Coisas do Coração

O flamboyant psicodélico

Posted in Coração by adilson borges on 28 de abril de 2009

 

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O mais impressionante de um fenômeno é a possibilidade de repeti-lo. E eu conseguia.  A árvore linda, galhos verdes com folhas vermelhas, primeiro se transformava em pintura tipo expressionista de Van Gogh, depois começava a se balançar mais do que se pode creditar ao impulso do vento.

Vi este fenômeno várias vezes ao olhar para o condomínio que se escancara perante minha janela, nas manhãs do início do meu período pós-operatório. Mais do que vi, descobri que o podia reproduzir e o fiz. Ainda acho que o posso fazer, mas as condições, inclusive farmacológicas, se modificaram e não mais me interessa: entendi que se tratava de uma conjunção de fatores químicos, físicos e biológicos.

Não conseguia dormir sem remédios. Com o medicamento (omito o nome por causa dos viciados), o sonho vinha, mas sem boa qualidade. Então, eu acordava muito cedo, aturdido, meio ébrio e, como sempre, com dor no peito, certamente ocasionada pelo trauma cirúrgico ou por ser obrigado a deitar de papo para o ar. Ou as duas coisas.

Ainda deitado tomava um analgésico, esperava o efeito e alguém para me ajudar a levantar. Após o café da manha, com mais um comprimido para controlar a pressão, ia para o meu posto de observação da paisagem. Fazia os costumeiros exercícios de fisioterapia, com muita inspiração e respiração. Na hora certa, e eu sabia qual era, bastava olhar para a árvore psicodélica e o fenômeno se repetia, como o sol que nasce todos os dias, mesmo quando chove e não o vemos diretamente.

Recentemente, tive uma frustração, mas já tinha abandonado minha manhãs, digamos, de viagens lisérgicas: alguém me disse que não sabia o nome, mas aquela árvore decididamente não é um flamboyant!    

 

 

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O peso de uma jamantinha

Posted in Coração by adilson borges on 13 de abril de 2009

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Quando se está vivo, a  jamanta vira uma dorzinha passageira

Quando se está vivo, a jamanta vira uma dorzinha passageira

 

–Quer saber a verdade? Acho que estou vivendo o momento mais feliz da minha vida! 

 Minha amiga, dessas a que se pode falar tudo, ficou, é claro, espantada. Mas calou-se respeitosamente  ao ouvir de mim esta frase em 27 de março, um dia depois de eu ter saído do hospital, onde fiquei 11 dias – após cair na faca em uma cirurgia que estabeleceu duas pontes de safena e uma mamária no meu assanhado peito, de 56 anos.

Como podia ser feliz alguém que não passava um dia sem chorar, com dores 24 horas? O ex-presidente João Baptista  Figueiredo (1979 /1985), por exemplo, criou um trauma ao dizer em relação aos seus sentimentos nos dias posteriores à ponte de safena: “Uma jamanta passou sobre o meu peito”.

 Exagero ou não, já que a dor é sentimento muito particular, podemos, a princípio, chegar a outros consensos:

é foda ser feliz quando não se dorme naturalmente  com medo do que não se viu, mas o corpo sentiu e espíritos-de-porco sopraram. Sopraram? Não, contaram tudo ou quase tudo, inclusive suas surpreendentes  reações no período (das oito e meia  da manhã às nove e meia da noite) em que você  ‘morreu’ para renascer, no dia 17.

é foda ser feliz quando só se dorme com remédio que lhe tira o tirocínio e o deixa loucão,  sem controle da mente e da bexiga, o que o obriga até a usar fralda geriátrica.

é foda ser feliz quando o dia amanhece e você, tartaruga emborcada, fica gemendo, barriga para cima, (ainda dizem que “viver de papo pro ar” é viver bem) à espera do efeito do Tilex, além de mãos caridosas e fortes, para enfrentar a dor e levantar.

é foda, mas é possível ou pura loucura, sobretudo, quando você sabe que esta dor é passageira, como aquela que termina no vaso. Sente-se, ademais, em ebulição, em pleno jorro criativo –  no meu caso, tenho um plus, a música.  Sente-se com força para amar.  E sabe, sobretudo, que você está curado e não terá limitações (às vezes, temos que confiar cegamente no médicos) e apartado da morte. Por enquanto.

 

Como quase todo mundo.