Coisas do Coração

Perdi o direito de me matar

Posted in Coração by adilson borges on 9 de agosto de 2009
Manhã geada em Monte Verde ( Minas Gerais)

Manhã geada em Monte Verde ( Minas Gerais)

ferias 2009 são paulo, monte verde e rio 19jun a 4 julho 296Voltar  a trabalhar após quatro meses, somadas  licença e férias, foi como concluir um rito de passagem. Tudo parece novo e  transborda entusiasmo, apesar dos velhos e desgastantes problemas, que ficam mais evidentes para quem se reencontra com a rotina após momentos inesquecíveis. Momentos de medo, dúvidas e  dores concretas,  prazeres intransferíveis, deliciosas viagens, dias e noites de maravilhas.

Tudo é realmente novo e entusiasma, não é só aparência. O corpo, este fardo que arrastamos  pela vida,  está mais leve. Nada a ver com a cirurgia de pontes de safena e mamária, talvez seja consequência de maior cuidado com a alimentação e das longas e agradáveis caminhadas diárias.

Mantido há cerca de 15 anos,  o ritual matutino do remédio para controle da pressão já parece anacrônico.  Nada a ver com a cirurgia do coração. Os médicos, sem segurança aparente, explicavam que  o surpreendente equilíbrio teria a ver com a perda de peso e com a distância da “vida real”. A volta à “realidade”, portanto, exige  especial atenção ao tensiômetro. 

 Menos de um mês no campo de batalha da redação política pode ser pouco para conclusão,  mas até agora, se não são excelentes como no mapeamento de 24 horas, realizado àsvésperas do retorno,  as medidas merecem comemoração: 130 X 80, 140 X 90, 130 X 80, 120 X 8.

São, portanto, cerca de 180 dias sem remédio para pressão. Apesar do recorde admirável, o alerta será mantido, com medições pelo menos a cada  três dias neste primeiro mês da volta ao mar revolto.  Se houver alteração, retoma-se o rito matinal, sem problema. Pílula não dói. E viva a realidade. 

 Feia ou bonita,  dela não se pode escapar.

Minuto da filosofia: 

 Salvar minha vida foi muito doloroso e caro. Perdi o direito moral de me matar.

(Adilson Borges)

Amaciando a máquina com pijama curto

Posted in Coração by adilson borges on 9 de junho de 2009

pijama 3 Depois de assistir a uma estripulia que executei no hospital poucos dias após a cirurgia que inaugurou em meu peito duas pontes de safena e uma mamária, o técnico em enfermagem Dêison França deu-me um sábio conselho: “Vá devagar, seu Adilson, a máquina está nova, tem que ser amaciada antes de pisar fundo”.

 Um parêntese. Atendendo a pedidos de pacientes leitores, voltamos ao tema do coração, razão primeira deste blog, que se permite divagar por outras áreas. Nesta volta, temos a satisfação de fazer homenagem ao trabalhador de saúde desconhecido, um profissional tão importante quanto desvalorizado neste país que ainda está se lixando para os trabalhadores. Fecha parêntese.

 A tentativa de remover uma mesa pesada, apesar das rodinhas na base, me causou uma dor, insuportável e difusa, em todo o tronco. A atitude louca que surpreendeu o técnico causou espécie, como se dizia antigamente, em mim também. A discrepância entre os desejos e os limites do corpo, apesar de frequente na história dos humanos, sempre provoca espanto. E na maioria das vezes humilha, mas deixa boas lições contra a onipotência…

Pacientes e superpacientes

Com jeito de técnico e nome de jogador de futebol, Dêison França descreveu-me a diversidade de comportamento no pós-operatório de pessoas que passaram pela cirurgia de ponte de safena e mamária. Há quem levante, no dia seguinte à chegada ao apartamento, após a saída da unidade de tratamento intensivo. Mas há também quem, temeroso de que os pontos da cirurgia se desmanchem como cadarços de tênis de adolescente, queira ficar 15 dias de molho, o que retarda a recuperação.

 “Cama só para dormir”, este é o lema dos médicos e fisioterapeutas. Se não há nenhuma intercorrência, os revascularizados devem entrar logo em atividades – compatíveis com a situação, é claro, e evitando excessos. Toda a equipe de saúde absorve este conceito, simples, mas indispensável.

Ponta de estoque

“Está pronto para o banho, seu Adilson?”, nos primeiros dias, ouvia de manhã o chamado de Dulcinéia, técnica em enfermagem de quem já falei no texto “O dia da Alta”, um dos primeiros posts deste blog. Ainda na primeira semana, sentindo-me forte, levantei mais cedo, fiz a barba crescida desde a cirurgia, peguei o chuveirinho e me banhei com os jorros delgados da água que, com algum esforço, consegui regular na deliciosa temperatura morna.

Depois de tanto esforço, acomodei-me numa poltrona com um ar de quase felicidade, a despeito da noite maldormida. Barbeado, usava um pijama moderno, mas opressivo principalmente para o tamanho da minha barriga e dos ombros. Mais tarde, Marília, minha mulher, que comprou para mim uma coleção de roupas para usar no hospital, contar-me-ia, sorrindo, a história daquele estranho duas-peças – calça azulada e camisa azul com desenhos alaranjados nas bordas.

 Marília já estava de saída da loja quando viu o preço daquele pijama bonito e em promoção. Fim de estoque, argumentou a vendedora da loja de departamentos. A cliente não resistiu e mandou embrulhar, sem atentar que a calça (grande demais) e a camisa eram (como dizer?) incompatíveis.

 A frase

 Dulce, como gosta de ser chamada Dulcinéia, chegou e me encontrou orgulhoso pela autonomia da barba e o banho da independência. “Oi, Dulce, hoje não vou precisar de você”, salientei, com a vaidade de quem tem certeza de que merece elogios. Que legal, reagiu, discreta e amavelmente, ao arrumar a cama.

 Na saída, no entanto, olhou atentamente para a blusa apertadinha, com bainhas cor de sukita de laranja, bem gelada. Foi obrigada, então, a morder os lábios para não gargalhar. Situação controlada, a baiana Dulce esboçou apenas leve sorriso em direção ao paciente. Mas deixou escapar frase com gíria da moda na periferia de Salvador: “Com este pijama, seu Adilson está todo se bulino!”

Edição especial sobre sexualidade

Posted in Coração by adilson borges on 17 de abril de 2009

Hoje (17.04),  faz um mês que fui submetido à cirurgia para implantação de pontes de safena e mamária.  Por isso, o blog Coisas do Coração apresenta uma edição especial sobre um tema tão importante quanto polêmico, a sexualidade no período  pós-operatório.

Abrimos o debate com duas historinhas baseadas em fatos reais, mas com nomes fictícios. A unidade dos textos “O dançarino erótico” e  ” O drama de Lussen” é realçada pelo comportamento dos personagens frente à necessidade sexual em um momento difícil  da existência.  

Em seguida, apresentamos, informalmente, a opinião do cirurgião Nilzo Ribeiro e do cardiologista Eduardo Novaes, da equipe que já operou milhares de pessoas do Brasil e, sobretudo, da Bahia, inclusive o autor deste blog.  Sobre o tema, ouvimos ainda o cardiologista Juarez Magalhães Brito. O leque amplia-se, portanto, sobre o que se pode chamar de três gerações empenhadas no trabalho para que nosso coração pulse mais e melhor.  

Por fim, publicamos um estudo acadêmico produzido pelas profissionais de enfermagem Rosana Aparecida Spadoti Dantas, Olga Maimoni Aguillar e Claúdia B. dos Santos Barbeira sobre o retorno ao trabalho e às atividades sexuais após a revascularização do miocárdio (ponte de safena, mamária).

Trata-se de um estudo desenvolvido no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, estado de São Paulo. Cremos, no entanto, que as importantes (e preocupantes) conclusões servem de parâmetro para o todo o País.

Grato pela atenção (Adilson Borges)

O dançarino erótico

Posted in Coração, doação de sangue, saúde by adilson borges on 16 de abril de 2009

margaridasss1 “Será que  botaram o fio da cabeça no coração dele”?  margariuda1A empregada está desconfiada desde que o homem voltou para casa. “Ele tá muito diferente, dona Ridan. Seu Lirdau não era assim não antes da cirurgia”, cochicha com a sogra do patrão, na cozinha com cheiro de coentro, ensopado de peixe e pirão.

Dona Ridan enxuga as mãos e corre para o quarto.  Reparte o segredo com a filha, a mulher do homem que dança sozinho na sala, bermuda enorme, pendurada entre a barriga e o púbis, de onde sai uma margarida amarela, desgarrada do enorme buquê com que ele foi recebido ao voltar do hospital. Quando recebeu alta.  

 

Mãe e filha vão para a cozinha, preocupadas que o peixe, a abóbora e o quiabo cozinhem demais. E dão uma espiada no homem. A música negra geme na sala e ele se contorce, malicioso. Sozinho e sozinho. “O que é isso, rapaz? Tem gente aqui”, diz a filha, com a boca sem áudio, ajudada com gestos de mão. Briga, achando engraçado.

O dançarino parece não ouvir. Às vezes faz um impossível solo na guitarra presa no canal de música da TV a cabo. Outras, faz pirueta ousada para quem está no pós-operatório. Quase sempre é castigado com uma fisgada no peito e faz careta de dor. E assim fica até que é chamado para comer o ensopado na panela de barro em forma de peixe.

Antes de sentar, faz uma reverência, olhando paciente para a filha e a mãe. Depois, tira a margarida do pélvis, beija e entrega à mulher.  “Que tá havendo com este homem, meu deus?”, pensa a mulher, agora inquieta. A empregada ajuda mãe e filha a botarem a mesa. Depois, sai da sala e vai ao quarto pegar o celular com a ligação esperada neste sábado.  Antes de atender, conclui o que era dúvida:

“ Botaram o fio da cabeça no coração dele! Coitado de seu Lirdau!”

 

O drama de Lussen

Posted in Coração by adilson borges on 16 de abril de 2009

 morango 

Música suave, velinhas na mesa, taças grandes de cristal com tinto chileno, couvert simples, mas elegante, com patês, pães quentinhos, azeitonas pretas e guardanapos imaculados. “Nós merecemos isso”, pensou o médico olhando orgulhoso para a mulher bonita, perfume discreto, nenhuma competição com a uva carmenére do vinho naquela sexta-feira, 23h30.  

 

A língua de morango molha a boca madura, sedutora, antes de insinuar: “É melhor atender, é a terceira vez que vibra”. De má vontade, ele pega o nokia. “Desculpe, amor, é paciente, vou tentar ser rápido”, pisca os olhos. Ambos sorriem.

 

Boa noite, seu Lussen. Como está? Algum problema?

Boa doutor, não queria incomodar, mas hoje faz 18 dias que tive alta e estou com uma dúvida…

  Pois não…

Não repare, não, doutor, mas eu queria saber se posso me masturbar!

 

 

A hora de voltar ao sexo

Posted in Coração by adilson borges on 16 de abril de 2009

 

A quarentena sexual do revascularizado é tema de debate entre os médicos. Há que ache que deve durar, literalmente, uma quarentena. Os mais avançados, geralmente cirurgiões, como o doutor Nilzo Ribeiro (65 anos), acham 40 dias ou mesmo 30 dias um prazo muito longo. Estando tudo bem, 18, 20 dias depois da cirurgia, segundo ele, os jogos já podem começar.

“Ele diz que sou conservador”, defende-se o cardiologista Eduardo Novaes (45 anos e da equipe de Nilzo), que estabelece pelo menos um mês para práticas sexuais. O mesmo período recomendado pelo cardiologista Juarez Brito, 54 anos.

Mas Nilzo, Novaes e Brito concordam que o reinício sexual tem que ser leve. Além disso, o pós-operado (a) deve ficar em posição mais relaxada, com a parceira (o) fazendo o grosso do que eles chamam de “trabalho mecânico”.  A verdade que muitos (como na história abaixo) apelam para alternativas como masturbação, o que lhe permite teoricamente total controle da situação. No entanto, é claro que tudo deve ser combinado com o médico assistente. E que cada caso é um caso.

Se o paciente apresenta intercorrências como derrame pleural ou no coração, recomenda-se repouso até reabsorção dos líquidos pelo organismo. Se, por exemplo, a resposta medicamentosa demora, o período de abstinência pode ser maior.

Há ainda casos de paciente que teme qualquer contato de outrem com a cicatriz deixada pela ponte de safena. Estão sempre com a mão à frente, em movimentos que lembram um escudo.  O comportamento certamente influencia na libido dele e da parceira (o), que não sabe até onde podem ir. Neste caso, a vida sexual, pode ser também retardada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Estudo sobre a vida sexual e trabalho no pós-operatório

Posted in Coração by adilson borges on 16 de abril de 2009

 Dantas RAS, Aguillar OM, Barbeira CBS. Retorno às atividades ocupacionais e sexuais após cirurgia de revascularização do miocárdio.

 

Através de estudo prospectivo e longitudinal acompanhamos o retorno ao trabalho e às atividades sexuais de 17 homens (35 a 73 anos) após revascularização do miocárdio. Dados foram coletados através de entrevistas e transcritos em notas de campo desde a internação até o sexto mês após a alta.

Dos 14 pacientes que relataram atividades ocupacionais e sexuais antes da rurgia, apenas 8 retornaram ao trabalho (p = 0,016) e 10 à vida sexual (p = 625). Concluindo, houve mudança de atitude para o não retorno ao trabalho e tendência ao não retorno à vida sexual na população estudada.

PALAVRAS CHAVE: revascularização miocárdica, trabalho, sexualidade

RETURN TO OCCUPATIONAL AND SEXUAL ACTIVITY AFTER CORONARY ARTERY BYPASS SURGERY

prospective and longitudinal design was used to follow up the return to occupational and sexual activity among 17 males after coronary bypass surgery. The subjects’ ages ranged from 35 to 73 years. Data collection was performed by using open interviews which were recorded in field notes during hospitalization after heart surgery and during 6 months following hospital discharge. Of the 14 patients who reported work and sexual activity before surgery, 8 were working again (p = 0.016), and 10 had returned to sexual activity (p = 0.0625). There was change in the subjects’ attitudes leading to not returning to work and tendency to not resuming sexual activity in this population.

KEY WORDS: myocardial revascularization, sexuality, work

 

REGRESO A LAS ACTIVIDADES OCUPACIONALES Y SEXUALES DESPUÉS DE CIRUGÍA DE REVASCULARIZACIÓN DEL MIOCÁRDIO.

 Los datos de 17 hombres (35 a 73 años) después de la revascularización del miocárdio fueron recolectados a través de entrevista y transcritos en las notas de campo desde la hospitalización hasta el sexto mes después de la dada de alta. De los 14 pacientes que relataron actividades ocupacionales y sexuales antes de la cirugía, solamente 8 retornaron al trabajo (p=0.016) y 10 a la vida sexual (p=0.0625). Concluyendo, en la población estudiada hubo un cambio de actitud para el no regreso al trabajo y una tendencia a no regresar a la vida sexual. 

Professor Doutor, e-mail: rsdantas@eerp.usp.br, Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, Centro Colaborador da OMS para Artigo Original

 www.eerp.usp.br/rlaenf

 No nosso dia a dia como enfermeiros, cada vez mais nos defrontamos com pessoas acometidas por doenças cardiovasculares, entre elas a doença arterial coronariana. Esta doença se manifesta na forma clínica de infarto agudo do miocárdio, angina e miocardiopatias e afeta parcela importante da população que se encontra economicamente ativa. De acordo com estudo em pacientes norte-americanos, cerca de 80% das pessoas acometidas retornam aos seus antigos empregos (1).

As variáveis estudadas nas pesquisas que abordam o retorno ao trabalho após eventos cardíacos podem ser categorizadas em: demográficas (idade, sexo, situação sócio-econômica, estado civil e tipo de profissão), psico-sociais (depressão, apoio social, percepção do paciente com relação à sua capacidade de trabalho e sua auto-eficiência) e aquelas relacionadas ao ambiente de trabalho.

Também têm sido abordados os fatores clínicos (gravidade da doença, dor, capacidade funcional e influências do tratamento tais como restrições médicas e efeitos de medicamentos). No entanto, nenhuma destas variáveis tem previsto com sucesso o retorno ao trabalho. De todos os fatores acima citados, aqueles relacionados à atual ocupação do indivíduo ou seu ambiente de trabalho são os que têm recebido menor atenção. Eles incluem satisfação com o emprego, demanda física e tensões da profissão (2) .

Vem sendo constatado que trabalhadores do sexo masculino, com profissões mais intelectuais e com alto status socioeconômico retornam ao trabalho com maior freqüência que os trabalhadores braçais e as pacientes do sexo feminino(3-6).

 Indivíduos com maior apoio social retornam ao trabalho mais rapidamente que aqueles que tiveram menor apoio. Por outro lado, fatores como obrigações familiares e compromissos financeiros podem forçar o retorno mais precoce ao trabalho  

O retorno às atividades sexuais após eventos cardiológicos também tem sido objeto de estudo. Uma ampla proporção de pacientes não retornam à atividade sexual após a ocorrência dadoença. Muitos fatores, incluindo as mudanças fisiológicas já esperadas e decorrentes do processo de envelhecimento, disfunções induzidas por medicamentos e alterações vasculares associadas com fatores de risco (por exemplo, diabetes, hipertensão e dislipidemias), somadas ao impacto emocional da doença cardíaca, podem influenciar a vida sexual destes indivíduos. Estes fatores podem explicar, ao menos parcialmente, a elevada prevalência de disfunção sexual entre pessoas acometidas por doença arterial coronariana (5,8).

 O objetivo desta pesquisa foi investigar o retorno às atividades ocupacionais e sexuais durante os seis primeiros meses após a cirurgia de revascularização do miocárdio (RVM). Este estudo fez parte de uma investigação mais ampla que abordou o processo de reabilitação de pacientes submetidos a um protocolo de assistência de enfermagem para indivíduos revascularizados atendidos em um hospital de ensino brasileiro. Tal pesquisa também avaliou os problemas apresentados após a alta hospitalar, uso de medicamentos, controle dos fatores de risco coronarianos e adesão a  um programa diário de caminhada(9).

 METODOLOGIA

Local e design do estudo: para acompanhar o retorno ao trabalho e à vida sexual optamos por um estudo do tipo prospectivo e longitudinal que foi desenvolvido no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, estado de São Paulo. 

População e amostra: a população constituiu-se de pacientes que foram submetidos à cirurgia de RVM entre os meses de janeiro e maio de 1998. Sujeitos eram considerados inelegíveis para iniciar o estudo baseados nos seguintes critérios de exclusão: a RVM ter sido realizada concomitante com outra cirurgia cardíaca e ter inabilidade para comunicar-se devido a problemas físicos ou emocionais. Durante o período do estudo, 38 pacientes se enquadraram no estudo. Destes pacientes, 6 receberam alta antes de serem contactados pela enfermeira pesquisadora, 4 morreram durante a hospitalização, 3 tiveram complicações pós-cirúrgicas que impediram suas participações no protocolo proposto e 1 tinha deficiência auditiva. Assim, nossa amostra se constituiu de 24 sujeitos, sendo 23 homens. Durante o período de 6 meses de acompanhamento, 6 deles não retornaram às consultas ambulatoriais e tiveram seu processo de acompanhamento interrompido. No final de dezembro de 1998, finalizamos nosso protocolo com 18 pacientes. Como foi possível acompanhar o processo de reabilitação de apenas uma paciente do sexo feminino, decidimos excluí-la da análise final do estudo. Assim, o grupo estudado constitui-se de 17 homens, com idade entre 35 a 73 anos (média de 56 ± 10,9 anos), sendo 15 (88,2%) casados, 14 (82,3%) com primeiro grau incompleto e 16 (94,1%) com renda familiar mensal menor que seis salários mínimos. Quatorze (82,3%) desenvolviam atividades ocupacionais remuneradas antes da cirurgia. Quanto aos aspectos clínicos-cirúrgicos, dois terços (70,6%) da amostra tinha infarto do miocárdio já diagnosticado, 52,9% receberam enxertos mistos e tiveram entre 2 (23,5%) e 3 pontes colocadas (47,0%).

Proteção dos sujeitos envolvidos no estudo: Primeiramente, o projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética da instituição onde se desenvolveu o estudo. Os objetivos do mesmo eram apresentados aos pacientes e familiares durante o período de internação pós-operatória . Com a concordância dos participantes, o termo de consentimento pós-esclarecido era assinado pelos envolvidos (10).

Procedimentos realizados : durante o estudo, os 17 participantes foram seguidos, pela enfermeira pesquisadora, na fase de hospitalização pós-operatória e durante os seis primeiros meses

após a alta. Receberam informações orais e por escrito sobre adoença coronariana, o tratamento cirúrgico e mudanças no estilo de vida visando a promoção da saúde durante a internação e nos retornos ambulatoriais. Os aspectos vivenciados por eles no processo de reabilitação e no retorno às atividades eram discutidos. Esposas e outros membros da família eram encorajados a participar dos encontros, visando auxiliar no processo de resolução dos problemas apresentados, desenvolver conhecimentos e habilidades e prover apoio familiar ao doente.

Coleta dos dados: através de entrevistas abertas foram coletados os dados referentes ao processo de reabilitação cardíaca e relacionados ao retorno ao trabalho e à vida sexual, participaçãoda família em sua recuperação e mudanças no estilo de vida. Para o registro dos dados foi utilizada a técnica de “notas de campo” (11).

Nas notas de campo eram registrados os dados obtidos através da observação participante da pesquisadora nas consultas médicas ambulatoriais e dos diálogos ocorridos entre a enfermeira pesquisadora e os participantes. Não foi estipulado um roteiro predeterminado para os encontros nos ambulatórios uma vez que os aspectos abordados nestas ocasiões eram aqueles trazidos pelos doentes e familiares e que diziam respeito ao processo de reabilitação após a cirurgia.

Análise dos dados : os dados foram analisados através de estatística descritiva e do uso do teste de MacNemar para pequenas freqüências esperadas (teste binomial aplicado à mudanças) para constatar associação entre tempo de reabilitação e o retorno às atividades ocupacionais e sexuais. O nível de significância considerado foi de 5% (á = 0,05).

RESULTADOS

Dos 17 participantes, 14 (82,3%) desempenhavam atividades ocupacionais remuneradas antes da RVM. Tais atividades eram caracterizadas por serem não ou semi-qualificadas e por exigirem esforço físico de média ou alta intensidade para serem executadas. Cinco (35,7% dos 14) trabalhavam na lavoura, 4 (28,5%) atuavam no comércio; 3 (21,4%) na construção civil; 1 (7,1%) era motorista de ônibus e o último (7,1%) era porteiro. Destes 14pacientes, 7 (50%) já eram aposentados mas continuavam a desempenhar atividades remuneradas para aumentar a renda familiar. A realização de atividade ocupacional remunerada antes e seis meses após a RVM está apresentada na Tabela 1. Constatamos que houve mudança de atitude na população estudada para o não retorno às atividades ocupacionais durante o período analisado (p =0,016). Seis meses após a cirurgia, 8 (57,1% dos 14 e 47,0% do total de pacientes) haviam retornado ao trabalho sendo que 5 eram não aposentados com menos de 65 anos de idade, 2 aposentados com mais de 65 anos e 1 aposentado com menos de 65 anos. Em geral, o retorno ocorreu entre o terceiro e o quarto mês de reabilitação.

Tabela 1 – Distribuição dos 17 pacientes revascularizados segundo realização de atividades ocupacionais remuneradas desenvolvidas antes e seis meses após revascularização do miocárdio (RVM) * p = 0,016 (teste de MacNemar)

 

As causas alegadas para o não retorno às atividades ocupacionais foram: desejo da família para que deixassem de trabalhar após a cirurgia; não compensação financeira; opção por aumentar as atividades de lazer; não liberação médica e solicitação da aposentadoria.

O comportamento da realização de atividade sexual antes e seis meses após a cirurgia está apresentada na Tabela 2 Constatamos que houve uma tendência na população estudada de mudar sua atitude com relação às atividades sexuais, não retornando as mesmas após a RVM (p = 0,0625). Dos 17 participantes, 14 (82,3%) alegaram vida sexual ativa antes da revascularização cardíaca.

Destes, 10 (71,4% dos 14 ou 58,9% do total) haviam retornado às atividades sexuais ao término do acompanhamento. Quanto ao período em que se deu este retorno tivemos que 8 (47,0%) pacientes reiniciaram às atividades sexuais dois meses após a RVM e 2 (11,8%) no terceiro mês. Dos 4 pacientes (28,5% dos 14) que não haviam retornado à vida sexual, 2 (14,2%) alegaram a não liberação médica e 2 (14,2%) referiram perda da libido em decorrência dos problemas de saúde.

Tabela 2 – Distribuição dos 17 pacientes revascularizados segundo a realização de atividades sexuais antes e seis meses após revascularização do miocárdio (RVM)* p = 0,0625 (teste de MacNemar)

Os problemas, medos e inseguranças no retorno à vida sexual foram relatados por 2 (14,2%) dos pacientes, os quais alegaram que as esposas estavam nervosas, comprometendo a vida sexual

do casal. Por sua vez, as esposas também apresentavam incertezas, sendo que 5 delas (35,7%) expuseram suas dúvidas durante os nossos encontros, questionando qual seria o melhor período para

reiniciar estas atividades e se havia risco de novo episódio isquêmico. Salientaram o medo de prejudicarem a saúde dos maridos e a perda do desejo sexual em decorrência da situação gerada pela doença e cirurgia. Tais esposas nos relataram que, embora os maridos estivessem querendo reiniciar a vida sexual, elas sentiam-se inseguras pois não se consideravam orientadas sobre este aspecto.

 DISCUSSÃO

Os nossos resultados referentes ao não retorno às atividades ocupacionais e sexuais seis meses após a RVM são pertinentes aos reportados em outros estudos (1,4-5,12)

 Entretanto, em nossa investigação, o alto índice de não retorno ao trabalho pode ser

explicado pelo fato de termos considerados também os pacientes já aposentados entre aqueles que desempenhavam atividades ocupacionais remuneradas por ocasião da cirurgia. Vem sendo demonstrado que pacientes idosos deixam seus trabalhos, mesmo na ausência de sérios problemas de saúde (5,12). Outros motivos podem  ter sido a baixa qualificação profissional dos participantes e a falta de um protocolo médico que uniformizasse os parâmetros clínicos para liberá-los para o trabalho. Tal situação já havia sido detectada entre pacientes brasileiros (4).

 A participação de pacientes em programas de reabilitação cardíaca, com aconselhamento profissional para controle dos fatores de risco e realização de exercícios físicos, venha sendo defendida como um dos aspectos positivos para garantir a capacidade de trabalho dos cardiopatas (12-13). Entretanto, alguns estudos não conseguiram obter diferença, estatisticamente significante, quando compararam os níveis de retorno às atividades ocupacionais e sexuais dos pacientes que participaram destes programas com os níveis dos pacientes que haviam recebido o cuidado usual, ou seja, orientações não sistematizadas e ausência de programa de condicionamento físico (1,7,14-15). 

 O retorno ao trabalho depende de certas condições. Os pacientes podem não voltar às suas atividades quando os sintomas apresentados interferem em seu estilo de vida, quando cedem aos pedidos das esposas, receosas da volta ao trabalho ou quando desejam aumentar o tempo de recuperação pós operatória. Podem optar por não voltarem ao trabalho quando apresentam complicações, são super protegidos por estarem doentes ou quando desconhecem quais são as condições clínicas que caracterizam um comportamento saudável (16). 

 A participação da família no não retorno ao trabalho pôde ser observada durante o nosso estudo. Outro estudo que abordou a influência de familiares e profissionais da saúde na recolocação social de indivíduos revascularizados constatou que, para 42,1% dos pacientes, o médico e a família exerceram um fator essencial para o não retorno (4).

A combinação de uma superproteção familiar dizendo ao paciente o que ele não deve fazer, associado com o médico falhando em instruir o que ele pode fazer resultará em uma prolongada invalidez e falha em reassumir suas atividades profissionais (17).

Com relação a participação do enfermeiro influenciando o retorno dos pacientes ao trabalho, estudo realizado em hospitais públicos brasileiros, observou que tais profissionais e seus auxiliares foram substituídos por psicólogos, nutricionistas e fisioterapeutas nas condutas educativas direcionadas a estes pacientes (18).

 Acreditamos que outros estudos devem ser desenvolvidos para melhor avaliar a atual participação do enfermeiro nessa atividade, não só em hospitais públicos mas também outros locais de saúde. Embora os pacientes acompanhados em nosso estudo tivessem o seguimento da enfermeira-pesquisadora, fornecendo orientações quanto ao retorno às atividades, controle dos fatores de risco e programa diário de caminhadas, não havia uma proposta formal para um acompanhamento multidisciplinar visando a reabilitação cardíaca dos pacientes atendidos por esta instituição. A abordagem multidisciplinar se faz necessária para satisfazer os enfoques multifatoriais da doença coronariana e do seu processo de reabilitação.

Quanto às atividades sexuais após cirurgia de RVM, nossos resultados demonstraram tendência ao não retorno à vida sexual na população estudada. O período em que se deu o retorno é coincidente com o fim da cicatrização da esternotomia, ou seja, em torno de 8 semanas após a cirurgia, e já havia sido constatado como sendo o mais freqüente para se reiniciar estas atividades (19).

Esta situação nos chamou a atenção uma vez que, neste período de 2 a 3 meses após a revascularização, os pacientes geralmente não haviam ainda sido avaliados em um segundo retorno médico. O primeiro retorno após a alta ocorreu cerca de 30 dias e o segundo retorno era marcado no terceiro mês de reabilitação pós-operatória, ou seja, eles reiniciaram tal atividade sem terem sido formalmente liberados pela equipe médica. Quando perguntávamos se haviam retornado às atividades sexuais e se estavam tendo algum tipo de problema todos referiram não terem queixas cardiovasculares ou de qualquer outro tipo. Esta situação nos chamou a atenção uma vez que tal assunto era pouco abordado nas consultas médicas e é sabido que pode haver prejuízo do desempenho sexual entre cardiopatas do sexo masculino e na faixa etária em que se encontravam a maior parte dos sujeitos estudados.

Ressaltamos nossa constatação de que os aspectos relacionados à vida sexual foi pouco discutido entre o médicopaciente-esposa. Muitas vezes tal abordagem era sugerida pela enfermeira-pesquisadora, durante sua participação no retorno médico dos pacientes. Essa nossa observação é semelhante àquela relatada por outro autor brasileiro(18_ em seu estudo. Analisando os relatos de vascularizados acerca das categorias de informações fornecidas pelos profissionais de saúde, ele constatou que as referentes às atividades sexuais foram aquelas abordadas com menor freqüência que às relacionadas ao retorno ao trabalho e a prática de atividades esportivas.

Há inúmeros fatores psicosociais que podem influenciar quando e com que grau de conforto o paciente retorna às atividades sexuais. Após a revascularização do miocárdio ele está sujeito à depressão enquanto ainda está internado ou após retornar ao lar, o que irá afetar seu nível de energia e interesse em reassumir a vida sexual (19. Esta depressão pode durar dias, semanas ou meses e a diminuição da libido, bem com a disfunção erétil ocasional podem ser vividas neste período. Estudo realizado (20) constatou que, 15meses após a RVM, 47% dos pacientes reportaram não mudanças na vida sexual, quase a mesma proporção da soma dos que reportaram diminuição (36%) e abstinência sexual (8%). Outros estudos têm demonstrado uma significante proporção de homens referindo deteriorização da vida sexual após a cirurgia.

Como mostrou nossos resultados, as esposas também podem se sentir emocionalmente abaladas, com receio de prejudicar a saúde do marido e agirem de modo a evitar o retorno à vida sexual. Podem, ainda, superproteger os companheiros ou se ressentir de seus novos encargos no lar.  A combinação de todos estes fatores certamente contribuem para o detrimento da vida do doente mais que a própria doença coronariana (19.

 Ao se discutir disfunção sexual com o paciente cardíaco, o enfoque está quase sempre na disfunçãoerétil masculina. No entanto, a interação entre o casal tem uma relaçãodireta e intensa sobre o nível de atividade sexual a ser determinadae mantida. O estresse envolvido na doença cardíaca e/ou seu tratamento pode exacerbar problemas já existentes entre os parceiros (23).

 CONCLUSÃO

Como conclusão nosso estudo aponta mudança desfavorável de atitude para o não retorno ao trabalho e à vida sexual na população estudada, por motivos variados. Outros fatores, além da doença coronariana, podem influenciar a conduta dos pacientes para não reassumirem estas atividades tais como idade avançada, influência da família, baixo grau de escolaridade e de qualificação profissional. Os pacientes que retornaram às atividades ocupacionais e sexuais o fizeram entre o segundo e terceiro mês após a cirurgia de revascularização do miocárdio. Esses parâmetros devem ser objetos de pesquisa para enfermeiros visando melhorar a assistência e o ensino de enfermagem nesta área.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  

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O peso de uma jamantinha

Posted in Coração by adilson borges on 13 de abril de 2009

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Quando se está vivo, a  jamanta vira uma dorzinha passageira

Quando se está vivo, a jamanta vira uma dorzinha passageira

 

–Quer saber a verdade? Acho que estou vivendo o momento mais feliz da minha vida! 

 Minha amiga, dessas a que se pode falar tudo, ficou, é claro, espantada. Mas calou-se respeitosamente  ao ouvir de mim esta frase em 27 de março, um dia depois de eu ter saído do hospital, onde fiquei 11 dias – após cair na faca em uma cirurgia que estabeleceu duas pontes de safena e uma mamária no meu assanhado peito, de 56 anos.

Como podia ser feliz alguém que não passava um dia sem chorar, com dores 24 horas? O ex-presidente João Baptista  Figueiredo (1979 /1985), por exemplo, criou um trauma ao dizer em relação aos seus sentimentos nos dias posteriores à ponte de safena: “Uma jamanta passou sobre o meu peito”.

 Exagero ou não, já que a dor é sentimento muito particular, podemos, a princípio, chegar a outros consensos:

é foda ser feliz quando não se dorme naturalmente  com medo do que não se viu, mas o corpo sentiu e espíritos-de-porco sopraram. Sopraram? Não, contaram tudo ou quase tudo, inclusive suas surpreendentes  reações no período (das oito e meia  da manhã às nove e meia da noite) em que você  ‘morreu’ para renascer, no dia 17.

é foda ser feliz quando só se dorme com remédio que lhe tira o tirocínio e o deixa loucão,  sem controle da mente e da bexiga, o que o obriga até a usar fralda geriátrica.

é foda ser feliz quando o dia amanhece e você, tartaruga emborcada, fica gemendo, barriga para cima, (ainda dizem que “viver de papo pro ar” é viver bem) à espera do efeito do Tilex, além de mãos caridosas e fortes, para enfrentar a dor e levantar.

é foda, mas é possível ou pura loucura, sobretudo, quando você sabe que esta dor é passageira, como aquela que termina no vaso. Sente-se, ademais, em ebulição, em pleno jorro criativo –  no meu caso, tenho um plus, a música.  Sente-se com força para amar.  E sabe, sobretudo, que você está curado e não terá limitações (às vezes, temos que confiar cegamente no médicos) e apartado da morte. Por enquanto.

 

Como quase todo mundo. 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

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