada pelo efeito indesejado de tais substâncias (Mesquita e Laranjeira, 1997). A dependência química entre médicos altera o raciocínio, o humor e o comportamento, modificando sua aptidão para administrar medicamentos, tomar decisões e executar procedimentos especializados, colocando em risco a vida de pacientes sob seus cuidados. Alguns fatores de risco contribuem para estimular o abuso dessas substâncias, tais como vida estressante, más condições de trabalho, acesso fácil a substâncias psicoativas e autoprescrição (Bou-Habib et al., 1998).A literatura demonstra que a maior parte dos estudantes de Medicina consome substâncias psicoativas esporadicamente, com exceção do álcool e do tabaco cujo uso é mais rotineiro (Andrade et al., 1997). Todavia, o abuso de drogas é geralmente precedido por um uso insignificante ou mínimo (Akvardar et al., 2003). O álcool sobressai como a substância psicoativa de maior prevalência, e, por conseguinte, muitos estudantes são classificados como sérios candidatos a alcoolistas (Borini et al., 1994a).

Diversas pesquisas apontam para um consumo de drogas crescente no decorrer do curso médico, com o pico do consumo nos dois últimos anos. As atividades práticas iniciadas no 5o ano do curso são vivenciadas como geradoras de ansiedade (Mesquita et al., 1995). Este período é considerado de grande dificuldade, obrigando o estudante a dedicar-se quase que exclusivamente à Medicina, além da expectativa de se tornar médico com todos os seus deveres e responsabilidades (Andrade et al., 1995; Arruda et al., 1994; Millan et al., 1991).

A eficácia de programas de prevenção de drogas depende do conhecimento prévio das condições do ambiente, das características sociodemográficas da população-alvo e do seu padrão de consumo, porque são essas informações que irão definir o tipo de intervenção que deve ser realizada (Andrade et al., 1995). Com o objetivo de analisar o padrão local de uso de substâncias psicoativas na população acadêmica de Medicina e contribuir para a formulação de atividades de prevenção, realizou-se um levantamento de dados acerca do perfil de consumo de drogas em duas Faculdades de Medicina de Salvador (BA).

 


Materiais e métodos

 

Realizou-se um estudo epidemiológico de corte transversal, em uma amostra aleatória de estudantes de Medicina das escolas médicas de Salvador (BA). O tamanho da amostra foi calculado considerando-se um total de 2.160 alunos, com nível de confiança de 95%, precisão absoluta de 5,0%, proporção esperada para os eventos estudados de 50%, resultando num tamanho amostral de 345. Decidiu-se estudar 432 estudantes (20% do total), para compensar as possíveis perdas e recusas (Matthews et al, 1988; Paes, 1998; Lwanga e Lemeshow, 1991; Armitage et al., 1994).
Para a coleta de dados, utilizou-se um questionário padronizado, de auto-preenchimento, respondido pelos próprios estudantes, não sendo necessário que eles se identificassem. O questionário era composto por nove questões objetivas, baseadas no modelo proposto pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para estudantes (Smart et al., 1980), já tendo sido utilizado em outros trabalhos sobre o tema (Andrade et al., 1995; Mesquita et al., 1995). O questionário incluía perguntas relativas ao perfil da população (idade, gênero, escola e ano de curso), sobre uso na vida, nos últimos 12 meses e nos últimos 30 dias, bem como idade da primeira vez de uso das seguintes substâncias: álcool, tabaco, maconha, lança-perfume, cocaína e tranqüilizantes. Questionava, também, as razões pelas quais o estudante buscou o uso de tais substâncias.
O questionário foi aplicado por membros da Academética (Athanazio et al., 2004) devidamente treinados, entre os meses de março e abril de 2005, nas salas de aula de duas escolas médicas (EM) de Salvador (BA), sendo uma privada e outra pública. Os alunos do 5o e 6o anos foram abordados pelos pesquisadores durante suas atividades do internato nos diversos campos de prática, de forma consecutiva, até completar a amostra desejada.
Cada pesquisando recebia e assinava um consentimento livre e esclarecido antes de responder ao questionário. Garantia-se a manutenção do anonimato, pois o questionário era colocado em um envelope individual não identificado, separadamente do termo de consentimento. O projeto foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Fundação Bahiana para Desenvolvimento das Ciências (Parecer no 56 do CEP-FBDC).
Os dados foram analisados por meio do aplicativo SPSS (Statistical Package for the Social Sciences – Inc. Chicago, Illinois), versão 9.0 para Windows, utilizando-se o Teste do Qui-quadrado, com nível de significância de 5%.

 


Resultados

 

Foram analisados 404 questionários. O gênero masculino responde por 52% (n = 210) dos entrevistados e a média geral de idade encontrada foi de aproximadamente 22 anos (Tabela 1).O estudo revelou que as drogas psicoativas mais utilizadas no critério uso na vida foram álcool (92,8%; n = 375) e lança-perfume (46,2%; n = 186). O mesmo pa­drão em freqüência de uso se repete para o critério últimos 12 meses. Entretanto, isto não foi observado quando se analisaram os dados para os últimos 30 dias, em que o álcool foi seguido por tabaco e lança-perfume. A menor média de idade para experimentação foi verificada quanto ao consumo de álcool, de aproximadamente 15 anos (Tabela 2).Não houve aumento na prevalência do uso de drogas durantes os seis anos pesquisados para os critérios últimos 30 dias e últimos 12 meses. Para o critério ao menos uma vez na vida, o uso de álcool apresentou-se constante nos seis anos de curso, não sendo significante estatisticamente (p = 0,40). Já o uso de tabaco, lança-perfume e tranqüilizantes sofreu aumento significante (p < 0,01) do primeiro para o sexto ano (Figura 1). 

Os dados revelam que há um maior consumo de drogas por parte dos alunos da EM privada quando comparados aos da pública, contudo apenas álcool e lança-perfume foram estatisticamente significantes. Na EM privada, 94,5% (n = 208) dos estudantes pesquisados haviam experimentado álcool ao menos uma vez na vida, enquanto na pública esse valor foi de 90,8% (n = 167), p = 0,008. Para o lança-perfume, verificou-se 50,7% (n = 111) dos alunos da EM privada contra 40,8% (n = 75) da pública, p = 0,047.

Constatou-se que há maior consumo de drogas pelos indivíduos do gênero masculino. Apenas tranqüilizantes e cocaína não apresentaram resultados estatisticamente significantes. Para a maconha, foram encontrados valores de 27,1% (n = 57) de uso pelo sexo masculino e 12,2% (n = 23) pelo feminino, p < 0,01 (Tabela 3).

 

A diversão foi apontada como a razão mais importante para o uso de substâncias psicoativas, com 58,7% (n = 237) das respostas válidas para essa pergunta. Como segunda principal razão, 39,1% (n = 158) responderam para relaxar. Para a terceira razão em ordem de importância, o motivo mais citado foi estresse, opção de 28,7% (n = 116) da população estudada.

A maioria dos entrevistados (70%; n = 283) considera que o modo de vida do estudante de Medicina favorece o uso de substâncias psicoativas.

 


Discussão

 

A prevalência de usuários de substâncias psicoativas entre os alunos das EM de Salvador, nos três períodos de tempo analisados, são concordantes com os resultados obtidos por Mesquita e Laranjeira (1997) numa revisão de dados nacionais e internacionais. Nesse estudo, os autores apontaram como principais drogas utilizadas por estudantes brasileiros o álcool (com índices variando de 82% a 89% de uso durante a vida), seguido do tabaco (39% dos estudantes, em todas as amostras analisadas), solventes (23% a 31%) e maconha (19% a 26%). Esses dados confirmam a nossa hipótese inicial de que os índices nas universidades baianas seriam semelhantes aos encontrados em outros estados brasileiros. Por se tratar de um estudo de corte transversal, não podemos afirmar que o aumento na prevalência de usuários ocorre no decorrer da graduação, apesar de ser observado maior percentual de usuários no período algum momento da vida para tabaco, lança-perfume e tranqüilizantes nos últimos anos do curso. Para isso, é necessária a realização de um estudo prospectivo sobre o tema.Quanto à situação internacional, um estudo realizado em 23 escolas médicas nos Estados Unidos verificou prevalências de uso na vida de 98% para o álcool, 66% de maconha, 55% de tabaco, 32% de cocaína, 22% de anfetaminas e 19% de tranqüilizantes, apontando para um quadro bem diferente em relação aos dados nacionais (Baldwin et al., 1991). Na Índia, verificou-se prevalência de uso na vida de 79%, com as drogas mais utilizadas sendo o álcool e os tranqüilizantes, seguidos por sedativos, estimulantes, tabaco e cannabis (Singh e Jindal, 1980). Já numa amostra de estudantes turcos, 54% afirmaram ser não-bebedores, e somente 4% admitiram uso de drogas ilícitas em algum momento na vida (Akvardar et al., 2003).Para todas as substâncias pesquisadas, com exceção do álcool, observa-se tendência ao uso esporádico, apresentando baixas taxas de uso para o período dos últimos 30 dias. Esses resultados são semelhantes aos relatados por Andrade et al. (1997) entre estudantes de Medicina do estado de São Paulo. O primeiro reafirma o uso recreacional de drogas por estudantes de Medicina que, com exceção do álcool, usam menos drogas que os demais estudantes universitários e atribui os seguintes fatores de risco para o uso dessa substância: sexo masculino, ter a percepção de que pacientes alcoolistas e usuários de drogas não melhoram e ter vínculo fraco ou ruim com esses pacientes.O presente estudo revelou que a idade média para o uso de álcool pela primeira vez foi de 14,8 anos. Em São Paulo, Mesquita et al. (1995) constataram que a faixa etária para a experimentação foi de 10 a 14 anos (44% da sua população). No entanto, Borini et al. (1994a) verificaram uma média de idade um pouco acima, 16,5 anos, e o gênero masculino inicia numa idade mais precoce, aos 15,9 anos. Nesse mesmo estudo, os autores observaram que uma minoria dos indivíduos iniciou o uso de bebida alcoólica depois de estar freqüentando o curso de Medicina (Borini et al., 1994a).

A idade média para a experimentação do tabaco em nosso meio foi de 16,5 anos. Mesquita et al. (1995) constataram que a faixa etária do primeiro uso era de 15 a 19 anos (correspondendo a 43% dos estudantes), no entanto uma grande parcela dos estudantes (33%) fumou pela primeira vez entre 10 e 14 anos. No Rio Grande do Sul, observou-se que a idade média (17,7 anos) era superior à encontrada nos demais estudos (Menezes et al., 2004). Nas faculdades baianas, a idade média dos estudantes ao experimentarem maconha foi de 17,9 anos e, em estudo similar em São Paulo, a faixa etária foi de 15 a 19 anos (Mesquita et al., 1995). Quanto aos tranqüilizantes, observamos um uso mais precoce no estudo atual (18,8 anos) em relação ao estudo feito por Mesquita et al. (1995), em que a maior parte dos graduandos experimentou essa droga com mais de 20 anos.

Para o álcool, observa-se, desde o 1o ano, um elevado percentual de usuários nos três períodos de tempo analisados, de forma que é possível sugerir que a maioria dos estudantes de Medicina já ingressa na faculdade tendo utilizado álcool ao menos uma vez na vida.
A freqüência de usuários dessa substância mantém-se aproximadamente constante ao longo dos seis anos da graduação. Newbury-Birch et al. (2000) verificaram relação entre o consumo de álcool por estudantes e comportamentos de risco, como se envolver em brigas ou sexo inseguro.

O uso de lança-perfume para os períodos pesquisados de uso na vida (46,2%) e últimos 12 meses (28,5%) é considerado alto. Um estudo qualitativo realizado por Mesquita et al. (1995) apontou que o uso dessa substância é aceito pelos alunos, sendo atribuídas a essa prática características inofensivas associadas ao lazer, especialmente em competições esportivas, festas e carnaval. Os mesmos autores, em 1997, constataram como fatores de risco associados ao uso desse inalante sexo masculino e história de uso recente de maconha e álcool.

Dados de um estudo multicêntrico sobre tabagismo entre estudantes de Medicina, envolvendo mais de
9 mil estudantes, oriundos de 51 escolas médicas de 42 países, mostram que as prevalências variam nos diferentes países, de 0 a 56,9% para os homens e de 0 a 44,7% para as mulheres (Richmond, 1999). Menezes et al. (2004) verificaram, assim como no presente estudo, maior prevalência de tabagismo conforme o ano cursado, o que parece revelar a pouca influência da faculdade no comportamento dos alunos quanto ao vício de fumar. Entretanto, observamos que um pequeno percentual (5,7%) referiu ter utilizado tabaco no período dos últimos 30 dias, o que indica baixo uso corriqueiro da substância.

Num estudo com 263 estudantes de Medicina americanos, Schwartz et al. (1990) revelaram que 43% dos entrevistados disseram já ter fumado maconha ao menos uma vez na vida e 14% disseram fumar ao menos uma vez por semana. Esse estudo demonstrou que 30% dos estudantes eram favoráveis à legalização da droga para uso pessoal, enquanto 51% eram contrários e 19%, indecisos. Esses dados diferem bastante dos aqui apresentados, em que 20,5% dos alunos disseram ter utilizado maconha ao menos uma vez na vida, enquanto apenas 2,2% a utilizaram nos últimos 30 dias. Schwartz et al. (1990) apontam que futuros médicos têm chance de 15% a 20% maior de experimentar cocaína durante a vida, atribuindo o uso freqüente ao precoce uso regular de cigarros, dependência de nicotina e uso freqüente de álcool e maconha. Na nossa amostra, apenas 2% afirmaram ter utilizado cocaína em algum momento da vida, enquanto zero a utilizou nos últimos 30 dias.

Apesar de os alunos terem perfis aparentemente diferentes, o consumo de substâncias psicoativas entre as instituições pública e privada não variou de maneira significativa. Observa-se apenas uma discreta tendência ao maior uso de álcool e de lança-perfume entre os estudantes da EM privada.

Observou-se que há um consumo estatisticamente significante maior de tabaco, maconha e lança-perfume pelo gênero masculino, dados encontrados também em outros estudos (Mesquita et al., 1995; Zhu et al., 2004). Em contraste com esses resultados, Menezes et al. (2004), em períodos diferentes (1986, 1991 e 1996), não observaram diferença na prevalência de tabagismo de acordo com o gênero.
Muitos trabalhos apontam para um maior consumo de álcool pelos homens, apesar de nem sempre haver uma diferença significante (Menezes e Calabuch, 1990; Borini et al., 1994 a). Em nosso estudo, observamos maior consumo de álcool pelos homens e maior uso de tranqüilizantes pelas mulheres. Andrade et al. (1997) concluíram que à medida que o gênero masculino predispõe-se ao uso de álcool, solventes, maconha e cocaína, o gênero feminino está mais predisposto ao uso de tranqüilizantes.

Diversos autores apontam que as características peculiares do curso de Medicina podem estar contribuindo para o incremento do uso de substâncias psicoativas pelos estudantes. Tais características incluem carga horária elevada, responsabilidade quanto à cura do paciente, questões éticas, a morte de pacientes que estavam sendo acompanhados pelo aluno e o próprio acesso facilitado a certas drogas restritas aos profissionais de saúde (Andrade et al., 1995; Arruda et al., 1994; Millan et al., 1991). Todos esses fatores são considerados ansiogênicos e podem gerar angústia, intranqüilidade e até depressão, permitindo que o jovem estudante busque o caminho das drogas, de acordo com o perfil psicológico e emocional de cada um. O fato de usar drogas não está relacionado apenas com a informação ou ao acesso a estas, mas também com o estilo de vida e as atitudes desses alunos perante o uso dessas substâncias (Andrade et al., 1997).

Estudos anteriores já comprovaram a alta prevalência de estresse, ansiedade e depressão em estudantes de Medicina (Matos et al., 2005; Moro et al., 2005). Os próprios estudantes, neste e em outros estudos, acreditam que o estresse do curso médico é um fator importante para o uso de drogas, em particular o estresse relacionado à competitividade, à carga horária intensa de trabalho, à passagem abrupta das atividades teóricas para a prática e ao exame de residência médica (Mesquita et al., 1995). Os residentes apontam ainda dois outros fatores de estresse, que são o medo de cometer erro médico e a falta de tempo para dedicar-se à família e aos amigos (Martins, 1994). No entanto, diversos autores que tentaram correlacionar níveis de estresse e ansiedade dos estudantes com o uso de substâncias psicoativas não encontraram significância estatística nessa relação (Newbury-Birch et al., 2000; Ashton et al., 1995; Webb et al., 1996).

Demonstramos que a principal razão considerada para os estudantes de Medicina utilizarem substâncias psicoativas foi o prazer, e não o estresse do curso, também evidenciado em outros estudos (Akvardar et al., 2003). O uso de álcool e outras substâncias faz parte da cultura dos jovens atualmente e os estudantes de Medicina não são exceções. No entanto, o uso de substâncias psicoativas entre estudantes de Medicina é particularmente importante em virtude de três razões (Flaherty et al., 1993). Primeiro, porque os estudantes, assim como os médicos, irão tratar de pacientes com problemas relativos ao uso dessas substâncias e suas atitudes em relação a essa prática podem influenciar o seu comportamento profissional. Segundo, porque o consumo dessas substâncias pode influenciar negativamente o desempenho acadêmico do estudante, como se demonstrou que os acadêmicos que não usavam álcool dedicavam mais tempo para estudos extracurriculares (Borini et al., 1994b). Terceiro, porque medidas preventivas instituídas durante a graduação podem contribuir para diminuir a prevalência de problemas como estes entre os médicos.

É consenso por parte dos alunos que o tema é pouco valorizado no currículo de graduação, necessitando de maior aporte assistencial por parte das faculdades (Menezes et al., 2004). Nesse sentido, verifica-se que o curso de Medicina não auxilia na desmistificação do uso de drogas. Diante desse quadro, alguns autores sugerem que as escolas médicas brasileiras, a exemplo do que já faz a Escola Paulista de Medicina (EPM), deveriam incluir em sua grade curricular disciplinas optativas que orientassem e esclarecessem os estudantes sobre o perigo da dependência química (Correia, 2000).

O uso de substâncias psicoativas entre estudantes de Medicina é um fenômeno que não está relacionado apenas a fatores sociais, mas também ao próprio sistema educacional, que não oferece mecanismos de proteção contra esse comportamento (Mesquita et al., 1995). Considerando-se esse aspecto, tem sido apontada a necessidade de criação de centros de atenção nessas instituições, para o atendimento de acadêmicos que necessitem de acompanhamento psicopedagógico e mesmo para a elaboração de estratégias de prevenção ao abuso de drogas, sejam estas lícitas, sejam ilícitas (Borini et al., 1994b; Carlini et al., 1990).

Mesquita et al. (1995) definiram algumas medidas a serem tomadas a fim de diminuir o uso indevido de substâncias psicoativas nessa população. Destacamos as seguintes: aumentar o número de aulas que abordem esse tema; possibilitar a discussão do uso indevido de drogas não apenas do ponto de vista médico, mas também social e psicológico, dando ênfase a uma abordagem multidisciplinar; criar mecanismos institucionais que possam atenuar o estresse vivenciado pelos estudantes; e conscientizar os corpos discente e docente quanto a essa situação em nosso meio.

Os resultados do presente estudo devem ser considerados no contexto de algumas limitações. Não houve sorteio aleatório para a seleção da amostra dos estudantes do 5o e do 6o ano em virtude da dispersão destes, durante o internato, em diversas instituições e pela dificuldade de conseguir localizá-los. Tais estudantes foram selecionados de forma consecutiva pelos pesquisadores que visitavam os campos de prática até completar a amostra desejada. Esta forma de selecionar os participantes, apesar de ter sido a melhor opção encontrada para viabilizar a coleta desses dados, pode ter gerado um viés de seleção na nossa amostra, de forma a comprometer a generalização desses resultados para toda a população estudada. No entanto, este trabalho reveste-se de grande importância pelo fato de ser um dos primeiros a abordar esse tema em uma capital do Nordeste do Brasil. A maioria dos estudos prévios foi realizada nas regiões Sul e Sudeste, que seguramente têm um perfil populacional diferente do nosso, dificultando a extrapolação dos achados nesses trabalhos para a realidade local. A investigação sobre o uso de substâncias psicoativas na população em geral e em subgrupos populacionais, em que tal consumo possa causar maiores danos, como em estudantes de Medicina, deve ser incentivada em diferentes comunidades. A diversidade desses estudos ajudará na tentativa de identificar possíveis fatores regionais influenciadores dessa conduta e contribuirá para a construção de um perfil nacional do uso de drogas no Brasil.

 


Conclusão

 

O consumo de substâncias psicoativas tem produzido problemas sociais e de saúde em todo o mundo, sobretudo pela sua crescente prevalência. Os resultados deste estudo sobre o uso entre estudantes de Medicina seguem na mesma direção e servem de alerta, chamando a atenção da comunidade médica e docente sobre o assunto. A expectativa da sociedade é que cuidadores da saúde, conhecedores dos efeitos nocivos dessas substâncias, não as utilizassem ou as consumissem em menor quantidade quando comparados aos demais grupos sociais. Entretanto, isto não é comprovado neste e em muitos outros trabalhos, o que torna o fato ainda mais grave.Os resultados desta pesquisa reafirmam o uso esporádico e recreacional de drogas pelos estudantes de Medicina, exceto do álcool que é utilizado de forma regular por grande parte dos alunos. As evidências apontam para a necessidade de as escolas formalizarem serviços de apoio psicológico aos graduandos, principalmente quando se observa dependência química. Apesar de muitas escolas já desenvolverem esse tipo de ajuda, seu resultado ainda parece precário. Sugere-se que outros trabalhos sejam empreendidos, para ampliar o arsenal de elementos na tentativa de construir soluções que possibilitem a transformação da realidade atual.

 


Agradecimentos

 

Ao Cremeb e aos membros da Academética que colaboraram na coleta de dados.

 


Referências

 

1. Akvardar, Y. et al. Substance use in a sample of Turkish medical students. Drug Alcohol Depend 72(2):117-21, 2003.
2. Andrade, A.G. et al. Prevalência do uso de drogas entre alunos da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (1991-1993). Rev ABP-APAL 17:41-46, 1995.
3. Andrade, A.G. et al. Fatores de risco associados ao uso de álcool e drogas na vida, entre estudantes de Medicina do Estado de São Paulo. Rev ABP-APAL 19:117-126, 1997.
4. Armitage, P.; Berry, G. Statistical iference. In: Statistical methods in medical research. 3rd ed. Blackwell, Oxford, pp.98-99, 1994.
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O alerta da morte de Rabicó

Posted in Coração by adilson borges on 8 de maio de 2009

José Carvalho da Cunha Júnior, brasileiro. Clement Pinault, francês . O que têm em comum? Eram atletas, jogadores, e morreram precocemente de infarto. Conhecido como Rabicó, José Carvalho, de 39 anos, chegou a jogar na Seleção Brasileira de futsal.  Morreu na sexta-feira, 1º de maio,  depois do final da partida entre Assaf e ACBF, no Ginásio Poliesportivo Municipal de Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, válida pelo Campeonato Gaúcho da primeira divisão.

 O defensor francês Clément Pinault, do Clermont, 23 anos, morreu em janeiro deste ano, quatro dias após sofrer um ataque cardíaco em sua casa. Pinault havia jogado pelo clube da segunda divisão francesa dias antes, na vitória por 2 a 0 pelo Brest.

A lista de casos como estes é enorme e preocupante. Se isto acontece com jogadores profissionais, que teoricamente estão sempre sob supervisão médica, imagine com os jogadores amadores.

 Ninguém deve perder o gosto pelo “baba”, como a gente chama  aqui na Bahia a saudável  pelada de fim de semana, mas é importante ficar atento. De acordo com uma pesquisa realizada na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), os homens que jogam apenas uma vez por semana e não fazem nenhum outro exercício físico correm sérios riscos de desenvolver problemas cardíacos. Esta informação consta de reportagem de Luciana Sobral, do Diário de S. Paulo, que republicamos aqui.

Ainda nesta edição do Coisas do Coração, publicamos entrevista concedida pelo doutor Mario Cerci ao site do Hospital do Coração, sobre a importância do tratamento preventivo.  “As vezes as pessoas falam que “fulano se cuidava bem e morreu de infarto”, eu quero dizer o seguinte: isso pode ocorrer, mas é exceção e a grande maioria das pessoas que se cuidam vivem mais e melhor” adverte  o profissional.

Jogo esporádico de futebol aumenta risco

Posted in Coração by adilson borges on 8 de maio de 2009

LUCIANA SOBRAL, DO DIÁRIO DE S.PAULO

Os jogadores esporádicos de futebol society, principalmente aqueles que já passaram dos 40 anos, têm agora mais um motivo para se preocupar, além de vencer a partida. De acordo com uma pesquisa realizada na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), os homens que jogam apenas uma vez por semana e não fazem nenhum outro exercício físico correm sérios riscos de desenvolver problemas cardíacos.
O estudo, apresentado pelo professor de educação física Roberto Constantino Carneiro, envolveu 32 homens, com idade média de 41 anos, estando a maioria com sobrepeso. “A pesquisa mostrou que em vez de trazer benefício, o jogo acaba prejudicando a saúde desses homens pelo fato de eles serem sedentários, ou seja, de praticarem exercícios físicos menos de três vezes por semana”, conta o pesquisador. Segundo o professor, em São Paulo há 350 quadras para o esporte, com cerca de 1 milhão de participantes.
O trabalho demonstrou que 75% dos jogadores avaliados apresentaram grandes chances de sofrer um infarto, enquanto 12,5% tiveram risco moderado. “Para chegar a essas conclusões, avaliei primeiramente a aptidão física de cada paciente, ou seja, sua capacidade máxima para o jogo. Depois, comparei os resultados com o estresse cardíaco durante a partida, que medi com a ajuda de um aparelho”, explica Carneiro.
Segundo o professor, o batimento cardíaco dos jogadores durante a partida ultrapassou o limite do recomendado. “O ideal seria 153,5 batimentos por minuto (bpm). A média dos jogadores avaliados foi de 155,7 bpm, mas teve gente que chegou ao pico de 211”, conta. “O jogo de futebol é uma atividade que exige muito do organismo. Por isso, o corpo precisa estar condicionado para suportar essa exigência”, completa Carneiro.
O fisiologista Turíbio Leite de Barros, coordenador do Centro de Medicina da Atividade Física e do Esporte da Unifesp, explica que, para estar condicionado, o indivíduo precisa praticar exercícios no mínimo três vezes por semana, aumentando a intensidade aos poucos. “Para reduzir os riscos do infarto, basta o jogador esporádico incluir pelo menos duas caminhadas rápidas de 40 minutos por semana”, recomenda.
De acordo com o médico, a prática inadequada não aumenta apenas os riscos de ocorrência do infarto, mas também de lesões musculares e articulares. “Isso acontece muito com jogadores obesos. A obesidade também é fator de risco para as doenças cardíacas”, conclui Barros.
Atividade intensa e pouco freqüente é arriscada – A prática de futebol society esporádica não é a única atividade perigosa para os sedentários. Segundo os especialistas, qualquer exercício intenso, realizado apenas uma vez por semana ou a cada 15 dias, coloca a saúde de quem não tem condicionamento físico adequado em risco.
“O organismo do sedentário muitas vezes não consegue tolerar uma atividade que exige muito dele, como é um jogo de futebol, de basquete ou uma corrida longa”, explica o professor de educação física Roberto Carneiro. Segundo o especialista, o coração pode não estar preparado para agüentar o esforço do praticante durante o exercício. “Se ele for obeso, diabético ou já tiver problemas coronários, como hipertensão, essa capacidade é ainda menor”, completa.
O fisiologista Turíbio Leite de Barros garante que fazer caminhadas ou corridas aceleradas durante a semana pode tornar o jogo de futebol esporádico uma atividade benéfica para o corpo. “Em oito a dez semanas, o jogador já vai ter os benefícios, entre eles, menor risco de infarto, melhor condicionamento físico, nível de colesterol adequado e pressão arterial controlada”, afirma.
Até sofrer sua primeira crise de hipertensão, o corretor Ridney Zaidan, de 46 anos, fazia parte do grupo de sedentários que jogava futebol society apenas uma vez por semana, sem se preocupar muito com a saúde. “Esse era o meu único exercício e, para piorar, nunca abria mão do churrasquinho e da cerveja depois do jogo”, diz.
Há dois anos, quando teve os primeiros sintomas de pressão alta, como tontura e taquicardia, o corretor foi obrigado a incluir hábitos mais saudáveis na sua rotina. “Passei a caminhar e a correr duas vezes por semana, além de jogar futebol. Senti que meu condicionamento melhorou e me dei melhor durante as partidas”, lembra.

“A prática de exercício é sempre fundamental”

Posted in Coração by adilson borges on 8 de maio de 2009
 
Doenças cardiovasculares
O Dr. Mario Cerci revela que pessoas que tiveram problemas cardiovasculares reclamam muito das vidas que levavam antes do infarto.
   
  Dr. Mario Cerci, o senhor, como cardiologista, teria quais sintomas para chamar atenção sobre a possibilidade de estar iniciando um infarto nesse organismo?

Para ter um infarto no coração, o indivíduo habitualmente tem uma dor que costuma ser no peito, que pode se irradiar para os dois braços, principalmente para o braço esquerdo, pode se irradiar também para o pescoço. É uma dor de forte intensidade e costuma estar acompanhada de palidez, a pessoa transpira muito, tem sensação de mal-estar e algumas vezes até de náusea, de vômito. Esses são os principais sintomas que a pessoa deve imediatamente procurar um serviço que possa atendê-lo rapidamente.

O infarto tem uma correlação com hipertensão ou não?

Tem. Os fatores de risco mais comuns que provocam o infarto são: a hipertensão arterial, hoje 50 milhões de brasileiros são hipertensos, o hábito de fumar também predispõe, o colesterol que é a gordura de origem animal aumentada, a obesidade, a diabete e os indivíduos que são tensos e que não praticam exercícios. São os fatores de risco mais comuns que provocam infarto.

A correria do dia-a-dia, o stress, tudo isso, aumentou o número de incidência de infartos?

Tem aumentado sim. Aliás, as doenças que mais matam no mundo, tanto nos países de primeiro mundo, desenvolvidos ou subdesenvolvidos, são as doenças cardiovasculares. As duas primeiras são o infarto do coração e o derrame cerebral, que é também uma trombose, um entupimento de uma artéria no cérebro. O infarto é o entupimento da artéria coronária que é a artéria do coração. São as duas causas mais freqüentes de morte do mundo.

Por isso há a necessidade de alertar a população para que certos cuidados sejam tomados, principalmente no dia-a-dia, porque hábitos errados na alimentação, a médio ou longo prazo, muitas vezes trazem conseqüências irreversíveis para as pessoas?

Exatamente. Então, essas pessoas que são hipertensas, que costumam gostar de uma comida com um pouco mais de sal, ou acompanhadas habitualmente de peso excessivo, de fumar e outros, ainda que são diabéticos, essas pessoas têm que levar uma vida mais saudável. Procurando ter uma alimentação com baixa quantidade de gorduras, baixa quantidade de sal, praticar exercícios corretamente orientados por um médico, fazer uma avaliação inicial, além de tratar bem essa pressão, quando precisar tomar medicamentos, tratar muito bem a diabete, que são fatores que aumentam muito o risco da pessoa vir a ter o infarto.

A pessoa que já tem problema hereditário, pai, mãe, enfim, que já vem com problema cardiovascular, a probabilidade é muito maior, não é doutor?

Exatamente. Então, aí já e um fator de risco que não tem como mudar. Existem os fatores que são chamados imutáveis. Quanto mais velho, você tem mais chance de ter infarto. Os pacientes cujos pais tiveram infarto, devem ter mais cuidados que aquele que não tem nenhum desses fatores de risco. E mesmo que não tenha, ainda há a genética.

Nós tivemos dois casos de jogadores de futebol que faleceram em campo, possivelmente não-fumantes, com uma vida regrada e mesmo assim tiveram infarto, como o senhor explica isso?

Veja bem, é uma doença que tem uma gênese de muitas causas. Uma delas, por exemplo, é a diabete e o exemplo disso é o Washington que é um jogador daqui de Curitiba, que teve um infarto, que fez um stent, desobstruiu a coronária e está em perfeitas condições para poder jogar. Então, mesmo o indivíduo sendo diabético, embora muito cuidadoso, pode vir a ter infarto. Você pode se cuidar e vir a ter infarto, isso pode ocorrer. Mesmo se cuidando não significa que ele não vai ter um infarto. Agora, a chance é muito menor se você se cuidar.

E outra conseqüência da saúde, da pessoa que tem uma vida equilibrada, que cuida da alimentação, tudo balanceado, ela terá privilégio em ter uma vida mais longa e evitar não só o infarto, mas uma série de outras doenças, não é mesmo doutor?

Exato. Porque às vezes as pessoas falam que “fulano se cuidava bem e morreu de infarto”, eu quero dizer o seguinte: isso pode ocorrer, mas é exceção e a grande maioria das pessoas que se cuidam vivem mais e melhor. Às vezes, o que as pessoas não conseguem mudar é a ansiedade, o stress. Outras vezes ele cuida bem do colesterol, mas é muito tenso, trabalha muito. Às vezes, é muito ambicioso, quer ter um padrão de vida muito difícil de ser alcançado, tem uma personalidade típica de um indivíduo infartado.

A personalidade típica de um indivíduo infartado é perfeccionista, vive estressado, com projetos de vida muito difíceis de alcançar. Então, a pessoa tem que mudar isso? Exercício é fundamental. Ajuda a baixar a pressão, diminui o colesterol, diminui o peso, que já são três fatores importantes. Ajuda a diabete, diminui a resistência à insulina, além de diminuir a tensão e a depressão.

A gente percebe que pessoas que tiveram problemas cardiovasculares, que sofreram infarto, reclamam muito que deveriam ter uma vida um pouco menos estressante e hoje reclamam de não conseguirem arranjar um hobbie, talvez por serem pessoas já mais de idade.

Quem estabelece a prioridade é a própria pessoa. Se você tiver uma prioridade de só trabalhar, não vai ter tempo para fazer um hobbie qualquer. Eu digo assim, a prática de exercício é sempre fundamental. Tem pessoas que não gostam de jogar futebol, não gostam de nadar, mas podem gostar de dançar, que é, por exemplo, um hobbie interessante e um bom exercício. Podem gostar de andar a cavalo, que é outro exercício que a gente não cita e é excelente. Às vezes, tem outro que gosta de bicicleta, tem que encontrar um hobbie em que sinta-se satisfeito. Se não se sentir satisfeito, ele vai praticar durante pouco tempo e parar. O ideal é manter a regularidade, se possível todos os dias ou no mínimo quatro vezes por semana.

Qual a orientação para quem está vivendo a maturidade, Dr. Mário Cerci?

Todas as pessoas, com o passar da idade, vão tendo maior chance de ter um infarto. Com o passar dos anos, a chance ainda é maior. Então, essas pessoas têm que procurar um cardiologista periodicamente, dosar o colesterol, dosar a glicemia para ver se não é diabético, prática de exercício supervisionada, orientada por um cardiologista, previamente. Só depois começar a praticar exercício, redução de ansiedade, ter algum hobbie que o satisfaça, que é importantíssimo, e diminuir o máximo possível a ansiedade. Se seguir essas linhas, terá uma chance muito menor de vir a ter complicações cardiovasculares.

Resumindo, a prevenção é sempre importante?

É o mais importante, o mais barato e o mais eficaz

 

A sinfonia rubro-negra de Exu

Posted in Coração by adilson borges on 5 de maio de 2009

imgp19491exuParece que Exu folgou hoje (4 de abril 2009) e passou o dia folgando na Bahia. Sempre vestida de vermelho e preto, a entidade foi vista em todo lugar, bebendo cachaça ou vinho, fumando charuto ou cachimbo, pensando em jogo ou sexo, sempre com aquele ar zombeteiro – impiedoso com os adversários.

Se alguém deixou de receber cartas de amor ou de cobrança, bilhetes apressados, recados bonitos, e-mails ou telegramas tão esperados, pode cobrar de Exu, o mensageiro entre o mundo dos homens e dos orixás.

Um dia depois da vitória sobre o tricolor, trabalhar pra quê? Sou de ferro, não, moço, disse o rubro-negro, com voz miúda, e forte suspeita de falência nos pulmões, na fila do Raios-X. Perto da mesma clínica de diagnóstico por imagem, na Pituba, o orixá tomava conta de carro. Era o mesmo menino, o olho inquieto denunciava, mas já estava velho (“seu velho”, ironizou baixinho ao dizer a idade, 68 anos).

O disfarce mais perfeito só descobri agora quando estava escrevendo estas pretinhas. O corretor sublinha de vermelho quando escrevo coisas que ele considera estranhas, como a palavra Pituba. Eu sei que o sistema Windows é culturalmente analfabeto, mas você, logo você tão versado em línguas, não me engana, não, Exu. Você tá botando a cara do Vitória no texto, provocando um fenômeno que os lingüistas empolados chamam de verbicovisual.

Me tira de problema, rapaz, já basta o esporro que posso levar da comunidade do candomblé: Como é que um nego deste se atreve a usar uma entidades nossa para coisas tão terrenas como campeonato baiano. Vê se alguém faz isso com os santos católicos? 

Perdoem-me mãezinhas e irmãozinhos, se insisto neste tema, mas não acho que o Exu seja Vitória. Nem Bahia. Nem Colo Colo. Mas a cor do campeão baiano de 2009 se oferece para a curtição, a seiva que alimenta o orixá. Aí, ele aproveita para debochar dos velhos, dos meninos, dos homens e das mulheres…

 

Ela é orixá, orixá é ela

 

Por falar em mulher, ficou com uma delas, aliás, o segundo lugar da camuflagem do zombador, depois da letra vermelha borrando as Times New Roman. Ela trabalha (ou só apareceu hoje) em um laboratório onde fui, em jejum de 12 horas, levar um pouco do meu sangue para uma avaliação do tal do colesterol.

– Como está você, Adilson? – Perguntou olhando para dentro de mim mais fundo do que a agulhada que deu em seguida na veia do braço direito. – Acho que você está ótimo – ajuntou antes que eu pudesse responder – para quem fez cirurgia do coração há pouco mais de um mês, é claro.

Já estive naquela clinica, sim, não esqueço, foi exatamente no sábado, 4 de abril, quando soube da morte de Jônatas Conceição, meu amigo, militante negro, poeta e intelectual. Não me lembro, no entanto, de ter visto aquela moça, muito menos de ter falado sobre minha saúde. Tudo bem, posso ter abordado casualmente o tema, quem sabe ela até colocou tudo no prontuário do laboratório, junto com meu telefone, meu cadastro.

Mas por que razão ela, tão nova, não me trata como “Seu” Adilson, como tem ocorrido repentinamente com tanta gente após a cirurgia, sobretudo agora que estou usando esta barba toda branca, que não posso cortar devido a uma incômoda alergia?

A resposta demorou um pouco, mas caiu do colo da moça, quando ela se debruçou para extrair o rubro escuro das minhas veias. A medalhinha do Vitória despegou-se do peito farto, esfregando a verdade em meu nariz. Ela era Exu. Exu é Ela. Elexu.

A certeza de que Exu aparece aonde não se espera e foge de onde se espera alcançá-lo tive mais tarde, ao resolver comemorar o resultado de consulta com o doutor Marco André Sales, especialista em ecocardiograma. O doutor maratonista me deu ótima noticia: minha pericardite (líquido no coração, subproduto de cirurgia de safena e mamária que afeta provincianos como eu e o radialista Mário Kertész, mas também famosos mundiais como o ex-presidente dos EUA Bill Clinton, o bon vivant ) está por um fio.

 

Bebendo o Bahia

 

Peguei Marília, aliás esta me pegou já que ainda não posso dirigir, e fomos almoçar na Casa do Comércio. Ao chegar, percebi movimentação estranha na área reservada do restaurante. Não liguei, porque tinha uma única preocupação, pedir duas taças de vinho, uma para cada, antes que minha santa mulher o proibisse, como revelou mais tarde que pensou em fazê-lo, ou quem sabe negociasse uma taça para os dois, já que eu bebera duas ou três no meu primeiro fim de semana com liberação médica.  “Sem exagero, Adilson”, dissera uns 15 dias antes o cardiologista Eduardo Novaes e repetira mais recentemente a doutora Cristiane Pereira, especialista em alergia.

Após abater na área a resistência de Marília, tinto seco e água mineral na mesa, relaxei e olhei para o outro lado, literalmente no sentido do Barradão. Na arquibancada, vejo então toda a diretoria do Vitória, bebendo o campeonato, que engoli em seco no domingo pela televisão.

 

Parêntese e pedido de perdão

 

(Assisti deitado na cama, violão nos dedos, tocando o hino tricolor, sem parar desde que o Bahêêêa fez o primeiro gol debaixo daquela chuva infinita. Sabia que se parasse, o feitiço perdia o efeito. Quando o Bahêêêa fez o segundo, tive certeza que estava no caminho certo. Liguei para Chico, meu filho de 11 anos, e dei a boa noticia. Meu fanático tricolorzinho estava no cinema, com a irmã da idade de Cristo, Cristiana, e a sobrinha (minha neta) Gabriele, da mesma idade dele. Chico queria ir ao Barradão, como não pôde decidiu assistir a Monstro versus Alienígenas. Foi a saída que encontrou para poupar o coraçãozinho… No intervalo, cometi um erro e, por isso peço perdão, Chico: parei de tocar o hino e aí houve o que houve.)

 

 

BA-VI na Casa do Comércio

 

 

Jorginho Sampaio e a galera rubro negra beberam vinho vermelho (faltou aquele pão preto), tomaram cerveja, discursaram, até com direito a aparte de alguns oradores de ocasião. Entre os convidados, vereadores como Silvoney Sales. A libação foi esquentando e houve aqui e ali um grito de guerra “Nego, Nego”. Os garçons mais experientes da casa estavam a postos. Colados na porta e paredes laterais da Casa do Comércio esperavam, pacientes, e respondiam solícitos ao serem acionados pelos vencedores. Mas que tinha um garçom com uma cara retada de Bahia, isso lá tinha. Depois eu pergunto a ele, em particular…

A garçonete (estagiária) estava convocada para a posição errada naquele jogo. Queria estar lá servindo a turma vermelho-e-preto. Mas não teve esta sorte. A Vitória, “de coração doente”, contentou-se em servir ao casal tricolor, cujo macho (Bahia relapso, que pouco acompanha de futebol, mas Bahia) recupera-se de doença do coração. Será por isso que ela me trouxe a conta antes dos cafezinhos?  Não. Deve ser paranóia…

 

 

Afastaram o cálice de mim! 

 

Após os discursos, bebidas preliminares, saladas e pães à guisa de entradas, o plantel vermelho-e-preto (de coração diga-se, porque não havia nenhum usando as cores do time) resolveu cair no principal. E tome-lhe comida nas barrigas estufadas dos gabinetes.

Mas Exu, que não vai aonde o esperam e que não gosta de obviedade nem cartola, não estava lá. Estava nas ruas, nas praças, nos becos, fazendo festa e gozação com o Bahia, que quase botou a mão no cálice do Santo Graal. Estava no olho preto da pancadaria que rolou após o jogo sob o dilúvio.  Estava no olho vermelho da alegria e da tristeza no Barradão.  Estava no seio discreto da moça de medalhinha vermelha e preta no laboratório do Imbuí, no boné roto do velho na Pituba, no pulmão frágil sanguinolento do rapaz à espera da chapa do Raios-X.

Chico vai me matar, mas tenho que dizer:

Parabéns, Vitoria!

A doença da mãe do PAC

Posted in Coração by adilson borges on 28 de abril de 2009

1200rp3633Foi checar o coração e descobriu o linfoma, um câncer de 2,5 centímetros, que foi extirpado com êxito. A próxima etapa é fazer a quimioterapia para evitar surpresas no tratamento.

A história terminaria aí se a personagem não fosse a poderosa ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, candidata a presidente (ou presidenta, escolham) da República em 2010. A Mãe do PAC (o Programa de Aceleração do Crescimento) e tia do Programa Minha Casa Minha Vida, que promete 1 milhão de moradias para os brasileiros de baixa renda, fez uma avaliação política e agiu rápido sábado passado.

Expôs em minúcia seu estado de saúde, em uma entrevista coletiva à imprensa, ao lado da equipe de médicos que estão tratando do caso no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Segundo os especialistas, as chances de cura chegam a 94%.

Foi a medida mais acertada tanto do ponto de vista do tratamento quando da perspectiva política. Seria impossível ocultar a doença até porque periodicamente a ministra terá que ir a São Paulo para a quimioterapia, que deve durar, pelo menos, uns quatro meses. Se não houvesse o anúncio, em pouco tempo começariam as especulações, que logo atrapalhariam a saúde da ministra, a sua campanha política e os planos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que apostou todas as fichas na candidatura de Dilma Rousseff.

Anunciado o linfoma, transferiu-se o problema político para a oposição, que inclusive vai ter que usar luvas finas ao tratar da questão perante povo brasileiro, muito sensível a questões como esta. Hoje (27 abril), o comentarista político Alexandre Garcia, da rede Globo, começou o dia dizendo que, mais importante do que tudo, é a questão humanitária da saúde da ministra. Em linhas gerais, o mesmo discurso foi adotado sem seguida pela apresentadora Ana Maria Braga, também da Globo, que se curou de um câncer há alguns anos em condições menos favoráveis do que a ministra-chefe da Casa Civil.

Ponto para Dilma Rousseff e equipe médica. E (por que não?) para a equipe da sua campanha de olho na cadeira mais confortável do Palácio do Planalto.

 

 

Botando pressão

Posted in Coração by adilson borges on 24 de abril de 2009

Hoje (23. abril) é dia da pressão arterial. Mais do que uma data comemorativa, é oportunidade para checar como estamos. A pressão alta, quando não é tratada, causa lesões nos vas0s que podem levar ao derrame cerebral (AVC) ou ao infarto.

 ” A pressão alta produz lesões nos vasos difusamente por todo o organismo causando problemas no cérebro, coração, rins, visão etc”, alerta o cardiologista Juarez Magalhães Brito

O peso de uma jamantinha

Posted in Coração by adilson borges on 13 de abril de 2009

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Quando se está vivo, a  jamanta vira uma dorzinha passageira

Quando se está vivo, a jamanta vira uma dorzinha passageira

 

–Quer saber a verdade? Acho que estou vivendo o momento mais feliz da minha vida! 

 Minha amiga, dessas a que se pode falar tudo, ficou, é claro, espantada. Mas calou-se respeitosamente  ao ouvir de mim esta frase em 27 de março, um dia depois de eu ter saído do hospital, onde fiquei 11 dias – após cair na faca em uma cirurgia que estabeleceu duas pontes de safena e uma mamária no meu assanhado peito, de 56 anos.

Como podia ser feliz alguém que não passava um dia sem chorar, com dores 24 horas? O ex-presidente João Baptista  Figueiredo (1979 /1985), por exemplo, criou um trauma ao dizer em relação aos seus sentimentos nos dias posteriores à ponte de safena: “Uma jamanta passou sobre o meu peito”.

 Exagero ou não, já que a dor é sentimento muito particular, podemos, a princípio, chegar a outros consensos:

é foda ser feliz quando não se dorme naturalmente  com medo do que não se viu, mas o corpo sentiu e espíritos-de-porco sopraram. Sopraram? Não, contaram tudo ou quase tudo, inclusive suas surpreendentes  reações no período (das oito e meia  da manhã às nove e meia da noite) em que você  ‘morreu’ para renascer, no dia 17.

é foda ser feliz quando só se dorme com remédio que lhe tira o tirocínio e o deixa loucão,  sem controle da mente e da bexiga, o que o obriga até a usar fralda geriátrica.

é foda ser feliz quando o dia amanhece e você, tartaruga emborcada, fica gemendo, barriga para cima, (ainda dizem que “viver de papo pro ar” é viver bem) à espera do efeito do Tilex, além de mãos caridosas e fortes, para enfrentar a dor e levantar.

é foda, mas é possível ou pura loucura, sobretudo, quando você sabe que esta dor é passageira, como aquela que termina no vaso. Sente-se, ademais, em ebulição, em pleno jorro criativo –  no meu caso, tenho um plus, a música.  Sente-se com força para amar.  E sabe, sobretudo, que você está curado e não terá limitações (às vezes, temos que confiar cegamente no médicos) e apartado da morte. Por enquanto.

 

Como quase todo mundo. 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

A doença e as descobertas da instintiva

Posted in Coração, doação de sangue by adilson borges on 9 de abril de 2009

 

Marilia em evento quando era presidente do CRESS-BA. Para a mulherada, eu não tinha nome. Era o "primeiro damo"

Marilia ( no centro) em evento quando ainda era presidente do CRESS-BA. Para a mulherada, eu não tinha nome. Era o "primeiro damo"

 

Jeane fazia caracol. Geraldo, camisa abotoada até o gogó. Cassandra parecia estátua, único sinal de vida vinha dos olhos castanhos. O busto de Márcia subindo e descendo compassado, mas sem parar, movimentos regulares, sem bip de doente. Perto da alta. Estava tudo normal no jornal. Aí  o telefone tocou no comecinho de dezembro de 2008:

 

– Boa tarde, senhor, queria confirmar sua consulta de cardiologia para a amanhã, 8h40…

– Desculpe, mas não marquei nenhuma consulta…

–  Está aqui marcada. Adilson Borges não é o senhor?

– Hum… Ah, já sei… Tá legal. Confirmada.

Havia uns 15 dias que Marília acordara com a idéia de que eu devia procurar um cardiologista para fazer check-up. Não adiantava argumentar que eu me sentia muito bem e que o exame periódico da empresa, todos os anos, incluía ecocardiograma. “Tem que ser um ‘cárdio’. Tome aqui o manual da AMS, o plano da Petrobras, e ligue, ok?” , dizia impaciente. “Ou então ligo eu, amore!”

O livrinho da empresa ficava no lugar onde deixava, eu esperando vencê-la pelo cansaço, contando com o monte de obrigações dela, como aconteceu da outra vez quando inventou este exame de rotina.  Não avaliei que, agora, a situação mudara. Ela ainda tinha o dia-a-dia duro da Petrobras, o curso MBA, custeado pela empresa, que a fazia a cada 15 dias ir sexta a São Paulo e voltar sábado, e outras viagens extras da rotina da estatal do petróleo brasileiro.

Tinha também a escola de Chico e o próprio, a quem, pelo menos acordado, acho que ela via menos do que eu – só na carreira da manhã, enquanto eu e ele quase todo dia almoçávamos juntos. Mas Marília Menezes Pessoa não era mais a presidente da 5ª Região do Conselho Regional do Serviço Social (CRESS- BA) e eu não precisava mais fingir que me incomodava quando a mulherada do Conselho, naquelas reuniões intermináveis, nos atos políticos ou nas farras com violão, me chamava de ‘primeiro-damo’.

A ‘sobra’ de tempo, talvez, fez minha instintiva, como um médico a chamou após a cirurgia, passar da ameaça à ação, marcando a consulta com uma cardiologista, Maria de Fátima Castro, que ela escolheu numa roleta russa: abriu o livrinho ao acaso e bateu os olhos na filha do saudoso jornalista Elmano Castro, fundador da Tribuna da Bahia.

Sem dor, com amor

Os exames ergonométrico e cintilográfico apontaram. E o categórico cateterismo (Ah quantos médicos corri em busca de algum que dissesse que não haveria necessidade!) feito pelo doutor Heitor de Carvalho, o “papa da hemodinâmica”, como já ouvi o chamarem, atestou irretorquível  a dimensão do problema. Sentindo-me muito bem, sem uma dorzinha qualquer, eu tinha uma artéria totalmente obstruída e as outras duas em níveis que variavam de 75% a 95%.

Assim, me internei em 16 de março (Ah quantos médicos, inclusive Heitor de Carvalho, corri em busca de algum que dissesse que meu caso poderia ser resolvido com angioplastia!), e no dia 17 fui operado pelo recomendadíssimo cirurgião Nilzo Ribeiro (nunca vi tanta unanimidade em torno de uma pessoa), no Hospital Aliança, onde fiquei até o dia da alta, 26 março de 2009, uma quinta-feira-feira de sol mais brilhante do que nesta opaca Quinta da Paixão que escrevo – renascido pelo amor e pelo instinto de Marília, que também me fez parar de fumar há 11 anos e acaba  de evitar, novamente por instinto, o progresso do aumento de  líquido no meu coração neste período pós-operatório.

Esta é outra história que conto depois.  Sei que prometi não fazê-lo, mas desculpe, minha comunista instintiva,  o “ex-primeiro damo” não pode esconder.

Obrigado, meu amor!