Coisas do Coração

Amaciando a máquina com pijama curto

Posted in Coração by adilson borges on 9 de junho de 2009

pijama 3 Depois de assistir a uma estripulia que executei no hospital poucos dias após a cirurgia que inaugurou em meu peito duas pontes de safena e uma mamária, o técnico em enfermagem Dêison França deu-me um sábio conselho: “Vá devagar, seu Adilson, a máquina está nova, tem que ser amaciada antes de pisar fundo”.

 Um parêntese. Atendendo a pedidos de pacientes leitores, voltamos ao tema do coração, razão primeira deste blog, que se permite divagar por outras áreas. Nesta volta, temos a satisfação de fazer homenagem ao trabalhador de saúde desconhecido, um profissional tão importante quanto desvalorizado neste país que ainda está se lixando para os trabalhadores. Fecha parêntese.

 A tentativa de remover uma mesa pesada, apesar das rodinhas na base, me causou uma dor, insuportável e difusa, em todo o tronco. A atitude louca que surpreendeu o técnico causou espécie, como se dizia antigamente, em mim também. A discrepância entre os desejos e os limites do corpo, apesar de frequente na história dos humanos, sempre provoca espanto. E na maioria das vezes humilha, mas deixa boas lições contra a onipotência…

Pacientes e superpacientes

Com jeito de técnico e nome de jogador de futebol, Dêison França descreveu-me a diversidade de comportamento no pós-operatório de pessoas que passaram pela cirurgia de ponte de safena e mamária. Há quem levante, no dia seguinte à chegada ao apartamento, após a saída da unidade de tratamento intensivo. Mas há também quem, temeroso de que os pontos da cirurgia se desmanchem como cadarços de tênis de adolescente, queira ficar 15 dias de molho, o que retarda a recuperação.

 “Cama só para dormir”, este é o lema dos médicos e fisioterapeutas. Se não há nenhuma intercorrência, os revascularizados devem entrar logo em atividades – compatíveis com a situação, é claro, e evitando excessos. Toda a equipe de saúde absorve este conceito, simples, mas indispensável.

Ponta de estoque

“Está pronto para o banho, seu Adilson?”, nos primeiros dias, ouvia de manhã o chamado de Dulcinéia, técnica em enfermagem de quem já falei no texto “O dia da Alta”, um dos primeiros posts deste blog. Ainda na primeira semana, sentindo-me forte, levantei mais cedo, fiz a barba crescida desde a cirurgia, peguei o chuveirinho e me banhei com os jorros delgados da água que, com algum esforço, consegui regular na deliciosa temperatura morna.

Depois de tanto esforço, acomodei-me numa poltrona com um ar de quase felicidade, a despeito da noite maldormida. Barbeado, usava um pijama moderno, mas opressivo principalmente para o tamanho da minha barriga e dos ombros. Mais tarde, Marília, minha mulher, que comprou para mim uma coleção de roupas para usar no hospital, contar-me-ia, sorrindo, a história daquele estranho duas-peças – calça azulada e camisa azul com desenhos alaranjados nas bordas.

 Marília já estava de saída da loja quando viu o preço daquele pijama bonito e em promoção. Fim de estoque, argumentou a vendedora da loja de departamentos. A cliente não resistiu e mandou embrulhar, sem atentar que a calça (grande demais) e a camisa eram (como dizer?) incompatíveis.

 A frase

 Dulce, como gosta de ser chamada Dulcinéia, chegou e me encontrou orgulhoso pela autonomia da barba e o banho da independência. “Oi, Dulce, hoje não vou precisar de você”, salientei, com a vaidade de quem tem certeza de que merece elogios. Que legal, reagiu, discreta e amavelmente, ao arrumar a cama.

 Na saída, no entanto, olhou atentamente para a blusa apertadinha, com bainhas cor de sukita de laranja, bem gelada. Foi obrigada, então, a morder os lábios para não gargalhar. Situação controlada, a baiana Dulce esboçou apenas leve sorriso em direção ao paciente. Mas deixou escapar frase com gíria da moda na periferia de Salvador: “Com este pijama, seu Adilson está todo se bulino!”

7 Respostas

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  1. Damile said, on 9 de junho de 2009 at 12:27

    hehehehehehe
    A cara de Marília fazer isso! Outro dia estavam aqui em casa mainha e minha avó trocando os pés de umas pantufas que ganharam no dia das mães. Um par tinha um pé maior que o outro e o outro par tinham duas pantufas do mesmo pé!
    Essa Marília… rsrsrsrsrsrs
    Meio avoadinha mesmo essa minha tia…

    • adilson borges said, on 10 de junho de 2009 at 01:02

      Faz isso com ela, não, coitada! he,he,he

  2. Emiliano said, on 9 de junho de 2009 at 21:20

    Sou testemunha ocular do pijama baby look. Confesso que a cena não era muito boa, mas fazia sucesso (no canto de boca) no corredor de piso liso quase espelhado do hospital.
    Parecia Superman com doses de kriptonita, andar lento, olhar distante, pijama colada ao corpo.

    • adilson borges said, on 10 de junho de 2009 at 01:01

      Lembro de sua frase: “Com este pijama apertadinho , está parecendo um super-heroi!”

  3. Adelzuita said, on 10 de junho de 2009 at 01:53

    Trabalhadores de saúde: alguns são verdadeiros anjos da guarda com quem contamos nas horas t ão delicadas em nossa vida.

  4. Beto de Del said, on 17 de junho de 2009 at 09:20

    Tenho uma teoria sobre o tal pijama: Penso que Marília comprou, de modo proposital, a camisa bem apertada objetivando contribuir para uma rápida recuperação do paciente; raciocinou que apertando as veias (não as “véias”) poderia evitar algum vazamento provocado por algum ponto frágil na sutura.

    • adilson borges said, on 17 de junho de 2009 at 23:07

      Graças à intervenção do doutor Beto de Del, o mistério foi decifrado.
      Valeu companheiro!


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