Coisas do Coração

O dia da alta

Posted in Coração, saúde by adilson borges on 29 de março de 2009

Adilson Borges

(Para a Galeota e outras turmas)

Eram 9h45 do dia 26 de março de 2009 quando o cardiologista Eduardo Novais, da equipe do cirurgião Nilzo Ribeiro,  chegou ao apartamento 147 do hospital . Com os olhos rasos dágua, fez pose de Bial e proclamou: “Adilson Borges, tenho uma péssima noticia para você: Você está eliminado do Big Brother do Aliança”. Abracei-o com força e dei um beijo na bochecha cheirosa e raspada.
Olhos ainda inundados, segurou minha mão e ficou alisando com tanto carinho como jamais um homem fizera. “Você está curado. Aqui estão os resultados dos últimos exames”, mostrou os envelopes. “Você está curado, curado”, repetia, repetia , com um entusiasmo de quem já sabia e ao mesmo tempo parecia não saber. “Você está de alta , vai viver uma vida sem limite, quando digo sem limite é sem limite mesmo, poderá jogar bola, lutar boxe e até fazer jumping, tudo a seu tempo após o período de recuperação da cirurgia”, exaltava-se ao seu modo sereno.
“Curado, curado e 50% da cura foi feita por sua mulher”, apontou para a assistente social Marília Menezes Pessoa, de 38 anos. O nariz de Marília se transformou num pimentão vermelho drenando líquido igual ao minúsculo e derradeiro ferimento de meu corpo, o da perna direita de onde saíram as duas pontes de safena que a enfermeira cobria respeitosamente

A  mãe de Rosalvo

Dulcinéia, a técnica de enfermagem que cuidava de mim toda manhã quase com o mesmo amor e ciúme que tem do filho Rosalvo, de 19 anos, apareceu com a cadeira- de- rodas, sorriu com aqueles olhos castanhos e jogou o linguajar especifico. “É sempre assim, chegam todo molinho, tenho até de dar banho. Quando ficam durinhos, começam a esconder o corpo e logo depois vão embora. Vambora, seu Adilson”.

Cuspe , lágrimas e reflexão

Quando a cadeira deslizou pela recepção, fiz o maior sucesso, entre a turma da área de saúde e pessoal de apoio. Entusiamado, comecei a soluçar pedaço de um poema que aprendi quando ainda não sabia chorar:

“Jamais gostei das despedidas / Elas sempre me deixaram saudade / mesmo quando era imensa a vontade de partir” .

 Dulcinéia jogou os olhos para mim, emocionada. “Acho que é de um cara chamado Dirceu Régis”, balbuciei. “Mas é lindo, cara! Este seu Adilson!” Com a boca cheia de cuspe e lágrima retruquei: “Esta Dulcineia!”. Toda doçura, Marília alisou meus cabelos e botou a mão no ombro dela.
Marcos, o auxiliar de enfermagem com cara de tocador de cavaquinho, estendeu a mão e me balançou o braço do lado direito da forma que , quando de bom-humor, eu ironizava : “Ainda bem que não é lado da mamária”. Me deu vontade de um abraço e talvez de um beijo naquela pele preta luzidia. Mas teria que tirar a manta (tinha manta? Acho que não) esticar a perna magoada, levantar da cadeira. Preferi a autoironia silenciosa:

“Chega de beijo em homem, isto tá parecendo viadagem”.

24 Respostas

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  1. Damile said, on 29 de março de 2009 at 21:48

    Oi Adilson! Parabéns pela coragem, pela força, sensibilidade e humor que lhe são característicos.
    Aproveite bastante o seu novo blog!
    Beijos!
    Damile

  2. adilson borges said, on 29 de março de 2009 at 22:29

    Ao ler seu relato confesso que fiquei bastante emocionado. Percebi que o corte no tórax e as alterações causadas pela intervenção cirúrgica, foram no corpo físico e não abalaram em nada seus dotes espirituais e intelectuais, como a expressividade da escrita.
    Observei o texto desde o comecinho e como me emocionei, chorei e me senti tocado por sua maneira simples e honesta de falar sobre fatos, demonstrando muita sensibilidade. Existem pessoas que admiramos ou pelo talento ou pela força, te admiro pelas duas coisas. Essa força que temos que ter quando deparamos com situações que nos dão medo. E você demonstrou muita força ao passar coragem e amor para as pessoas que o acompanharam no processo enfrentado.
    O amor é imensurável e nos melhora, nos transforma. Sempre tão preciso o que escreves, Cuco. Sempre tão cheio de poesia. Se tivestes uma armadura além do coração, deveria ser em forma de capa de livro, porque você consegue transformar até o medo em ensinamento. És um artista sábio, és um “cafetino da língua portuguesa”, com suas frases ora duras, porém sempre delicadas e amorosas. Teus escritos sempre emocionam e deixam rastros em mim. Com certeza vamos comemorar brevemente juntos. Como diz a poesia:
    “ A gente vai fazer um carnaval
    Uma alegria, amor sem fim
    Oh meu anjo bom, quero você perto de mim”

    Deus te abençoe muito e te mantenha sempre assim, alegre, bonito, cuidadoso, amoroso e com esse dom maravilhoso de escrever!
    Um grande e afetuoso beijo.
    Saulo Borges.

    • adilson borges said, on 30 de março de 2009 at 18:34

      Por e-mail

      De Ludimilla Duarte:

      E-mo-cio-nan-te!

  3. Paulo Oliveira said, on 29 de março de 2009 at 22:51

    (7:33 PM) Paulo Oliveira (editor de fechamento do jornal A TARDE (Salvador) via spark – correio eletronico corporativo ):
    “Fantástico. Valia até uma matéria sobre pontes de safena para o texto do Adilson sair no jornal”

  4. Maíza Andrade said, on 29 de março de 2009 at 22:56

    (7:28 PM) Maiza de Andrade (repórter do jornal ATARDE, de Salvador (Bahia), em comentário via spark , corrreio eletronico corporativo :
    “batuta, esse Adilson né?”

  5. adilson borges said, on 29 de março de 2009 at 23:07

    De Marly Pessoa (professora e pedagoga) por e-mail:

    “Oi Adilson,

    Acredito que deve ter sido maravilhoso ouvir o médico falar estas palavras. Que vc tenha muitos e muitos anos de vida com muita saúde. Acho que agora começa o seu ano de verdade. Feliz coração novo!!!!

    Abraços,

    Marly

    • adilson borges said, on 31 de março de 2009 at 14:01

      Grande Marly, que deu o voto de minerva na pesquisa sobre o nome do blog.

  6. adilson borges said, on 29 de março de 2009 at 23:12

    Da redação do jornal A TARDE (Salvador, Bahia), em comentários pelo spark, correio eletrônico empresarial :

    (7:33 PM) Paulo Oliveira ( editor de fechamento):
    ” Fantástico. Valia até uma matéria sobre pontes de safena para o texto do Adilson sair no jornal”

    (7:26 PM) Marjorie Moura (reporter):
    “Esta história de viadagem é a cara dele, né?”

    (7:28 PM) Maiza de Andrade (reporter):
    “Batuta, esse Adilson né?”

    (7:31 PM) Cau Gomes (artista plástico e caricaturista):
    “Massa!!! acho que o Adilson agora tem um pouquim do meu sangue tb, he,he,he! valeu demais…nunca tinha doado sangue…”

    (7:33 PM) Dilton Cardoso (editor):
    “Um belo registro, deveras comovente e, como não poderia deixar de ser, com medidas exatas de bom humor. Adilson, que Deus o abençoe e traga de volta ao nosso dia a dia… não pelo trabalho, que isto é o óbvio, mas por sua presença enchendo a redação. E como diria a Bíblia, tudo tem o seu tempo “Há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou; Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar; Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar; Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar; Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora; Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar; Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz. Agora, Adilson, é tempo de você se recuperar e voltar 100% “.

    (7:34 PM) Josélia Ribeiro ( editora):
    “Menina, eu sempre acreditei que, em cada jornalista (de verdade), existe um cronista, às vezes, também poeta. Agora, tenho certeza. Vou pra casa feliz, duplamente (porque ele está bem e pelo texto que acabo de ler)”

    Cassandra Barteló (editora):
    “Este seu Adilson!”

  7. saulo borges said, on 30 de março de 2009 at 12:04

    ótima iniciativa

  8. adilson borges said, on 30 de março de 2009 at 18:30

    Por e-mail

    De Biaggio Talento (jornalista) :

    Caro Dom Quixote, cê encontrou até uma Dulcinéia postiça, embora a verdadeira
    mereça, certamente, seus préstitos eternos pois salvou-lhe a vida. Só
    lhe resta agora esperar a ponte Salvador/Ilhéus ficar pronta e aproveitar ainda mais a
    vida, como recomendou o doutor. Um abraço companheiro.

    De Adelzuita (professora)
    NÃO TENHO CAMINHO NOVO. O QUE TENHO DE NOVO É O JEITO DE CAMINHAR.[THIAGO DE MELO].
    BEIJOS

    De Thyana ( estudante de Direito)

    Painho, O bom de um livro é nos fazer viajar em cada página, mesmo que em experiências não desejadas…Por isso acredito que seu futuro e já esperado livro, esteja condenado ao sucesso.Vê-lo bem e feliz, me faz pensar que a importância da palavra está além do sinto, do penso ou deixo entender. Está no no que aprendi quando chegou setembro e “atropelei” a vida de dois jovens,num dia de quarta-feira:EU TE AMO !!!!!!!! Beijos,Thyana

  9. Paulo Alves said, on 31 de março de 2009 at 09:30

    Ok, Coisas do Coração. Mas com deditos de poeta. Abração.

    • adilson borges said, on 31 de março de 2009 at 14:04

      Oh, Paulão, que bom ver você por aqui. Saudade. Deixe meus deditos em paz. Eles serão alvo de um texto que farei por conta de um episódio no periodo que passei internado.

  10. paulo dantao said, on 1 de abril de 2009 at 09:53

    Porque você é poeta, meu caro. Sobretudo por isso. Mais uma chance para que você retome o poema que não foi feito ainda. E a música. Talvez a mensagem seja esta.
    E não custa nada lembrar-se de Alvares de Azevedo:
    Coração, por que tremes?
    Vejo a morte,ali, vem lazarenta e desdentada…
    Que noiva!… E devo então dormir com ela?
    Se ela ao menos dormisse mascarada!

    “Não foi por falta de aviso que voce fez isso, eu bem que avisei.
    O poeta sofre muito, mas o gozo vale o risco, não espera virar pó” (he, he).

  11. Socorro said, on 4 de abril de 2009 at 18:52

    “Jamais gostei das despedidas / Elas sempre me deixaram saudade / mesmo quando era imensa a vontade de partir” . Mas, menino, te conheço há tanto tempo, sei que temos tantas coisas em comum – e muitas outras em que discordamos completamente – mas não sabia que você também não gosta de despedidas. Perfeito este poema.
    Mas agora estou feliz em poder te encontrar novamente. Poder discutir contigo. Rir das suas piadas. Quem sabe ouvir aqui o teu violão. E lembrar de um outro tempo. Bom, mas outro. Andei passeando pelo blog. Chorei um tantinho. Ri um bocado. E até encontrei outros amigos. Quase uma mesa de bar. Daqueles tipo fundo de quintal perdido entre a Cidade Nova e a Caixa Dágua onde vocês comiam mocotó. Lembra? E o de Chico, em Brotas? Ê vida boa…
    Uma hora dessas vou te ver. Não sou muito boa pra essas coisas de visita. Você sabe, tem a rede… Mas vocês estão sempre muito perto. No meu coração, vocês ocupam um lugar muito especial. Não só os três. Os seis. Falar nisso, coloca uma foto dos “meninos” no blog…

    • adilson borges said, on 4 de abril de 2009 at 21:23

      Tou proibido de usar o blog até amanhã. mas tenho tanto pra lhe falar, beijo e saudade.
      fiz uma musica, hoje, que você vai adorar

  12. Claudia Alessandra said, on 8 de abril de 2009 at 15:32

    Caríssimo companheiro Adilson.
    Você, que já me emocionava com a sua música, agora me emociona com a sua história.
    Estou muito feliz com a sua rápida recuperação, coisa que, áliás, nunca duvidei. A vida não te daria uma nova chance em vão. Caberá a você decifrar a mensagem enviada… Espero que, em breve, estejamos entre amigos, animando um daqueles nossos divertidos encontros; cantando aquela música que faz com nos lembremos um do outro, sempre que a escutamos: “canção de amor”. Alguns até que tentam, mas não conseguem chegar aos pés da nossa dobradinha, às vezes até atrapalham.
    Volta logo, amigão!Sentimos muito a sua falta no aniversário de 40 anos de Bel. Te proíbo faltar no meu, tá ok?
    Beijos fraternos.
    Claudia Alessandra

    • adilson borges said, on 8 de abril de 2009 at 15:44

      Que bom. Este blog é nosso. apareça. Estaremos juntos mais cedo do que podemos imaginar e de novo cantaremos: “Saudade, torrentes de paixões, emoções diferentes que aniquilam a vida da gente”. Um grande beijo

  13. Beth Borges said, on 9 de abril de 2009 at 09:13

    Querido Adilson
    Que bom que deu tudo certo e que seu “renascimento” seja de renovação total para garantir uma vida longa: precisamos da sua poesia, sensibilidade e inteligência para nos afirmar a condição de humanidade.
    Soube muito pouco do processo, sua linda mulher soube fazer tudo e abusou pouco das amigas… estive perto energeticamente, mentalizando que tudo corresse bem e que vc estaria a sorrir de todo o trauma; creio na tua força e energia positiva e também nos afetos que te cercam.
    Só não esperava um Blog! que boa idéia… Adorei! E mais, crônicas e música…
    Nos veremos tão logo. Já estou com vontade de ouvir teu violão. Bjs em Marília e Chico.
    Abraço forte e fraterno.
    Beth e Fernando

    • adilson borges said, on 9 de abril de 2009 at 10:05

      Saudade, minha irmãzinha, até de sobrenome.
      Emociono-me ao pensar na última vez que nos vimos, em Imbassahy. No Sítio da Fonte, do seu conterrâneo Beto Pitombo, com vinho, violão, champanha e chico na piscina.
      Eu ainda não sabia do estado do meu coração, mas já estava liberado o resultado do exame de rotina (peguei-o depois das festas de fim de ano), feito por insistência de minha linda e “instintiva” mulher e que começaria a mudar radicalmente minha vida!
      Obrigado a você e Fernando. Apareçam

  14. Diana Tourinho said, on 10 de abril de 2009 at 22:26

    Adilson,
    Acompanhei a sua vitória através de amigos comuns do extinto Jornal da Bahia.Estou feliz por sua recuperação e seu renascimento.O tempo tem tempo para tudo. Principalmente para renascer.
    Excelente idéia a do blog. Grande e afetuoso abraço,
    Diana Tourinho

  15. Diana Tourinho said, on 10 de abril de 2009 at 22:27

    Adilson,
    Acompanhei a sua vitória através de amigos comuns do extinto Jornal da Bahia.Estou feliz por sua recuperação.O tempo tem tempo para tudo. Principalmente para renascer.
    Excelente idéia a do blog. Grande e afetuoso abraço,
    Diana Tourinho

    • adilson borges said, on 23 de abril de 2009 at 22:49

      Diana, só agora vi o seu comentário. O louco do blog botou como se fosse spam. Lembro de você com muito afeto. Pena que nos vejamos tão pouco. Um beijo.

  16. Luiz Augusto dos Santos said, on 15 de abril de 2009 at 08:46

    Adilson,

    Meu sogro sempre dizia que médico era para mulher e criança. Ledo engano, falácia pura.Ponto de vista equivocado. Preconceito exagerado. Coisa oca sem fundamento. Mas meu sogro (já morreu há uns trinta e tantos anos) foi vítima dos seus próprios comentários. Quando foi ao médico já era tarde. A diabetes levou o homem para o que dizem “altar de cima”.
    Sempre tive medo de médico, porque diziam que médico só faz descobrir doenças na gente. Poxa, quanta descortesia e sacanagem com o profissional…
    Diferentemente do meu sogro, não tenho ido rotineiramente ao médico, mas de vez em quando dou com as caras no consultório dele. A última foi para fazer exame de próstata. Agora, depois do que aconteceu com você, vou correndo ao cardiologista.

  17. adilson borges said, on 15 de abril de 2009 at 10:04

    Não vá correndo, não, L.A. Marque e vá tranquilo. Vejo, com alegria, que nosso papo foi proveitoso! Cuidando-se , você aproveita as coisas boas e as indispensáveis da vida.
    Um abraço para você, companheiro de longa jornada! Recomendações a Joana!


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