Coisas do Coração

A história do meu último suspiro

Posted in Coração by adilson borges on 12 de maio de 2009

 

 

“Fumar é um jeito discreto de ir queimando as ilusões perdidas. Daí esse ar aliviado e triste dos fumantes solitários. Vocês ainda não repararam que ninguém fuma sorrindo?”  ( Mário Quintana)

 

Qual a sua atividade profissional? Sou jornalista, respondi. O médico continuou fazendo as perguntas clássicas, que chamam de anamnese, antes de iniciar o tratamento. Estado Civil? Idade? Doenças? Saúde da família?  Eu já estava pensando que não ia escapar daquela vez. Mas o diálogo mudou:

– Por que você quer deixar de fumar?

– Eu não quero deixar, não

– Não! E por que o senhor está aqui?

– Por causa dela, minha mulher, que marcou a consulta e me trouxe.

O médico balançou a cabeça, chamou Marília e disse que eu ainda não estava pronto para deixar de fumar.

“Puxa, Adilson, por que você não me disse isso! Fazer eu perder uma tarde de trabalho, pagar consulta. Puxa, assim, eu desisto!” , desabafou Marília, no caminho de volta mas não desistiu. Quatro ou cinco anos depois de muita conversa, acertou comigo que eu deixaria de fumar em 15 dias.

Marcou a data e comprou uns emplastros à base de nicotina para colar no ombro. “Vou ficar viciado nestes adesivos”, eu ironizava, mas torcia para dar certo. No dia marcado na agenda preta dela, a casa amanheceu “limpa”. Isqueiros e até fósforos sumiram, cinzeiros também. Café não rolou, refrigerante também não, só chá e a alimentação foi mais leve, mas muito saborosa, com bastante salada.

Pongado no meu ombro, o emplastro com minha dose de nicotina tinha efeitos contraditórios.  Amenizava a vontade de fumar, mas provocava um coceira…que me fazia lembrar do cigarro. Nestas horas, eu procurava pensar em outra coisa. Às vezes, lembrava de Mário Quintana: “ Fumar é uma forma de suspirar”. E, para subverter a frase a favor do tabaco, respirava fundo, afastando-me  do vício. 

Tudo ajudou, mas o  remédio que considero mais eficaz, além do emplastro, é claro, foi a água. Troquei a nicotina pela água. Acho que até hoje estou viciado em H2O. Assim, depois de 33 anos ininterruptos de tragadas, pelo menos um maço diário, eu passei, finalmente, um dia e uma noite sem fumar.

 

Em busca da ilusão

Entre dezembro e janeiro deste ano de 2009, cerca de 10 anos depois de parar de fumar, eu estava correndo de médico a médico doido para que algum dissesse que eu não precisaria de duas pontes de safena e uma mamária. Primeiro havia virado poltrona de clínica na esperança de que um especialista proclamasse que não haveria necessidade de fazer cateterismo.  Como não encontrei esta alma vendedora de ilusão, já me sentiria feliz comprando a esperança de fazer angioplastia, procedimento menos invasivo, feito, como o cateterismo, através de uma artéria na virilha. Nem isso  encontrei, todos achavam que eu deveria cair na faca.

Então ter deixado de fumar  não ajudara nada?  “Se você continuasse fumando, acho que você não estaria aqui conversando comigo agora”, disse o cardiologista Juarez Magalhães, olhos voltados atentamente para o resultado do cateterismo feito pelo doutor Heitor Carvalho, uma dos nomes mais importantes da angioplastia do Estado.

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O peso de uma jamantinha

Posted in Coração by adilson borges on 13 de abril de 2009

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Quando se está vivo, a  jamanta vira uma dorzinha passageira

Quando se está vivo, a jamanta vira uma dorzinha passageira

 

–Quer saber a verdade? Acho que estou vivendo o momento mais feliz da minha vida! 

 Minha amiga, dessas a que se pode falar tudo, ficou, é claro, espantada. Mas calou-se respeitosamente  ao ouvir de mim esta frase em 27 de março, um dia depois de eu ter saído do hospital, onde fiquei 11 dias – após cair na faca em uma cirurgia que estabeleceu duas pontes de safena e uma mamária no meu assanhado peito, de 56 anos.

Como podia ser feliz alguém que não passava um dia sem chorar, com dores 24 horas? O ex-presidente João Baptista  Figueiredo (1979 /1985), por exemplo, criou um trauma ao dizer em relação aos seus sentimentos nos dias posteriores à ponte de safena: “Uma jamanta passou sobre o meu peito”.

 Exagero ou não, já que a dor é sentimento muito particular, podemos, a princípio, chegar a outros consensos:

é foda ser feliz quando não se dorme naturalmente  com medo do que não se viu, mas o corpo sentiu e espíritos-de-porco sopraram. Sopraram? Não, contaram tudo ou quase tudo, inclusive suas surpreendentes  reações no período (das oito e meia  da manhã às nove e meia da noite) em que você  ‘morreu’ para renascer, no dia 17.

é foda ser feliz quando só se dorme com remédio que lhe tira o tirocínio e o deixa loucão,  sem controle da mente e da bexiga, o que o obriga até a usar fralda geriátrica.

é foda ser feliz quando o dia amanhece e você, tartaruga emborcada, fica gemendo, barriga para cima, (ainda dizem que “viver de papo pro ar” é viver bem) à espera do efeito do Tilex, além de mãos caridosas e fortes, para enfrentar a dor e levantar.

é foda, mas é possível ou pura loucura, sobretudo, quando você sabe que esta dor é passageira, como aquela que termina no vaso. Sente-se, ademais, em ebulição, em pleno jorro criativo –  no meu caso, tenho um plus, a música.  Sente-se com força para amar.  E sabe, sobretudo, que você está curado e não terá limitações (às vezes, temos que confiar cegamente no médicos) e apartado da morte. Por enquanto.

 

Como quase todo mundo.