Coisas do Coração

O desmaio ideológico

Posted in Coração by adilson borges on 24 de abril de 2009

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O desmaio foi rápido, não durou mais do que segundos. Mas causou alvoroço pelo inesperado. Havia três ou quarto dias que eu fazia aqueles exercícios sem problema no hospital. Começava com aquele equipamento colorido, com três bolinhas, cada uma em seu espaço, que até hoje Chico, meu filho de 11 anos, me pede para testar e nem espera a resposta, pois sabe que é sempre não. O lance é inspirar até que as bolinhas flutuem e levitem no teto do Respiron, o nome da engenhoca.

 

Cabelos negros como dificilmente se veem em brancas, dedos magros e hálito matinal adocicado, a fisioterapeuta do dia conduzia tranquilamente a série de inspirações e respirações, agora em pé, no quarto ou com braços apoiados na cama. Superada estas etapas, eu era convidado para dar um volta, geralmente nas varandas do Aliança. Neste dia, estava lá Emiliano, de 29 anos, meu filho, o ex-caçula, como gosto de dizer.

 

Bonito para morrer

 

Eu, de pijama moderno comprado por Marília para a ocasião, e de sandálias havaianas brancas também novíssimas, caminhava olhando, com pena, para o calçado pesado, um tênis destes da moda, de Emiliano, que também foi no passeio. A fisioterapeuta caminhava atenta, pronta para me segurar a qualquer claudicada que porventura meus passos dessem.

 

O sol iluminava as árvores e plantas do hospital, mas ainda não chegava à varanda onde estávamos, decorada com lindos trabalhos esculturais de ferro. Parecia 16 de março, dia em que me internei para a cirurgia de pontes de safena e mamária, por volta das 11h, mas era mais cedo, devia ser umas 8h40. “Um dia bonito para morrer”, pensei na frase que disse a minha mulher e na reação de Marília, ao chegarmos ao apartamento: “Você gosta de ser trágico, vixe!”  

 

Roda mundo

 

“Inspire fundo, respire, inspire fun, respi”, a voz da fisioterapeuta foi sumindo aos poucos, mas ainda tive tempo de dizer que estava ficando tonto. “Sente-se, então”, aconselhou o jaleco branco sem perder a voz calmíssima, hipnótica. Sentei, tudo rodou e minha cabeça girou para o ombro, quase no colo dela. “Meu pai”! “Seu Adilson!”, ouvi as vozes seguidas da minha, “o que foi que houve?” e logo, logo, não sei como, estava já sentado em uma cadeira-de-rodas deslizando para o apartamento  147.

 

Deitaram-me, auscultaram-me, primeiro a fisioterapeuta, depois a enfermeira e, por fim, de forma definitiva o doutor Eduardo Novais, cardiologista que me assistiu durante todo o período pós-cirúrgico que fiquei no hospital. Ao final, concluíram que houve apenas uma queda de pressão, ocasionada talvez pela bateria de remédios que consumia ou quem sabe pela noite maldormida. Mas eu tinha outra explicação, que guardei para revelar ao doutor Eduardo, já que ele foi involuntariamente o responsável pelo episódio, na ocasião adequada.  E fi-lo, como diria Jânio Quadros, no dia da alta.

 

A revelação

O doutor já me declarara curado, estava me arrumando para sair, ele checando tudo, pressão arterial, respiração, pulso, ao tempo que dava instruções para os dias seguintes em casa, quando o meu telefone tocou. Era um amigo e também cliente de Eduardo Novais que se revelou inexcedível nas atenções a mim e a minha família neste período difícil. Queria, como sempre, saber como estavam as coisas. E ao ser informado que estava de alta, não se conteve: “E aquele desmaio?” Eduardo começou a explicar, mas eu interrompi. Disse que sabia a razão e gostaria de explicar aos dois naquele momento. Peguei o celular e botei no viva voz:

“Companheiro, aquilo foi consequência de uma gozação feita pelo doutor Eduardo. ‘Adilson, agora, você não pode dizer que não tem nada a ver com a direita, que é mais angustiada. Dificilmente, você vê esse lance de revascularização (ponte de safena e mamária) com a esquerda brasileira. Olhe Lula, aí, por exemplo’, afirmou sorrindo o doutor, na véspera do meu baque. Aquilo me deixou preocupado, então no dia seguinte o que eu tive, na verdade, foi um desmaio ideológico!”

 

 

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A doença e as descobertas da instintiva

Posted in Coração, doação de sangue by adilson borges on 9 de abril de 2009

 

Marilia em evento quando era presidente do CRESS-BA. Para a mulherada, eu não tinha nome. Era o "primeiro damo"

Marilia ( no centro) em evento quando ainda era presidente do CRESS-BA. Para a mulherada, eu não tinha nome. Era o "primeiro damo"

 

Jeane fazia caracol. Geraldo, camisa abotoada até o gogó. Cassandra parecia estátua, único sinal de vida vinha dos olhos castanhos. O busto de Márcia subindo e descendo compassado, mas sem parar, movimentos regulares, sem bip de doente. Perto da alta. Estava tudo normal no jornal. Aí  o telefone tocou no comecinho de dezembro de 2008:

 

– Boa tarde, senhor, queria confirmar sua consulta de cardiologia para a amanhã, 8h40…

– Desculpe, mas não marquei nenhuma consulta…

–  Está aqui marcada. Adilson Borges não é o senhor?

– Hum… Ah, já sei… Tá legal. Confirmada.

Havia uns 15 dias que Marília acordara com a idéia de que eu devia procurar um cardiologista para fazer check-up. Não adiantava argumentar que eu me sentia muito bem e que o exame periódico da empresa, todos os anos, incluía ecocardiograma. “Tem que ser um ‘cárdio’. Tome aqui o manual da AMS, o plano da Petrobras, e ligue, ok?” , dizia impaciente. “Ou então ligo eu, amore!”

O livrinho da empresa ficava no lugar onde deixava, eu esperando vencê-la pelo cansaço, contando com o monte de obrigações dela, como aconteceu da outra vez quando inventou este exame de rotina.  Não avaliei que, agora, a situação mudara. Ela ainda tinha o dia-a-dia duro da Petrobras, o curso MBA, custeado pela empresa, que a fazia a cada 15 dias ir sexta a São Paulo e voltar sábado, e outras viagens extras da rotina da estatal do petróleo brasileiro.

Tinha também a escola de Chico e o próprio, a quem, pelo menos acordado, acho que ela via menos do que eu – só na carreira da manhã, enquanto eu e ele quase todo dia almoçávamos juntos. Mas Marília Menezes Pessoa não era mais a presidente da 5ª Região do Conselho Regional do Serviço Social (CRESS- BA) e eu não precisava mais fingir que me incomodava quando a mulherada do Conselho, naquelas reuniões intermináveis, nos atos políticos ou nas farras com violão, me chamava de ‘primeiro-damo’.

A ‘sobra’ de tempo, talvez, fez minha instintiva, como um médico a chamou após a cirurgia, passar da ameaça à ação, marcando a consulta com uma cardiologista, Maria de Fátima Castro, que ela escolheu numa roleta russa: abriu o livrinho ao acaso e bateu os olhos na filha do saudoso jornalista Elmano Castro, fundador da Tribuna da Bahia.

Sem dor, com amor

Os exames ergonométrico e cintilográfico apontaram. E o categórico cateterismo (Ah quantos médicos corri em busca de algum que dissesse que não haveria necessidade!) feito pelo doutor Heitor de Carvalho, o “papa da hemodinâmica”, como já ouvi o chamarem, atestou irretorquível  a dimensão do problema. Sentindo-me muito bem, sem uma dorzinha qualquer, eu tinha uma artéria totalmente obstruída e as outras duas em níveis que variavam de 75% a 95%.

Assim, me internei em 16 de março (Ah quantos médicos, inclusive Heitor de Carvalho, corri em busca de algum que dissesse que meu caso poderia ser resolvido com angioplastia!), e no dia 17 fui operado pelo recomendadíssimo cirurgião Nilzo Ribeiro (nunca vi tanta unanimidade em torno de uma pessoa), no Hospital Aliança, onde fiquei até o dia da alta, 26 março de 2009, uma quinta-feira-feira de sol mais brilhante do que nesta opaca Quinta da Paixão que escrevo – renascido pelo amor e pelo instinto de Marília, que também me fez parar de fumar há 11 anos e acaba  de evitar, novamente por instinto, o progresso do aumento de  líquido no meu coração neste período pós-operatório.

Esta é outra história que conto depois.  Sei que prometi não fazê-lo, mas desculpe, minha comunista instintiva,  o “ex-primeiro damo” não pode esconder.

Obrigado, meu amor!