Coisas do Coração

“Assim falou Jônatas Conceição”

Posted in Coração by adilson borges on 6 de abril de 2009

 

Jônatas virou estrela e entrou para a história

Jônatas virou estrela e entrou para a história

Aguenta, coração velho. 
ile-jonas2

Sábado (4. abril. 2009), saí cedo com Marília, minha mulher, eu em jejum, para  fazer exame  de sangue. Na volta, pego o jornal  na portaria,   e da minha queridíssima  Cleidiana Ramos recebo uma notícia  como uma bala:  Jonatas Conceição morreu.

 O poeta, militante do Movimento Negro, professor e, sobretudo meu amigo, de mais de 30 anos, foi enterrado, às 16h30,  de sexta-feira,  mesmo dia da morte. Não sabia que estava doente. Câncer…

Sem despedida

Última vez que o vi, acho que foi ano passado na porta do Museu do Ritmo, no Mercado do Ouro, pouco antes de começar a versão (louquíssima pra variar) de José Celso Martinez  sobre a guerra de Canudos.

Sorrimos, eu mais gaiatamente e ele mais tímido como sempre,  fizemos sinal de positivo a distância.  Se soubéssemos (Como? Não sei) que  não nos veríamos mais,  tenho certeza que o encontro seria mais próximo, eu daria um abraço, ele apertaria minha mão, perguntaria as novidades, fazendo esforço para não gaguejar,  e chamar-me-ia, como sempre fez, de Abelha,  um apelido de infância que  pouquíssimos  ainda usam  – para mim é uma espécie de teste de carbono sobre o tempo que me conhecem.

 Agora que Jônatas disse adeus, aos 56 anos (minha idade), serei Abelha para menos gente fora do círculo familiar:  Maria Luiza Bairros, a secretaria de Promoção da Igualdade Racial e os jornalistas Gutemberg Cruz (Gugu), Osmar Martins (Marrom), Raimundo Souza (China), o mecânico Dilsinho e família, de Cidade Nova.

Chorei, chorei, chorei (pode ironizar, Dantão, mas não me envergonho, de chorar quase todo dia desde que fiz a cirurgia do coração), pensando em Jônatas, que ainda na Liberdade, brincava comigo e com minha filha Cristiana, à época com uns dois, três anos (hoje 33, desculpe revelar Thyana): “Abelha, esta menina ainda vai ser Deusa de Ébano do Ilê”.

Militância

Anos  depois, trabalhamos juntos na revisão de A TARDE, e depois no Irdeb duas vezes, a última na rádio Educadora, onde ele apresentava um programa sobre música afro-brasileira, sobretudo do Ilê Aiyê, do qual era diretor há muito tempo.

 Após o choro, contei a Marília, que o conhecia de vista e de encontro formais, e relembrei  um encontro que tive com ele, há quase nove anos  (Paulo Leandro, jornalista, sabe todas as datas, mas quem me socorreu foi outro colega, José Pacheco)  na Rua do Paraíso,  um ou dois dias depois de eu dar uma entrevista em A TARDE sobre o fechamento da sucursal da Gazeta Mercantil em Salvador (7.11.2001) e a demissão  de todos os jornalistas. Jônatas disse que logo, logo, eu estaria em outro emprego, perguntou pelos meus filhos,  por Vina, minha ex-mulher. Em seguida, ironizou dizendo que eu só fazia me divertir e trabalhar. E arrematou a conversa com uma frase: “O que é que você está fazendo contra o Estado?”

Hora do encantamento

Marília me deu um café da manhã cheio de frutas e sucos.  Depois, convidou: Vamos pro quarto descansar, no ar condicionado. Eu disse que queria ficar na sala, um pouco, pensando  em Jonatas e tocando. Ela então ordenou: Vamos para o quarto, traga o violão.  Fazer o quê? Ela deitou, se protegeu do friozinnho, fez um tralalá numa música. Quando cantei Coração Leviano disse ”tá bonito, mas cante mais baixo que já estou perto do paraíso”, disse com os olhos fechados.  Tá legal, respondi, mas já em estado de encantamento, fechei a porta devagarzinho, peguei um papel oficio, fui pra sala silenciosa (Chico, meu filho, ainda dormia, e Marta, que cuida dele, é o silêncio em pessoa) e comecei a compor.   Acho que  em pouco mais de uma  hora e meia, eu já estava guardando no velho gravador de fita cassete a canção  que fiz para o meu amigo que partiu sem me dar um abraço.

 Poucas  músicas me lavaram tanto a alma.  Marília adorou.  Mas não mostrei a todos que foram lá em casa neste sábado  de dor e criação.  Dantão e Gil Maciel foram exceção. Gil pirou de vez, analisou a frase de Jônatas, esbugalhou os olhos, destacou as misturas de ritmo, viu rock e jazz onde acho que é reggae, jazz e samba-reggae, disse que era linda e chorou, mas discretamente.

Dantão ouviu, compenetrado, algumas vezes olhando o rascunho que estava no sofá, começou a cantar comigo, elogiou muito (algumas vezes, com olhos molhados, mas sem chorar ) . Ele e Marília, assim como Gil, discutiram a pergunta de Jônatas. Ela quis saber minha resposta, ele perguntou se o falecido era anarquista e  apresentaram vários projetos para a música de Jonatas.  Na despedida, já na porta do elevador, Dantão falou: “Que música massa”.  Vou tentar postar  no Coisas do Coração. Espero, sobretudo, que Ana Célia, irmã de Jônatas, goste.

Batizei-a de “Assim falou Jônatas Conceição”

 

 

 

 

 

 

 

10 Respostas

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  1. adilson borges said, on 6 de abril de 2009 at 23:26

    (Postada com a senha de Adilson Borges):

    Bom Adilson, prometeu tem que cumprir não é?
    Estamos esperando a música aqui no blog…
    Um beijo!
    Damile

    • adilson borges said, on 7 de abril de 2009 at 18:28

      Estou com um problema digital (falta de mídia e USB, gravei a música numa fita cassete) e uma dúvida autoral: se eu postar a música deixa de ser inédita para efeito de festival ou outro projeto? Mas você vai ouvir logo, como sempre.Beijo

  2. Damile said, on 7 de abril de 2009 at 00:04

    Oi Adilson, como vai?
    Estava postando comentários no seu blog, mas estava saindo como se fosse você, porque o meu computador tinha gravado a sua senha automaticamente e toda vez que eu entrava no site ele achava que eu era você.
    Já resolvi isso, apaguei todas as senhas salvas do meu computador, agora eu queria que você editasse os comentários, apague do seu nome e poste novamente como se fosse uma pessoa qualquer, será que dá?
    Desculpa aí tá?
    Beijos!
    Damile

    • adilson borges said, on 7 de abril de 2009 at 18:31

      Vou testar . Será que se entrar sem senha? É o que dar ser co-autora…….beijo

  3. paulo dantao said, on 7 de abril de 2009 at 10:06

    do jeito que vc colocou fica parecendo que eu sou um cabra macho de coração seco, que acho que homem não chora, que é coisa de viado, como vc disse. peralá. não ironizei. tudo bem que eu viva citando a frase “homem que chora, mulher que não chora e cavalo pedrês – não confie em nenhum dos três”, mas, repito, não ironizei. a música que vc fez em homenagem a jonatas é belíssima, emociona mesmo.

    • adilson borges said, on 7 de abril de 2009 at 18:38

      Às vezes, temos que futucar os amigos para que eles mostrem o melhor de si. Ou só para sacanear. Sobretudo, quando se trata de você, um poeta sensivel, parceiro musical, meu único muso antes de Jônatas ( “O poeta sofre muito, mas o gozo vale o risco, não espera virar pó”) . Com uma vantagem (ou não): está vivo!
      Uma lágrima para o cabra macho de coração seco, que já vi chorar tantas vezes

  4. Socorro said, on 7 de abril de 2009 at 10:10

    Também estou esperando a música. Jônatas, pra mim, vai continuar a ser o ser encantado que sempre foi. Nunca trocamos uma palavra, embora tenha trabalhado perto dele durante anos. Mas sempre respeitei e adimirei a sua militância. Sei que são seres como ele que fazem as mudanças. Tem muitos outros por aí. Incompreendidos por tanta gente, desprezados pela mídia, as vezes até chamados de radicais pelos amigos. No caso dos militantes do movimento negro, acusados de querer tranformar o Brasil num país segregado pela cor e outras coisas do gênero. Como se vivêssemos num paraíso sem discriminação. Nestes 30 anos, desde que a sua bela Tyana brincava na Liberdade, tanto mudou nesta Salvador negra, né Adilson? Mudou na lei. Mudou no respeito. Mas, principalmente, mudou na auto-estima. Por isso, porque essas conquistas se devem à luta de gente como Jônatas, e porque tanto ainda precisas ser mudado, Jônatas, o encantado, não vai morrer.

  5. adilson borges said, on 7 de abril de 2009 at 18:46

    Disse tudo socorro. Impressionou-me sua revelação de que nunca trocou uma palavra com Jonatas, embora tenha trabalhado perto dele durante anos…

  6. Luiza Bairros said, on 7 de abril de 2011 at 14:15

    Abelha,
    No domingo, 03.04.11, dois anos da morte de Jônatas. Estava em Salvador, e não lembrei da data. Logo eu, que penso nele quase todos os dias. Só me dei conta no dia seguinte, depois de falar com Ana Célia. Fiquei arrasada!
    Até por isto, fui procurar o que havia sobre ele no mundo virtual e achei este teu texto, dois anos depois…
    Adorei ter lido, estou torcendo para ouvir a musica.

    • adilson borges said, on 8 de abril de 2011 at 07:27

      Na primeira oportunidade, toco a musica para você. Isso é fácil. Dificil é lembrar de Jônatas sem sentir saudades. Beijos


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