Coisas do Coração

Mamãe, eu quero mamária!

Posted in Coração by adilson borges on 15 de maio de 2009

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Caderno de autoajuda:

1) Evite ficar sozinho sempre que estiver se preparando para ganhar duas pontes de safena e uma mamária.

 A última sessão da Galeota, antes da cirurgia foi a mais animada.  Ao leitor apressadinho explico logo: Galeota é o nome da reunião etílica, poética e musical que, vez em quando, faz a galera valente do jornal A TARDE  (Salvador, Bahia, Brasil) atravessar a passarela e ancorar, na Casa do Comércio, madrugada adentro. O manifesto da Galeota, que virou comunidade no Orkut há um ano (29 de maio de 2008), explica mais.  E melhor:

 “A Galeota é o prazer, depois do cansaço, a irreverência, o não-compromisso, o vinho, a cerveja, o sorriso, a besteira, a comida, o bolo falso, o violão e o beijo, o boné inesperado, o sorriso, a galhofa, a ironia, a noite que logo se exaure, a volta pra casa e a sensação do dever cumprido e de que vencemos a morte e a despedida, e celebramos renascimentos e encontros mais uma vez”.

 2) A verdade está no meio de tudo. Procure-a.

 Algum espírito-de-porco há de insinuar que o sumo da alegria do dia 18 de fevereiro seria o sentimento de despedida. Como em tudo há verdade, até na alma suína, por que não concordar? Quem sabe quando a hora é de “Adeus” ou de “Até logo”?  Ninguém. 

Por isso, é bom aproveitar. Só se vive uma vez.  Há, no entanto, quem discorde desta última afirmação. Para evitar que a porca torça o rabo aí, não se deve afirmar nada tão categoricamente.  Mas basta uma verdade: a festa foi legal,  foi boa, foi ótima!

3) Deus ajuda a quem madruga e não chora. Orvalho é mais doce que lágrima.  

Com fantasia, confete, serpentina, máscaras, apito, a Galeota virou baile do Carnaval. O aquecimento começou cedo, na tarde daquela quarta-feira. A cada hora, pintava o sinal, e a gente explodia em alegria, na redação. Apitava, gritava, Agitava. O tema, numa alusão às saudosas marchinhas, mas irreverente como sempre, foi dos mais comentados: “Mamãe, eu quero mamária”.

Fechado o jornal do patrão, saiu o cortejo espalhando fantasia pela Tancredo Neves quase deserta. Personagens não-identificados, Drácula, mulheres-gatos, Oxum, invadiram a Casa do Comércio. “Aviso que eu hoje eu vou chegar mais tarde”, liga o garçom para casa. “De novo?”, alguém diz do outro lado. “É tá todo mundo aqui. O negão com o violão, o viado, o rapaz alto que gosta de música brega, a moça que coça o cabelo e aperta os olhinhos, a outra de olhos discretos que só degusta vinho…”

3) Faça por merecer que o dia amanhece

Sem ponto e maiúsculas no lugar certo, e com vírgulas estranhas, a reportagem da festa pode ser conferida na comunidade da Galeota:  

foi uma beleza só a Galeota do Carnaval, na quarta, 18 de fevereiro A portabandeira não apareceu, e perdeu A gente, com máscara e fantasia, ou de careta, gozou, gozou Bira fez sua estreia e tocou violão, navarro cantou, gil a tudo fotografou, oxum baixou e a bela lilia bailou, bailou, marcia sambou sambou sambou bonito em três tempos, olhos-lindos sorriram, sorriram, drácula sentiu aperto no coração, mas não era dor, era emoção Felicidade que fizemos por merecer Todo mundo brilhou, brilhou
O dia amanheceu. Sem lágrimas nem orvalho”.

 

 

 

 

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O desmaio ideológico

Posted in Coração by adilson borges on 24 de abril de 2009

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O desmaio foi rápido, não durou mais do que segundos. Mas causou alvoroço pelo inesperado. Havia três ou quarto dias que eu fazia aqueles exercícios sem problema no hospital. Começava com aquele equipamento colorido, com três bolinhas, cada uma em seu espaço, que até hoje Chico, meu filho de 11 anos, me pede para testar e nem espera a resposta, pois sabe que é sempre não. O lance é inspirar até que as bolinhas flutuem e levitem no teto do Respiron, o nome da engenhoca.

 

Cabelos negros como dificilmente se veem em brancas, dedos magros e hálito matinal adocicado, a fisioterapeuta do dia conduzia tranquilamente a série de inspirações e respirações, agora em pé, no quarto ou com braços apoiados na cama. Superada estas etapas, eu era convidado para dar um volta, geralmente nas varandas do Aliança. Neste dia, estava lá Emiliano, de 29 anos, meu filho, o ex-caçula, como gosto de dizer.

 

Bonito para morrer

 

Eu, de pijama moderno comprado por Marília para a ocasião, e de sandálias havaianas brancas também novíssimas, caminhava olhando, com pena, para o calçado pesado, um tênis destes da moda, de Emiliano, que também foi no passeio. A fisioterapeuta caminhava atenta, pronta para me segurar a qualquer claudicada que porventura meus passos dessem.

 

O sol iluminava as árvores e plantas do hospital, mas ainda não chegava à varanda onde estávamos, decorada com lindos trabalhos esculturais de ferro. Parecia 16 de março, dia em que me internei para a cirurgia de pontes de safena e mamária, por volta das 11h, mas era mais cedo, devia ser umas 8h40. “Um dia bonito para morrer”, pensei na frase que disse a minha mulher e na reação de Marília, ao chegarmos ao apartamento: “Você gosta de ser trágico, vixe!”  

 

Roda mundo

 

“Inspire fundo, respire, inspire fun, respi”, a voz da fisioterapeuta foi sumindo aos poucos, mas ainda tive tempo de dizer que estava ficando tonto. “Sente-se, então”, aconselhou o jaleco branco sem perder a voz calmíssima, hipnótica. Sentei, tudo rodou e minha cabeça girou para o ombro, quase no colo dela. “Meu pai”! “Seu Adilson!”, ouvi as vozes seguidas da minha, “o que foi que houve?” e logo, logo, não sei como, estava já sentado em uma cadeira-de-rodas deslizando para o apartamento  147.

 

Deitaram-me, auscultaram-me, primeiro a fisioterapeuta, depois a enfermeira e, por fim, de forma definitiva o doutor Eduardo Novais, cardiologista que me assistiu durante todo o período pós-cirúrgico que fiquei no hospital. Ao final, concluíram que houve apenas uma queda de pressão, ocasionada talvez pela bateria de remédios que consumia ou quem sabe pela noite maldormida. Mas eu tinha outra explicação, que guardei para revelar ao doutor Eduardo, já que ele foi involuntariamente o responsável pelo episódio, na ocasião adequada.  E fi-lo, como diria Jânio Quadros, no dia da alta.

 

A revelação

O doutor já me declarara curado, estava me arrumando para sair, ele checando tudo, pressão arterial, respiração, pulso, ao tempo que dava instruções para os dias seguintes em casa, quando o meu telefone tocou. Era um amigo e também cliente de Eduardo Novais que se revelou inexcedível nas atenções a mim e a minha família neste período difícil. Queria, como sempre, saber como estavam as coisas. E ao ser informado que estava de alta, não se conteve: “E aquele desmaio?” Eduardo começou a explicar, mas eu interrompi. Disse que sabia a razão e gostaria de explicar aos dois naquele momento. Peguei o celular e botei no viva voz:

“Companheiro, aquilo foi consequência de uma gozação feita pelo doutor Eduardo. ‘Adilson, agora, você não pode dizer que não tem nada a ver com a direita, que é mais angustiada. Dificilmente, você vê esse lance de revascularização (ponte de safena e mamária) com a esquerda brasileira. Olhe Lula, aí, por exemplo’, afirmou sorrindo o doutor, na véspera do meu baque. Aquilo me deixou preocupado, então no dia seguinte o que eu tive, na verdade, foi um desmaio ideológico!”